Em Saigon, no dia 11 de junho 1963, ocorreu um fato que alcançou rapidamente repercussão mundial.

Os budistas do Vietnã do Sul, alegando que não gozam de paridade de condições com os católicos, estão movendo já há algum tempo grande campanha contra o governo Ngo Dihn Diem, que acusam de favorecer a Santa Igreja.

Os companheiros de Quang-duc derramam gasolina sobre ele

Ao que parece essa “acusação”, que só reverte em glória para o Presidente sul-vietnamita, impressionou menos a população do que desejavam os budistas. Só assim se explica que eles tenham preparado, em uma praça central de Saigon, um espetáculo destinado a abalar seus correligionários e impressionar a opinião mundial.

No momento em que, com a presença do chefe do Estado, dos membros do governo e do corpo diplomático, se celebrava na Catedral uma Missa solene por alma do pranteado Pontífice João XXIII, os sacerdotes budistas, de cabeça raspada e envergando seus característicos trajes amarelo-açafrão, saíram indignados de um pagode onde haviam realizado uma cerimônia religiosa. Precedia-os um automóvel. Chegando ao local previsto, o veículo se deteve, e dele desceram três bonzos. Ao mesmo tempo os manifestantes formavam um círculo em torno do automóvel, impedindo que dele se aproximassem outras pessoas.

Um dos bonzos que descera do carro, o setuagenário Tchich Quang-duc, sentou-se com as pernas cruzadas e as mãos postas. Seus dois companheiros derramaram gasolina sobre ele. Quang-duc então ateou tranqüilamente fogo a seus próprios trajes, e o bonzo suicida se converteu assim em tocha viva, permanecendo imóvel até que seu corpo ficasse inteiramente carbonizado, quando então [caiu] para trás.

Depois de atear fogo às vestes, o bonzo permanece imóvel

Terminada a queima do cadáver, oito monges desfraldaram uma bandeira budista, que levaram em passeata pelas ruas.

Durante a lamentável cena, a polícia tentou intervir, sendo impedida pelos bonzos, que lhe resistiram aos brados. Os policiais detiveram porém 51 monjas e dez outras mulheres que, sentadas em círculo perto do local em que ocorrera o suicídio, entoavam cânticos religiosos em louvor de Quang-duc.

Abstemo-nos de comentar aqui o furor contra a Santa Igreja de Deus, que levou o bonzo a matar-se. Consideramos o simples fato do suicídio.

Quem quer que conserve algum senso moral não pode deixar de ter horror ao assassínio. E isto máxime quando o assassino, numa verdadeira aberração, volta contra si mesmo a arma mortífera.

Ora, esse crime, qualificado tal pela moral cristã e por todos os Códigos que dela receberam benéfica inspiração, foi praticado pelo bonzo Quang-duc em um ato plenamente aprovado pela sua seita. Com efeito, foi como que em um desdobramento da cerimônia realizada no pagode, que a lúgubre ação foi efetuada. O suicida era bonzo, bonzos eram os dois cúmplices – que segundo a adequada qualificação de nosso Código Penal são criminosos – incumbidos de embeber de gasolina as vestes do ancião.

Diante dos outros bonzos, impassíveis, o corpo carbonizado cai afinal para trás ( fotos API)

Bonzos eram os que, também cúmplices, resistiram à polícia para que o suicida não recebesse socorro. Budista foi a bandeira que em sinal de triunfo se desfraldou, consumada a incineração. E era a alma do budismo que se manifestava nas canções das monjas e demais mulheres que depois exaltaram o feito ignóbil.

Para que “Catolicismo” publica todos estes pormenores? Por que estampa essas horrendas fotografias?

Para atingir de modo eficiente e vivo um fim muito importante: armar seus leitores com um argumento claro, palpável, atual, para demonstrarem a terceiros quanto há de tolo e de falso na afirmação tão corrente em nossos dias, de que todas as religiões são boas.

É boa uma religião que faz do suicídio um uso destes?

Mas, dirá alguém, esse bonzo não revelou real heroísmo? Não tinha razão a agência telegráfica que o qualificou de mártir?

Para demonstrar quanto é errado este modo de entender, apelamos para a autoridade do grande Doutor da Igreja, São Bernardo.

No ano de 1143 alguns membros de uma seita maniquéia foram presos em Colônia e levados à barra de um tribunal. Como se negassem a abjurar da heresia, a populaça deles se apoderou e os queimou vivos em uma fogueira. Suportaram seus sofrimentos não somente com ânimo forte, mas até com manifestações de alegria. Um dos juízes, impressionado, escreveu a São Bernardo, pedindo-lhe uma explicação para o mistério.

Eis a resposta do Santo, que começa por dizer que aprovava o zelo da multidão, mas não a ação de arrebatar os réus das mãos do tribunal: “Alguns fiéis ficaram espantados de ver esses hereges irem para a morte com júbilo e alegria. Mas esse espanto torna manifesto que eles não se compenetraram suficientemente de quão grande é a força de Satanás tanto sobre os espíritos e corações quanto sobre os corpos daqueles que já se entregaram a ele. Não é mais estranho para um homem lançar mãos violentas em si mesmo, do que voluntariamente submeter-se à violência de outrem? E no entanto o demônio pode prevalecer sobre muitos para que façam isto. Pois muito freqüentemente ouvimos de pessoas que miseravelmente se afogaram ou se enforcaram por sugestão sua. Foi sem dúvida o demônio que persuadiu o infeliz Judas a pôr fim à vida. Parece-me, todavia, maior e mais espantosa manifestação de força que ele pudesse colocar no coração do Apóstolo infiel o desígnio de trair seu Mestre, do que induzi-lo depois a se enforcar. Não há conseqüentemente comparação entre a constância dos santos mártires e a obstinação demonstrada por esses hereges. No caso dos primeiros, o desprezo pela morte foi um efeito da piedade; nos últimos, procedeu esse desprezo da dureza do coração. O sofrimento foi o mesmo para todos, mas as disposições variaram largamente” ( “Life and Teaching of St. Bernard”, Aibe J. Luddy O.Cist. – Dublin, 1927 – p. 492 ).

A tal propósito, o autor da obra aqui citada acrescenta: “Santo Agostinho explica do mesmo modo a diferença entre a fortaleza revelada pelos mártires cristãos e a dos infiéis: “A constância do pagão brota do orgulho; a do cristão, da caridade” ( Contra Juliano, I, I ). “Não é o sofrimento, mas a causa que faz o mártir” ( In Ps. LXXXIV ). E daqueles que morreram pelo erro diz ele: “Correram bem, mas fora da pista – Bene cucurrerunt sed extra viam”. A mesma explicação é dada pelo II Concílio de Orange, can. 17″ ( ibid ).

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