No momento, você está visualizando 04/10 – São Amônio, o Grande, Confessor
Crédito: Editorial

Aos 22 anos, São Amônio viu-se diante de uma decisão contrária ao propósito de celibato que havia formado. Seu tio, que o acolhera e educara desde que ficara órfão, desejava que ele se casasse com uma jovem piedosa e abastada. Temendo desgostar o benfeitor, Amônio consentiu, mas confiou a Deus o desejo de viver em perfeita continência.

Depois das cerimônias do casamento, na primeira ocasião em que pôde conversar a sós com a esposa, explicou-lhe sua resolução e falou sobre o valor da castidade consagrada a Deus. Ela aceitou livremente seguir o mesmo caminho. Os dois passaram aquela noite em oração, pedindo a graça de permanecer fiéis ao compromisso assumido.

Da orfandade à vocação para o deserto

Amônio nascera em uma pequena localidade próxima de Alexandria, no Egito, em uma família pobre e muito religiosa. Tendo perdido cedo os pais, foi recebido na casa de um tio, que cuidou de sua formação no temor de Deus.

Durante 22 anos, Amônio e sua esposa viveram juntos em continência perfeita, sem revelar aos outros a forma particular pela qual haviam ordenado sua vida matrimonial. Não se tratava de desprezo pelo matrimônio, mas de uma vocação extraordinária, abraçada por consentimento mútuo e sustentada pela oração.

Passado esse período, ambos sentiram o desejo de servir a Deus mais inteiramente na solidão. Depois de rezarem e de renunciarem aos bens temporais, separaram-se para seguir a vida eremítica. Amônio dirigiu-se à região da Nítria, conhecida por seus desertos e por suas comunidades de ascetas, e construiu uma pequena cela em uma montanha.

Ali, dedicou-se à oração, ao louvor de Deus, à meditação dos mistérios divinos e à mortificação. Procurava imitar os antigos eremitas que escolhera como modelos. A notícia de sua vida espalhou-se, e numerosas pessoas passaram a procurá-lo em busca de orientação espiritual. Algumas desejaram permanecer perto dele e servir a Deus sob sua direção; outras lhe levavam enfermos, esperando alcançar alguma graça por sua intercessão.

A restituição do animal roubado

Entre os episódios conservados pela tradição hagiográfica está o de uma criança acometida por grave perturbação. Seus pais pediram a Amônio que rezasse por sua cura. O eremita, porém, respondeu que eles próprios deveriam começar reparando uma injustiça:

“Devolvei à pobre viúva o novilho que lhe roubastes, e vosso filho recuperará a saúde.”

Surpreendidos porque Amônio conhecia um furto que haviam ocultado, os pais obedeceram e restituíram o animal. Segundo o relato, a criança ficou imediatamente livre de seu sofrimento.

O episódio apresenta uma lição precisa: o pedido de uma graça não dispensa a conversão, a reparação do mal cometido e a restituição do que foi injustamente tomado. Isso não autoriza atribuir automaticamente toda enfermidade a uma culpa pessoal; mostra, contudo, que o exame de consciência e o restabelecimento da justiça não devem ser esquecidos diante das provações.

A modéstia às margens do rio

Outra narrativa destaca a extraordinária modéstia de Amônio. Ao chegar a um rio que precisava atravessar, não encontrou embarcação. Pensou em passar a vau, mas hesitou porque teria de erguer as vestes e expor os pés e as pernas. Conforme a tradição, um anjo o transportou para a outra margem, em sinal do agrado de Deus por sua delicadeza de consciência.

Mais do que uma regra exterior aplicável indistintamente a todas as circunstâncias, o episódio manifesta a vigilância interior do eremita. A pureza que havia orientado sua decisão no início da vida adulta tornara-se uma disposição constante, presente até nos atos mais simples.

Uma vida inteiramente ordenada a Deus

São Amônio morreu pacificamente aos 62 anos; sua morte é situada aproximadamente no ano 348. Na mesma ocasião, um eremita conhecido por sua santidade, embora vivesse muito distante, teria contemplado uma alma subindo ao Céu acompanhada por numerosos espíritos celestes. Por inspiração divina, reconheceu nela a alma de Amônio, que conservara até a morte o compromisso de pureza assumido ainda no estado matrimonial.

Sua trajetória apresenta uma continuidade pouco comum. O jovem órfão educado pelo tio, o esposo que obteve o livre consentimento da mulher para uma vida de continência, o eremita da Nítria e o diretor espiritual procurado por muitos são etapas de uma mesma entrega. A solidão do deserto não foi uma fuga improvisada, mas o amadurecimento de uma resolução cultivada durante décadas pela oração, pelo domínio de si e pela fidelidade à graça.

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