Em 1562, São Luís Beltrão (Bertrand) deixou a Espanha e partiu com outros sacerdotes para as Índias Ocidentais. Desejava anunciar a fé cristã, conduzir almas a Nosso Senhor e, se necessário, entregar a própria vida nessa missão. Durante os anos seguintes, dedicou seus dias à pregação e à instrução religiosa, sem abandonar a vida de oração e as austeras penitências que praticava desde a juventude.
Nascido em Valência, na Espanha, em 1526, Luís dera desde a infância sinais da orientação que marcaria toda a sua existência. Aos sete anos, já recitava diariamente o Ofício de Nossa Senhora. Gostava de ir à igreja, obedecia prontamente aos pais e preferia a solidão, a oração, o estudo e as leituras espirituais às diversões próprias de sua idade.
Quando cresceu, chegou a retirar-se secretamente para uma região deserta, procurando entregar-se inteiramente à oração e à mortificação. Seu pai o trouxe de volta para casa, mas não conseguiu impedir que ele ingressasse na Ordem Dominicana. No convento, Luís progrediu de tal modo na vida religiosa que, depois de sete anos, recebeu a responsabilidade de formar os noviços.
Pregador e formador de almas
Além do trabalho dentro da ordem, era enviado a outras cidades para pregar. A narrativa de sua vida atribui a essas missões numerosas conversões e afirma que Deus lhe concedera particular discernimento das disposições interiores das pessoas, além do conhecimento antecipado de certos acontecimentos.
Um dos episódios relatados ocorreu quando encontrou um pastor e o advertiu de que havia três anos ele não fazia uma boa confissão. Exortou-o a não adiar sua reconciliação com Deus, pois a morte se aproximava, e se dispôs a absolvê-lo. O homem, inicialmente perturbado, reconheceu naquela advertência uma misericórdia divina, confessou-se com arrependimento e morreu três dias depois.
Esse zelo pelas almas atingiu sua expressão mais intensa nas Índias Ocidentais. São Luís passava o dia pregando e ensinando, sem se deixar vencer pelo cansaço. A tradição hagiográfica afirma que, embora falasse em uma só língua, era compreendido por povos de idiomas diferentes. Também registra diversos perigos dos quais teria sido preservado pela Providência.
Houve repetidas tentativas de envenená-lo. Em outra ocasião, um nobre julgou-se pessoalmente atingido por um sermão no qual o santo condenara determinado vício e decidiu atirar contra ele. Ao perceber a arma, São Luís fez o sinal da cruz. Segundo o relato, o agressor viu então um crucifixo em suas mãos, arrependeu-se e pediu perdão.
Também se conta que um grupo se preparava para apedrejá-lo, mas foi desarmado pela bondade de suas palavras e acabou pedindo instrução na fé cristã. Em outro episódio, um homem tentou golpeá-lo com um machado; a lâmina, porém, não o feriu e se cravou no chão. Tais acontecimentos eram compreendidos como sinais da proteção divina que acompanhava seu apostolado.
Regresso à Europa
Depois de vários anos de trabalho missionário, São Luís foi chamado de volta à Europa. Durante a viagem, uma violenta tempestade ameaçou a embarcação. A biografia tradicional relata que ele a acalmou fazendo o sinal da Santa Cruz.
Nos anos restantes, exerceu diferentes ofícios confiados pela obediência religiosa. Não procurava encargos nem honrarias, mas aceitava as responsabilidades que lhe eram impostas. Sua vida interior continuava sustentada por longos períodos de oração: dedicava duas horas da manhã e outras duas da tarde a esse exercício, além de elevar frequentemente o pensamento a Deus ao longo do dia.
Sua caridade manifestava-se tanto no desejo de honrar a Deus quanto na preocupação pela salvação do próximo. Em certa ocasião, ofereceu a própria vida pela preservação de outro missionário que trabalhava com grande fruto espiritual. Ao mesmo tempo, não atribuía a si os resultados de seu apostolado. Quando alguém o elogiava pelos milagres, respondia que tais fatos não constituíam prova suficiente de santidade, mas eram efeitos da fé e da ação divina.
A humildade de São Luís aparecia também em sua reação aos louvores e às ofensas. Costumava retirar-se quando era elogiado. Certa vez, alguns nobres o insultaram e o chamaram de homem perverso. Ele os ouviu em silêncio e respondeu que o conheciam melhor do que os demais. Uma máxima resumia essa disposição: desprezar a si mesmo, mas não aos outros; desapegar-se do mundo, sem se inquietar quando o mundo também o desprezasse.
Penitência, temor de Deus e confiança
São Luís preservou a pureza por meio da oração, da vigilância e da mortificação constante. Seu temor do juízo divino não o levava ao desânimo, mas a uma atenção rigorosa contra o pecado, à perseverança na penitência e à prática do bem. Mesmo depois de uma vida de trabalhos apostólicos, considerava-se necessitado das orações dos irmãos.
Essa atitude não deve ser confundida com a falta de esperança. Em sua última enfermidade, o temor foi gradualmente vencido pela confiança no amor de Deus. A mesma disposição aparecia na paciência com que suportava suas doenças. Embora tivesse empregado uma oração de São Vicente Ferrer em favor de outros enfermos, não quis utilizá-la para obter a própria cura. Preferia abandonar-se à vontade divina.
“Deixemos Deus agir segundo o seu beneplácito. Seja feita a sua vontade.”
Ele se afligia ao perceber os esforços feitos para aliviar seus sofrimentos, tanto por se julgar indigno de tantos cuidados quanto por desejar permanecer inteiramente submetido a Deus. Quando lhe perguntaram por que ainda se impunha penitências, apesar do corpo debilitado, respondeu que a morte estava próxima e que o Reino dos Céus exige esforço.
São Luís Beltrão morreu em 9 de outubro de 1581, aos 55 anos, na data que, conforme a narrativa de sua vida, ele próprio havia anunciado. Seus últimos momentos foram marcados por serenidade e confiança. A tradição também registra graças e curas obtidas por sua intercessão e junto de seus restos mortais.
Em sua vida, o trabalho missionário não esteve separado da disciplina interior. A coragem diante dos perigos, a perseverança na pregação e a solicitude pelas almas nasciam de uma existência ordenada pela oração, pela penitência e pela obediência. Seu temor de ofender a Deus tornou-se vigilância; sua humildade impediu que atribuísse a si mesmo os frutos do apostolado; e sua conformidade com a vontade divina preparou-o para enfrentar a morte em paz.




