No momento, você está visualizando Distúrbios na França — este é o futuro da Europa?
Crédito: Editorial

Em poucas semanas, a França mostrou ao mundo duas faces radicalmente diferentes. Enquanto uma multidão se reunia ordeiramente em oração e comunhão, a outra se voltava com violência contra os símbolos da ordem e do patrimônio cultural.

Protestos na França por poder de compra, educação e serviços públicos

Em 17 de outubro de 2026, centenas de milhares de franceses saíram às ruas. Oficialmente, tratava-se de preocupações com o poder de compra, a situação da educação e os serviços públicos. Sindicatos, organizações estudantis e parcelas da população manifestaram descontentamento com a alta dos preços e com aquilo que consideravam o desmonte do Estado de bem-estar social. Na grande mídia, predominou sobretudo a narrativa das reivindicações legítimas de cidadãos trabalhadores e de jovens que veem seu futuro ameaçado. No entanto, quem acompanhou as imagens nas redes sociais e na cobertura jornalística local viu algo que mais parecia uma guerra civil.

Incêndio na histórica prefeitura de Limoges simboliza o caos

Em numerosas cidades, os protestos resultaram em uma explosão generalizada de caos e violência. Em Paris, carros foram incendiados, barricadas foram erguidas e lojas foram saqueadas. Policiais foram atacados com projéteis. Em Lyon, um posto de turismo foi consumido pelas chamas. Em Marselha, a prefeitura foi invadida. O símbolo mais eloquente da explosão, contudo, foi Limoges. Ali, manifestantes mascarados incendiaram a prefeitura histórica, um edifício neorrenascentista de 1883. O telhado e a torre do relógio desabaram. O prefeito do departamento falou em uma “catástrofe para o patrimônio”.

França torna-se vítima do terrorismo de extrema esquerda e do islã de gangues

Nas redes sociais, muitas pessoas observaram que esse singular edifício histórico havia sobrevivido a duas guerras mundiais, mas não à imigração em massa. Inscrições como “Vive la Commune” (“Viva a Comuna”) apareceram na fonte diante do prédio. O principal suspeito, detido em 20 de outubro de 2026 em conexão com o incêndio, é um homem de 34 anos que as autoridades e a imprensa francesas associam reiteradamente à ultragauche (o movimento de extrema esquerda ou ultraesquerda). Em outras grandes cidades, blocos negros e saqueadores oportunistas são as forças motrizes da violência e da destruição. Milhares de pessoas foram presas; quase mil policiais ficaram feridos. Há muito isso deixou de ser uma manifestação que saiu do controle: trata-se de um ataque deliberado à ordem pública e à autoridade estatal.

Visita do papa Leão XIV à França em setembro de 2026

Exatamente três semanas antes, de 25 a 28 de setembro, a França havia mostrado uma face inteiramente diferente. O papa Leão XIV realizou sua primeira viagem apostólica oficial, em dezoito anos, à “filha primogênita da Igreja”. Estima-se que entre setecentas e oitocentas mil pessoas tenham se reunido na Place de la Concorde e ao longo da Champs-Élysées para uma missa ao ar livre. No Stade de France, cerca de oitenta mil jovens rezaram com o papa. Outras grandes reuniões ordeiras ocorreram em Lourdes e Metz. Apesar desses números vertiginosos, todos os eventos transcorreram em uma atmosfera de oração, serenidade e comunhão. O contraste com outubro dificilmente poderia ter sido maior.

As duas faces da França segundo a análise de Plinio Corrêa de Oliveira

Esses dois momentos não são acontecimentos isolados. Eles revelam duas faces da mesma França — e da luta cultural no Ocidente, na qual a França desempenha um papel fundamental, precisamente por sua história cristã secular. Em sua obra-prima, Revolução e Contrarrevolução (1959), o professor Plinio Corrêa de Oliveira descreveu com precisão e expôs detalhadamente essa dinâmica. Ele via a história do Ocidente como um processo revolucionário de séculos, cujo objetivo é minar a ordem cristã. Esse processo, impulsionado pelo orgulho ou pela soberba — igualitarismo e rejeição de toda hierarquia — e pela sensualidade — repúdio às restrições morais e jurídicas —, apresenta três grandes fases: a pseudo-Reforma protestante, a Revolução Francesa e o comunismo. Para Oliveira, a Revolução Francesa de 1789 foi o momento em que esse espírito se impôs política e violentamente: a destruição da monarquia, da nobreza e da Igreja em benefício de um utopismo igualitário e secular.

A França cristã diante da França revolucionária

Nessa análise do professor Oliveira, não existe apenas uma França, mas duas. De um lado, a França da civilização cristã, hierárquica, sacral, ordenada e patriótica no sentido original da palavra — enraizada na fé, na família e na tradição. De outro, a França da Revolução: o espírito do caos, a rejeição da autoridade, a violência igualitária que ataca edifícios, instituições e símbolos do passado. As imensas e pacíficas reuniões em torno do papa representam a primeira França: um povo que, apesar da secularização e da doutrinação esquerdista, ainda é capaz de se organizar. Os incêndios criminosos, saques e ataques a edifícios públicos representam a segunda: o impulso revolucionário que nunca se extinguiu e que, a cada oportunidade, procura destruir os vestígios da ordem.

Continuação da Revolução no século XXI

Oliveira ressaltava que a Revolução não terminou em 1789. Ela se transforma e retorna sob novas formas. Os grupos de extrema esquerda que hoje incendeiam edifícios históricos agem com o mesmo espírito dos jacobinos que profanaram igrejas e destruíram o Antigo Regime. O fato de frequentemente encontrarem apoio ou silêncio em parcelas da imprensa e da política se enquadra no padrão descrito por Oliveira: as fases “moderadas” da Revolução preparam as fases mais radicais. Quando o centro não enfrenta as causas da dissolução da ordem pública — ou até as favorece por meio de políticas que relativizam a hierarquia, as fronteiras e a ordem moral —, cria o espaço no qual a ala extremista pode atacar.

Duas visões de futuro para a Europa: restauração ou ruína

Essas duas faces da França são, ao mesmo tempo, duas visões de futuro para a Europa. Uma é a da restauração: a defesa e a reconstrução da civilização cristã, com sua ênfase na ordem, na fé, na família, na tradição e no reconhecimento das hierarquias naturais. A outra é a da Revolução continuada: uma dissolução cada vez maior no caos, na violência e na anarquia, com a destruição dos símbolos do passado e a perda da autoridade do Estado. As imagens de setembro e outubro deixam claro que ambas as forças estão presentes. A questão é qual delas prevalecerá. A Europa está em uma encruzilhada. Se conseguirá defender e restaurar a ordem cristã ou se sucumbirá ao fogo e à violência da Revolução dependerá das escolhas feitas nos próximos anos — e da disposição de seus povos para extrair as lições da história.

Autor: Simon Roothaan | Cultuur onder Vuur 

Artigo Editado.


Fonte: Cultuur onder Vuur — https://cultuurondervuur.nl/artikelen/rellen-in-frankrijk-is-dit-de-toekomst-van-europa

Deixe um comentário