A igreja de Nossa Senhora em Blaquerna estava repleta. Constantinopla encontrava-se cercada pelos sarracenos, e a população, tomada pelo temor, reunira-se para uma vigília de oração diante do manto da Santíssima Virgem ali conservado. Entre os fiéis estavam Santo André, conhecido como o Louco por Cristo, e seu discípulo Epifânio.
A tradição hagiográfica relata que, ao término do ofício, André viu a Mãe de Deus aproximar-se em meio a uma luz radiante. Ela vinha acompanhada por São João Batista, São João Evangelista e um grande coro de santos. Dirigindo-se ao altar, ajoelhou-se e rezou longamente, derramando lágrimas. Depois, levantou-se, retirou da cabeça um véu luminoso e estendeu-o sobre o povo reunido.
Epifânio também teria contemplado a visão. Ambos compreenderam aquele véu como sinal da proteção de Nossa Senhora sobre a cidade. O relato prossegue afirmando que a notícia se espalhou por Constantinopla, o inimigo recuou e a capital foi preservada.
De escravo a homem de oração
Os relatos biográficos apresentam Santo André como um eslavo proveniente da região meridional de Rus-Ucrânia. Levado a Constantinopla com outros escravos, passou a servir na casa de um senhor abastado. Foi ali que conheceu e abraçou a fé cristã.
André meditou particularmente nas palavras de São Paulo: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo”. Inspirado por essa passagem da Primeira Epístola aos Coríntios, adotou uma forma de vida que, aos olhos do mundo, parecia insensata. Daí a designação pela qual ficou conhecido: o Louco por Cristo.
Depois de obter a liberdade, dedicou grande parte de seu tempo à oração e à leitura das Sagradas Escrituras. Esses traços — a liberdade alcançada, a vida recolhida e o constante recurso à oração — constituem o núcleo de sua breve biografia conservada no material hagiográfico.
Uma cronologia discutida
Não há consenso sobre a época em que Santo André viveu nem, por consequência, sobre a data histórica da visão em Blaquerna. Uma corrente situa sua vida no reinado do imperador Leão I, entre 457 e 474. A opinião apresentada como majoritária, porém, coloca-o durante o governo de Leão VI, entre 886 e 911, no início do século X.
Essa divergência impede estabelecer com segurança o momento histórico do episódio. Ela não altera, contudo, o lugar ocupado pela visão na tradição litúrgica oriental, na qual o véu contemplado por André se tornou símbolo da intercessão e da proteção da Santíssima Virgem.
O véu e a festa da Proteção da Mãe de Deus
Em ucraniano, o véu recebe o nome de pokrov. Dessa palavra veio a designação da festa da Proteção da Santíssima Mãe de Deus, também conhecida como festa do Véu ou do Patrocínio de Nossa Senhora.
A celebração existiu inicialmente como festa local entre os gregos, mas deixou de ser observada por eles depois da queda de Constantinopla, em 1453. Não se sabe com precisão por que o primeiro dia de outubro foi escolhido. Uma possibilidade é que a visão tenha ocorrido nessa data. Outra explicação a relaciona à memória de São Romano, o Melodista, autor de numerosos hinos em honra da Santíssima Virgem. No dia seguinte à festa, a tradição litúrgica recorda Santo André, o Louco por Cristo.
O ofício da Proteção da Mãe de Deus é descrito como semelhante ao das grandes festas e inclui uma vigília noturna, embora a celebração não pertença ao grupo das doze grandes festas do rito oriental e não possua pré-festa nem pós-festa. Em 1891, o Sínodo de Lviv, ao reduzir o número de dias festivos, determinou que fosse transferida para o domingo.
Uma vida ligada à visão de Blaquerna
Poucos dados biográficos sobre Santo André chegaram até nós: sua origem eslava, a condição inicial de escravo, o encontro com a fé cristã, a liberdade e a dedicação à oração e às Escrituras. Sua memória permanece especialmente unida ao episódio de Blaquerna, no qual ele e Epifânio contemplaram Nossa Senhora em oração pelo povo aflito.
Assim, a trajetória daquele que aceitara parecer louco aos olhos dos homens ficou vinculada à imagem luminosa do véu estendido sobre os fiéis. Para a tradição cristã oriental, esse véu tornou-se expressão visível da confiança na intercessão materna de Nossa Senhora.




