Os povos e as nações — assim como os indivíduos — recebem de Deus uma missão segundo os desígnios de sua Providência. A respeito da França, o papa Gregório IX, em carta de 21 de outubro de 1239 ao rei São Luís, escreveu estas belas palavras: “Deus, a quem obedecem as legiões celestes, tendo estabelecido diferentes reinos aqui na Terra segundo a diversidade de línguas e climas, confiou a muitos governos missões especiais para o cumprimento de seus planos. E, assim como outrora escolheu a tribo de Judá acima dos demais filhos de Jacó e lhe concedeu bênçãos especiais, também escolheu a França acima de todas as outras nações da Terra para a proteção da fé católica e a defesa da liberdade religiosa.”1
No entanto, assim como os indivíduos, as nações e os povos também podem abandonar o chamado de Deus e voltar-se contra ele. Foi isso que, infelizmente, aconteceu com a França e os demais países da antiga Cristandade, bem como com praticamente o mundo inteiro, quando adotaram uma filosofia oficialmente secular e anticatólica.2
“Deus o quer” ou “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”?
Pode-se dizer que a França está dividida entre duas mentalidades, duas filosofias, talvez duas religiões, expressas em duas proclamações antagônicas.
No Concílio de Clermont, em 1095, quando o papa Urbano II pregou a Primeira Cruzada para libertar o Santo Sepulcro e defender os cristãos do Oriente perseguidos pelos muçulmanos, os presentes bradaram, em um gesto espontâneo e entusiástico: “Deus vult!” “Deus o quer!” “É a vontade de Deus!”3
Foi essa submissão à vontade de Deus, colocando-a acima da própria vontade, que levou os grandes heróis e santos franceses a lutar em defesa da Fé, da verdade e da pátria.
Em oposição, a trilogia que se tornou célebre com a Revolução Francesa de 1789 — “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, lema da República Francesa laicista — expressa uma mentalidade diferente.
Considerando isoladamente cada palavra dessa trilogia e atribuindo-lhe o sentido que possui na sã filosofia e na teologia tradicional, nada há de censurável. Mas, reunidas no lema que foi forjado e empregado como símbolo de uma revolução igualitária e ateia, seu significado muda. A trilogia deve ser analisada no sentido histórico em que foi concebida e que ainda conserva hoje.
Usado pela primeira vez por Robespierre
Segundo o site da Presidência da República Francesa, “as noções de liberdade, igualdade e fraternidade não foram inventadas pela Revolução. Uma associação mais estreita entre os conceitos de liberdade e igualdade era frequente durante o Iluminismo, particularmente em Rousseau e Locke. Contudo, foi somente na Revolução Francesa que eles foram reunidos em um lema tripartite.”4
Foi precisamente Robespierre, membro do famigerado Comitê de Salvação Pública da Revolução Francesa — responsável pela morte de milhares de pessoas —, quem empregou pela primeira vez a trilogia “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, em um discurso de 5 de dezembro de 1790.
Ao falar sobre a organização das Guardas Nacionais, Robespierre propôs: “XVI. Eles trarão sobre o peito estas palavras gravadas: O POVO FRANCÊS e, abaixo: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. As mesmas palavras serão inscritas em suas bandeiras, que ostentarão as três cores da nação.”5
Ideias que preparam o comunismo
Portanto, esse lema deve ser analisado tanto como uma síntese do racionalismo iluminista quanto como um símbolo da Revolução Francesa. Numerosos papas fizeram isso, a começar por Pio VI, em 1791, em uma carta ao arcebispo de Paris. Vários pontífices posteriores seguiram-no nisso, entre eles o papa Pio IX, que denunciou o perigo, dizendo: “E, quanto a esses sistemas e doutrinas corruptos, já é bem conhecido de todos que, fazendo mau uso dos termos liberdade e igualdade, eles procuram incutir nas massas os princípios perniciosos do socialismo e do comunismo.”6
De fato, o lema da Revolução Francesa exerce apelo sobre socialistas e comunistas, como se pode constatar em uma publicação do Partido Comunista Português: “O clima revolucionário que crescia por todo o país […] alimentado pela ação esclarecedora de grandes pensadores franceses do ‘Iluminismo’, como Voltaire (1684–1778), Montesquieu (1689–1755), Rousseau (1712–1778), Diderot (1713–1784), d’Alembert (1717–1782), Holbach (1723–1789), Helvétius (1715–1771) e outros. […] Suas ideias condensaram-se no arrebatador lema: ‘Liberdade — Igualdade — Fraternidade!’”7
A visita de Leão XIV à França
No que diz respeito à França, onde o papa Leão XIV foi recebido com tanto entusiasmo pelo povo, encontramos, simultânea e paradoxalmente, tanto um eco do Deus vult — entre os fiéis católicos — quanto a persistência de Liberdade, Igualdade, Fraternidade — especialmente entre as autoridades.8
É surpreendente que Leão XIV, embora tenha falado das “profundas raízes cristãs” da França, também tenha elogiado o humanismo renascentista, a filosofia iluminista e o lema “Liberté, Égalité, Fraternité”. Em seu discurso às autoridades reunidas no Palácio do Eliseu, sede da Presidência, o papa disse:
A França é uma terra de profundas raízes cristãs. Desde a época de Santo Irineu e do batismo de Clóvis, a alma da nação extraiu do cristianismo um rico ímpeto espiritual, cultural, intelectual, artístico e missionário, que continua a ser sentido no mundo de hoje. Foi assim que o humanismo floresceu na França do século XVI, como meio de unir a herança da Grécia e da Roma clássicas à fé cristã. Com os grandes pensadores do Renascimento e, mais tarde, do Grande Século, sucedidos pelos do Iluminismo, a França foi responsável por avanços significativos em nosso mundo, entre eles o reconhecimento dos direitos humanos fundamentados na natureza da pessoa humana, particularmente a liberdade religiosa. Essa atenção constante à dignidade inerente a cada pessoa encontra eco em seu lema nacional. Liberdade, igualdade e fraternidade não são meras palavras estampadas na fachada de seus edifícios públicos; elas remetem a imperativos éticos universais que também encontram na mensagem do Evangelho uma fonte inesgotável de inspiração e realização.9
Elogiar o humanismo do Renascimento — que abandonou a noção do sobrenatural e exaltou um naturalismo pagão como um aperfeiçoamento da filosofia medieval — não é compreensível em um papa. Segundo a Enciclopédia Católica, “O conceito transcendental e extramundano da vida, que até então fora dominante, entrou agora em conflito com uma visão mundana, humana e naturalista, centrada na natureza e no homem.”10
É ainda mais difícil compreender o elogio do papa ao Iluminismo racionalista francês, que conduziu à Revolução Francesa. A Enciclopédia Stanford de Filosofia apresenta o Iluminismo francês da seguinte maneira:
O núcleo do Iluminismo do século XVIII é a atividade, pouco organizada, de proeminentes pensadores franceses de meados daquele século, os chamados “philosophes” — por exemplo, Voltaire, d’Alembert, Diderot e Montesquieu […]
O Iluminismo é frequentemente associado às suas revoluções e aos seus ideais políticos, especialmente à Revolução Francesa de 1789. A energia criada e expressa pela efervescência intelectual dos pensadores iluministas contribuiu para a crescente onda de agitação social na França do século XVIII. A agitação social culminou na violenta convulsão política que varreu o ancien régime, tradicional e hierarquicamente estruturado — a monarquia, os privilégios da nobreza e o poder político da Igreja Católica.11
Por fim, afirmar que as palavras do lema Liberté, Égalité, Fraternité “remetem a imperativos éticos universais que também encontram na mensagem do Evangelho uma fonte inesgotável de inspiração e realização” é deixar de considerar como o lema foi historicamente forjado e como as palavras que o compõem eram entendidas durante a Revolução Francesa. Ele é o símbolo da “laïcité” — o laicismo — da República Francesa, que tantas vezes, nos últimos séculos, perseguiu a Igreja, expulsou ordens e congregações religiosas e confiscou os bens da Igreja.12
Como já foi dito, cada palavra da trilogia, entendida segundo a sã filosofia e a teologia tradicional, pode ter um significado correto. Mas, tal como foi concebida durante a Revolução Francesa e ainda hoje é compreendida, essa trilogia é anticatólica.
Uma pastoral voltada para a conversão
O elogio de Leão XIV ao Iluminismo e à trilogia revolucionária não foi apropriado sob a perspectiva pastoral, isto é, da aplicação prática dos princípios e das normas da Igreja Católica para conduzir as almas à verdade e à santidade, tendo em mente que a salvação das almas é a lei suprema da Igreja.13
Como foi dito, havia ecos do Deus vult,, e não de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, no entusiasmo dos jovens que foram ver o pontífice romano.
A França e o mundo serão convertidos
Antecipando a promessa de Nossa Senhora em Fátima — “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará” —, São Pio X pronunciou palavras extremamente consoladoras sobre a França em sua alocução de 29 de novembro de 1911. Podemos esperar que elas se apliquem também a todo o Ocidente e ao mundo:
Chegará um dia, e esperamos que não esteja distante, em que a França, como Saulo no caminho de Damasco, será envolvida por uma luz celeste e ouvirá uma voz que lhe repetirá: “Filha, por que me persegues?” E ela responderá: “Quem sois vós, Senhor?” E a voz acrescentará: “Eu sou Jesus, a quem persegues. É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão, pois, com tua obstinação, estás arruinando a ti mesma.” E ela, trêmula e atônita, dirá: “Senhor, que quereis que eu faça?” E Ele dirá: “Levanta-te, lava a imundície que te conspurcou, reaviva em ti os sentimentos adormecidos e o pacto de nossa aliança e vai, filha primogênita da Igreja, nação predestinada, vaso de eleição; vai, como no passado, e leva o meu nome diante de todos os povos e reis da Terra.”14
Notas de rodapé
- Gregório IX, “Carta a Luís IX da França” (21 de outubro de 1239), citada por São Pio X em “Parole del Santo Padre Pio X—Pubblicazione dei decreti sulle virtù eroiche di: Giovanna d’Arco, Giovanni Eudes, Francesco de Capillas, Giovanni Teofano Vénard e compagni” (13 de dezembro de 1908), https://www.vatican.va/content/pius-x/it/speeches/documents/hf_p-x_spe_19081213_decreto-beatificazione.html. [As traduções de fontes estrangeiras são minhas. Nas citações, meus destaques aparecem em itálico, enquanto os destaques originais aparecem em negrito.]
- Ver Plinio Corrêa de Oliveira, Revolution and Counter-Revolution (Spring Grove, Pensilvânia: The American Society for the Defense of Tradition, Family and Property, 1993), parte 1, caps. 2 e 3.
- Ver René Grousset, The Epic of the Crusades, trad. Noel Lindsay (Nova York: Orion Press, 1970), p. 4.
- “Liberty, Equality, Fraternity”, Elysee.fr, acesso em 2 de outubro de 2026, https://www.elysee.fr/en/french-presidency/liberty-equality-fraternity.
- “5 décembre 1790 ‘Liberté, Egalité, Fraternité’ Robespierre (Discours sur l’organisation des gardes nationales)”, Gauchemip.org, 4 de abril de 2018, https://www.gauchemip.org/spip.php?article4407. (MAIÚSCULAS no original.)
- Pio IX, encíclica Nostis et nobiscum (8 de dezembro de 1849), https://www.vatican.va/content/pius-ix/it/documents/enciclica-nostis-et-nobiscum-8-dicembre-1849.html.
- Partido Comunista Português–Organização Regional de Lisboa, “Liberdade, Igualdade, Fraternidade—A grande Revolução Francesa de 1789 e suas repercussões”, ABC do Marxismo-Leninismo A, nº 4 (1976) (Lisboa: Editorial Avante!), https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/abc-marxismo/a04.htm.
- Ver Axel Chouvel, “‘Que Dieu bénisse la France’: Ces 4 jours où Léon XIV a enthousiasmé les Français”, Le Figaro, 28 de setembro de 2026, https://video.lefigaro.fr/figaro/que-dieu-benisse-la-france-ces-4-jours-ou-leon-xiv-a-enthousiasme-les-francais-20260928.
- Leão XIV, “Discurso do papa Leão XIV — Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio do Eliseu” (25 de setembro de 2026), Vatican.va, https://www.vatican.va/content/leo-xiv/en/speeches/2026/september/documents/20260925-francia-autorita.html.
- Klemens Löffler, “Humanism”, The Catholic Encyclopedia (Nova York: Robert Appleton Company, 1910), 7:538, https://archive.org/details/catholicencyclop07herbuoft/page/538/mode/1up.
- William Bristow, “Enlightenment”, em The Stanford Encyclopedia of Philosophy, orgs. Edward N. Zalta e Uri Nodelman (outono de 2023), https://plato.stanford.edu/archives/fall2023/entries/enlightenment.
- Ver Adrien Dansette, Under the Third Republic, vol. 2 de Religious History of Modern France, trad. John Dingle (Nova York: Herder and Herder, 1961).
- O cânon 1752 do Código de Direito Canônico de 1983 declara: “A salvação das almas, que deve ser sempre a lei suprema na Igreja, deve estar diante dos olhos.” Acesso em 11 de outubro de 2026, https://www.vatican.va/archive/cod-iuris-canonici/eng/documents/cic_lib7-cann1732-1752_en.html.
- Pio X, “Allocutio—Habita occasione impositionis b freti novis cardinalibus [Alocução consistorial Vi ringrazio]” (29 de novembro de 1911), em Acta Apostolicae Sedis (Roma: Typis Polyglottis Vaticanis, 1911), ano 3, vol. 3, p. 657, https://www.vatican.va/archive/aas/documents/AAS-03-1911-ocr.pdf.
Fonte: Return to Order — https://www.returntoorder.org/2026/10/leo-xivs-journey-to-france-deus-vult-or-liberty-equality-fraternity




