A Eucaristia e o Apostolado no Mundo Moderno

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Conferência pronunciada na Sessão Solene da Semana Eucarística de Campos, 23 abril de 1955

Acesse aqui a Coletânea sobre Corpus Christi: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Especial_SantissimoSacramento.htm

“Anais da Semana Eucarística de Campos – 17 a 24 de abril de 1955”, pp. 101 a 113

Eminentíssimo Sr. Cardeal, D. Jaime de Barros Câmara

Exmo. Revmmo. Sr. Bispo Diocesano, D. Antônio de Castro Mayer

Exmos. Revmos. Srs. Bispos presentes

Exmas. Autoridades

Revdas. Religiosas

Ostensório do IV Congresso Eucarístico Nacional de 1942 em São Paulo (Museu de Arte Sacra de SP)

O tema da Conferência – A Eucaristia e o Apostolado no Mundo Moderno

Tema rico em considerações que contém quatro substantivos, ou quatro palavras, cada um deles importante, mas muito desiguais, como precisão e nitidez.

Pois se é verdade que o conceito de Eucaristia é preciso, se é verdade que o conceito de apostolado é preciso, o conceito de Mundo já é um pouco menos preciso, e o mais delicado, o mais melindroso de todos estes conceitos vem a ser o conceito de “moderno”.

O que nós entendemos por mundo e o que nós devemos entender por mundo moderno. 

Que é o Mundo?

Mundo, o mundo, no Evangelho fala-se do mundo. Nosso Senhor recusou-se a rezar pelo mundo, mas os Apóstolos receberam a incumbência de evangelizar todos os povos e isto quer dizer evangelizar o Mundo. O que quer dizer propriamente a palavra “Mundo”?

O Mundo na linguagem corrente, é o globo em que vivemos, é a Humanidade toda, é uma determinada sociedade de vida temporal que neste sentido se distingue da Igreja; em outro sentido é uma espécie de reino das trevas, do demônio; não é a sociedade temporal, mas é propriamente o mal, o mal de que Satanás é o príncipe, e neste sentido, Satanás, é o príncipe deste mundo. 

Valor das Palavras

Mundo moderno: o que quer dizer esta palavra “moderno”? Quantos sentidos na linguagem corrente para esta palavra! E entretanto, os historiadores e sociólogos dão cada vez mais importância, em nossos dias, ao estudo das palavras, e das palavras da linguagem corrente, como expressão de estados de espírito, de pensamentos, de idéias! E se é verdade que na sociologia e na história, cada vez mais se dá importância à história das idéias e à história das palavras, é muito certo que, quando algum dia se fizer a história completa, tenebrosa e iluminada por outro lado, deste nosso tormentoso século XX, há de ser necessário consagrar um capítulo especial a essa palavra sedutora, viscosa, com uma porção de sentidos diversos e quase contraditórias que vem a ser a palavra “moderno”. 

Vários sentidos da Palavra “Moderno”

1° sentido: Moderno, o que é moderno? Em algum sentido da palavra, “mundo moderno” é o mundo de hoje por contraposição ao mundo de ontem, e então nós podemos dizer que o mundo moderno não se compõe apenas de coisas modernas. Pois que todo o passado da Humanidade ainda integra o Mundo moderno. E nós temos no mundo moderno, ao mesmo tempo que alguns clarões da era supernova e superatômica, que se delineia no extremo do nosso Horizonte, para futuro, nós temos no passado, considerando o mundo moderno, nós temos no passado ainda longínquos clarões dos primórdios de nossa civilização, que ainda brilham, que ainda existem e que ainda vivem. E o instante atual, o instante moderno, este momento em que vos falo é composto de elementos heterogêneos, que vão desde as revivescências, desde as permanências do mais antigo passado, até às perspectivas do mais indeciso e do mais remoto futuro. De remoto futuro, sem dúvida, porque o futuro também compõe de certo modo o mundo moderno. O quadro da vida de um homem, num determinado instante é não só o quadro que ele tem diante de si, mas o quadro das perspectivas, dos projetos, dos prognósticos que ele traz dentro da alma.

E assim, o Mundo moderno se nos apresenta um mundo rico em aspectos contraditórios, em aspectos opostos. Desse passado do qual nós procedemos, e em relação ao qual, daqui a pouco como veremos, se procura estabelecer uma contraposição com a palavra moderno, nesse passado, quanta coisa de glorioso nos resta. Temos, antes de tudo, algo que é mais do que passado, que é mais do que presente, que é mais do que futuro porque é divino, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

[Aplausos prolongados].

Modernidade da Igreja

Instituição velha de quase dois mil anos, a mais jovem, a mais virente, a mais promissora das instituições do mundo moderno. E nesta civilização, que por tantos aspectos parece uma civilização que desaba e caminha para o ocaso, nesta civilização em que tanta coisa está morrendo, só há uma coisa que não está morrendo, e que promete uma juventude indefinida, é essa Igreja Católica. Moderna em todos os tempos, neste sentido da palavra moderna. Moderna, quando ela nasceu do flanco divino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Moderna ainda quando, nos últimos momentos da Humanidade, quando as potências do Céu se perturbem, quando todos os homens tomados de pânico, estiverem no momento de verem surgir no mais alto dos céus o Filho do Homem, com grande majestade que os julgará decisivamente com terror, ainda neste momento será a mais eterna das instituições, a divina, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

[Aplausos prolongados].

O Antigo no Moderno

Modernos, neste sentido, podemos chamar também tantos ritos que nos vêm do passado. A Inglaterra de hoje não é uma Inglaterra moderna? Essa Inglaterra moderna não celebrou, há pouco com ritos medievais magníficos, as pompas de sua monarquia tradicional, dando um exemplo ao mundo do culto do seu passado? Não é moderna a realeza inglesa que parece entretanto sair toda ela inteira de um livro de iluminuras da Idade Média? E ao lado de tanta glória, de tanta beleza do passado, quantos detritos do passado que ainda no mundo de hoje infelizmente marcam, infelizmente têm força. É uma das características do mundo moderno. Por exemplo, haverá alguma coisa que venha de um passado mais remoto, haverá uma coisa que seja mais próxima da pré-história do que a macumba? E, entretanto, quem ousaria negar que a macumba e as superstições que datam do nosso velho Brasil colonial e que deitam raízes na nossa como que pré-história, uma vez que se alongam nossos olhos através do Oceano até a África para buscar raízes da macumba, pois bem, macumba, o culto das divindades indígenas não é uma coisa de um certo modo moderna, de tal maneira que tive a dor, ainda ontem, voltando para casa em São Paulo – a cidade mais moderna talvez da América do Sul, a cidade que mais cresce no mundo, a cidade do cimento e dos arranha-céus –, ver uma esquina de muito movimento, horas tardias da noite, um bruxedo qualquer, umas lâmpadas, umas velas acesas, e umas pessoas que esperavam daquela manifestação de macumba, um resultado de feitiçaria provavelmente mal intencionado? Não é esta também uma das notas do mundo moderno? Vós vedes, pois, como a palavra moderno toma do tempo aspectos diferentes e como é difícil defini-la. 

Outro Significado do “Moderno”: oposto ao passado

Mas se nós analisamos um pouco melhor o sentido da palavra moderno, nós veremos que ela é por vezes empregada numa significação diversa, e que se entende por moderno aquilo que é o posto do que havia no passado. É moderno aquilo que nasceu agora. E neste sentido todas as coisas, a todos os momentos estão deixando de ser modernas, e outras coisas modernas estão entrando. Ontem, anteontem, há quinze dias atrás, o tratamento moderno para a paralisia infantil era um; hoje esse processo está arcaico porque se descobriu outro processo ainda melhor, ainda mais eficaz, e todos aqueles recursos médicos entraram para a História da Medicina. E aquilo passou a ser um passado morto, e no momento entrou uma coisa nova.

E neste sentido, nossa época tão amorosa das novidades, jacta-se de ser moderna, ela se jacta de viver num grande número de coisas que existiam no passado e que lhe conferem uma marca de superioridade em relação ao passado.

Progresso e Calamidades

Neste sentido nós podemos dizer que a palavra moderno é impregnada de um certo conceito de progresso e entendemos, neste caso, por progresso uma melhoria no sentido de atingir um determinado estado de ideal da Humanidade. O moderno é uma marcha para a frente, o moderno é uma melhora, o moderno é um progresso.

Mas, ao mesmo tempo, nosso vocabulário é obrigado a um ato de humildade, e enquanto nós reconhecemos que todas as coisas novas da técnica são modernas, nós somos obrigados também a falar dos flagelos modernos, nós somos obrigados a falar dos pânicos modernos, e nós somos obrigados a reconhecer que toda esta técnica, que é a glória da modernidade, que toda esta técnica traz para nós sustos terríveis, com a perspectiva da aniquilação do mundo contemporâneo pela bomba de hidrogênio.

Conta-se de Eistein, recentemente falecido, este gracejo. Alguém lhe perguntou se saberia como seria a terceira guerra mundial, e ele deu esta resposta: “A terceira, não sei. Mas sei como será a quarta. Será com arco e flecha”. A humanidade terá retrogrado tanto na terceira, que a 4ª guerra seria com arco e flecha. Estas as perspectivas desta duvidosa modernidade na idade da técnica.

Mas se tudo traz, de um lado muitas preocupações – e o Santo Padre Pio XII ainda num recente discurso acentuava quanto a técnica, em si mesma boa e louvável, tem concorrido, infelizmente, para embrutecer a Humanidade, para materializar, para deformar a vida social porque o homem não tem sabido dirigi-la e governá-la, pelo que tem se tornado escravo dela. Se é verdade que a técnica tanto tem embrutecido a Humanidade, a tem feito progredir em algum sentido material da palavra. 

Um 3º Sentido da Palavra “Moderno”

Tem, todavia, a palavra moderno um sentido ainda mais sutil, um sentido ainda mais recôndito, e é este sentido que, por fim, me cabe analisar.

Nós não poderíamos dizer que um país que tinha o regime da separação da Igreja e do Estado e que volta ao regime de união se tenha modernizado; mas não podemos dizer, ou muita gente dirá, que um país que vive na união e passa para a separação se moderniza. Ninguém diria que passar do divórcio para a indissolubilidade do vínculo conjugal é modernizar; mas muita gente acha que passar da indissolubilidade do vínculo conjugal para o divórcio é modernizar. Nós não diríamos que preservar as elites, preocupar-se em manter a hierarquia social, preocupar-se em conservar os hábitos, os costumes, as instituições que fixam a indispensável hierarquia que deve haver em toda sociedade organizada, que isto seja uma preocupação tipicamente moderna. Nós diríamos, pelo contrário, que isto é próprio do passado, e que o espírito moderno se inclina muito mais a uma como que destruição das barreiras sociais, e das barreiras políticas, com rumo a uma igualdade completa e encontra sua realização plena no comunismo que vem a ser até a igualdade econômica. 

Laicismo, Igualitarismo, Sensualismo

E nós temos então aí uma certa idéia de modernidade que é diferente das anteriores, mas que como que habita nas anteriores, e é uma modernidade em virtude da qual, se entende que tudo quanto é laicismo, que tudo quanto é igualitarismo, que tudo quanto é conceder aos instintos do homem a liberdade de se divertir e de se satisfazerem como entenderem que isso é verdadeiramente moderno.

E tanto é que esse conceito existe, que é ativo, que vós o podeis observar na vida contemporânea. Ela se transforma constantemente; a todo o momento, é um costume que se muda, é uma instituição que toma novo aspecto, é outra instituição que morre para dar lugar a alguma coisa de novo; observai todas essas mudanças, e na sua totalidade – talvez para ser generoso e prudente – na sua quase totalidade, vós vereis que as transformações que se deram ou representam um progresso da idéia de igualdade, ou representam um progresso do princípio de laicismo, ou representam um progresso da sensualidade.

Observai na vida doméstica, a todos os momentos as barreiras, que separam e devem separar os pais dos filhos se atenuam, a todos os momentos a autoridade do marido decai, a todos os momentos a liberdade dos filhos cresce, e cresce para quê? cresce para que os filhos cumpram melhor o seu dever? cresce para que sejam mais castos? cresce para que eles sejam mais esforçados? ou cresce pelo contrário para que eles tenham mais a liberdade de fazer o que entenderem, de se atirarem às diversões imodestas, desonestas, de satisfazerem a sua sede de prazer, de romperem os grilhões de uma obediência indispensável como a que deve vincular na família os filhos dos pais? Observem as relações entre as classes sociais. A todo momento mudam-se os trajes, esses trajes a todo momento tendem para nivelar e equiparar as classes; a todo momento, mudam-se as maneiras e essas mudanças de maneiras, significam uma diminuição do respeito dos mais moços aos mais velhos, diminuição do respeito do homem à mulher, diminuição do respeito das crianças aos professores, dos alunos aos seus mestres. De todos os lados, o que acontece é um minguar de forças da autoridade, das forças da hierarquia, das forças da ordem, roídas por um movimento incessante, gradual mas profundo, roídas por essa tendência imensa para o nivelamento, que acaba tendo no laicismo a sua expressão mais completa. Porque o homem, depois de não ter querido na terra superior de nenhuma espécie, também não quer saber de ter um superior no céu, ele também não quer saber de Deus e ele organiza a sua vida precisamente como se organizaria se não acreditasse em Deus.

[Aplausos prolongados].

Terríveis Conseqüências dessa Modernidade

Fenômeno terrível que mina a própria população católica e que no espírito do brasileiro, tão acomodatício infelizmente, conduz a essa situação monstruosa: nós somos uma população de uma esmagadora maioria católica, as estatísticas indicam uma quase unanimidade de católicos no Brasil, mas se nós examinarmos a vida pública brasileira, a moralidade existente em nossa vida pública é como se Deus não existisse. Se nós examinarmos a nossa vida doméstica, nós vemos que cada vez mais ela vai sendo como seria se Deus não existisse. E, entretanto, as igrejas continuam cheias, e, entretanto, os atos do culto continuam concorridos, e, entretanto, é um fato indiscutível que todos se dizem católicos na ocasião do recenseamento!

Como se explicar isto senão pela corrosão silenciosa, pela corrosão discreta, muda, terrível, como uma lepra feita por esse estado de espírito de organizar o mundo abstraindo de Deus, de conceber tudo ao signo da revolução e da desordem, de organizar tudo com base na sensualidade o que é a própria desorganização.

E eu vos pergunto, minhas senhoras e meus senhores, se esta nação tão bela e tão digna de um melhor presente, se esta nação se contorce neste momento numa crise dessas das mais graves da História, não porque lhe falte as condições materiais de existência, não é por que lhe falta aquela moralidade? por que lhe falta aquela coerência da Fé com as atitudes práticas? por que nós temos a tendência, que infelizmente cada vez mais nos invade, de adorar a Deus Nosso Senhor com as palavras dizendo: “Senhor! Senhor!” mas de continuar a viver como nós entendemos?

A “Modernidade”: alma do Mundo Moderno

Assim definidos os vários sentidos da palavra moderna, nós podemos perguntar qual vem a ser o papel desta modernidade dentro do mundo moderno.

E nós poderíamos dizer que se no mundo a mentalidade que se diz moderna não conquistou tudo, ela é a grande força propulsora de quase todos os acontecimentos, ela é a grande nota característica do momento, ela é também o grande perigo e que, se haveria exagero em dizer que no mundo contemporâneo só existe essa miserável modernidade, haveria cegueira e loucura em negar que esta miserável modernidade é a característica, é o traço forte, é o traço decisivo da época em que nós vivemos.

A Salvação para o Mundo Moderno

Mas também é verdade que neste mundo que está cada vez mais dominado por esse espírito há alguém com “A” maiúsculo, Alguém eterno, sempre presente, e esse Alguém é Nosso Senhor Jesus Cristo. Presente em todos os sacrários da terra, nos sacrários de ouro do Brasil e dos templos da Cristandade; nos sacrários indigentes, nos sacrários ocultos dos países que estão atrás da cortina de ferro ou da cortina de bambu. Mas este Alguém cuja presença não se sente com os sentidos da carne, esse Alguém que é Nosso Senhor Jesus Cristo, presente na Sagrada Eucaristia, é o grande Apóstolo do Mundo contemporâneo como de todos os tempos. E Ele fala constantemente às almas, ensinando-lhes pela linguagem muda, mas linguagem infinitamente eficaz que é a linguagem de Deus Nosso Senhor, fala-lhes constantemente a respeito da necessidade do homem se opor a essas coisas que constituem a sua miséria, a sua degradação, da necessidade de ele voltar o seu caminho em outro sentido, de ele construir a sua vida sobre Deus de ele construir a sua vida sobre o sacrifício, a renúncia, de ele aceitar a autoridade de ele se voltar a se converter a Deus Nosso Senhor de todo coração.

[Aplausos prolongados].

Católicos chineses fiéis a Roma que fazem parte da chamada “Igreja subterrânea” da China

Frutos da SS. Eucaristia

E, minhas senhoras e meus senhores, neste mundo moderno terrível, acontece o que sempre acontece, quando se desafia a Deus. Deus multiplica as suas maravilhas, e ao mesmo tempo em que a iniqüidade vai chegando ao seu auge nós notamos frutos admiráveis da Sagrada Eucaristia, frutos da graça, frutos que dão no apostolado um resultado incomparável. Enquanto multidões caminham para o prazer e para o vício, enquanto multidões silenciam diante do mal e se acovardam, vão se tornando, por toda parte, mais numerosas as almas que, elevadas por um anelo de perfeição absoluta, de ortodoxia completa, de obediência inteira à Igreja Católica, abandonam tudo, renunciam a tudo, estão dispostas a enfrentar tudo, a contestar tudo, a afirmar apenas a doutrina da Igreja, a sofrer e a vencer tudo por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo presente na Sagrada Eucaristia.

[Aplausos prolongados].

Exemplos: Santa Maria Goretti

Eu me lembro, neste momento, daquela figura angélica de Santa Maria Goretti, nesta época em que as praias são tomadas pelo neopaganismo que estadeia toda corrupção da civilização moderna, esta época, esta virgenzinha entrega a sua vida com toda a resolução para não perder aquilo que ela ama mais do que tudo, do que a luz dos olhos seus, do que a própria existência, aquela virgindade que se aprende a amar como o dom mais preciso da vida, quando se tem uma alma verdadeiramente eucarística. Santa Maria Goretti é um fato culminante. Será um fato único? 

Santa Maria Goretti (única foto dela existente)

O Congregado de Viena

Nos países ocidentais como nos países orientais, quanto heroísmo no momento presente se está realizando. Eu me lembro de um congregado mariano de Viena, de que ouvi contar que, na iminência de sofrer o corte de sua língua, numa operação dolorosa, no momento em que ele era conduzido para a sala da operação, faz ao médico um sinal de que ele queria dizer uma última palavra com esse pobre órgão que ia ser amputado. O médico consente. Há um momento de emoção na sala. Todo mundo pensa que ele fará um pedido, todo mundo pensa que ele dirá talvez uma palavra de carinho a um dos circunstantes. É possível que alguém tenha receado que esse pobre rapaz tivesse uma lamentação. Nesse momento de silêncio e de recolhimento, ele diz com esforço uma palavra admirável: “Viva Nossa Senhora!” E caminhou depois para o silêncio que encheu todos os seus dias ecoando essa piedade sublime que no último momento do uso da palavra a empregou para glorificar Maria Santíssima.

Maria Santíssima esquecida por tantos, negada por tantos, subestimada por tantos outros, Maria Santíssima recebe num só gesto deste uma glória incomparável.

Os Mártires do Sacrário

Eu me lembro, por fim, neste momento, de um outro caso impressionante, ocorrido este atrás da cortina de ferro, e que o “Osservatore Romano” noticiou já há algum tempo. Os comunistas tinham entrado numa aldeia. Nesta aldeia havia uma igreja católica e os meninos da aldeia ouvem dizer que a horas tantas os comunistas vão entrar na igreja, vão arrombar o sacrário e profanar as sagradas espécies. É noite, fora neva, o luar brilha de um modo admirável sobre a neve. A Igreja está na solidão. Tantos fiéis dormem em casa aterrorizados. A agonia se aproxima; a igreja vai ser assaltada. Estará Nosso Senhor só neste horto das Oliveiras? Não, durante a noite inteira, três meninos, que pulam pela janela aberta, estão dentro da igreja. Quando os comunistas entram, um deles com suas mãos de criança tenta detê-los inutilmente a caminho do altar, e morre massacrado. Outro defende a mesa da comunhão, e morre também. E o outro sobe ao altar, cobre o sacrário com o próprio peito. Os bárbaros matam este sacrário vivo antes de arrombar o sacrário de ouro tão menos preciso do que aquele. Tomam as sagradas espécies e as profanam. Exulta o inferno, mas, muito mais, exulta o céu com o sangue desses três pequenos mártires, derramado na igreja, certamente não menos gloriosos do que o dos mártires que derramaram seu sangue na arena do Coliseu.

[Palmas prolongadas].

A Luta no Mundo Moderno

Aí está, como vedes, a ação da Eucaristia no mundo moderno. No momento em que a iniqüidade está chegando ao seu cúmulo, nesse momento a graça e a misericórdia chegam ao seu cúmulo também. À fortaleza do vício e do mal, Deus opõe uma indômita fortaleza do bem. O triunfo da Igreja Católica se dará no mundo moderno. Esse triunfo se dará certamente pelo embate gigantesco entre as forças pequenas do bem e as forças enormes do mal, mas nós veremos talvez, e, ao meu ver, provavelmente nos próprios dias em que existimos, nós veremos este fato que a Igreja há de marcar uma das maiores vitórias de todos os tempos e essa vitória será a vitória da Sagrada Eucaristia, fonte de graça aberta para o mundo por intermédio da intercessão de Nossa Senhora que rezando sempre a Jesus Eucarístico consegue para nós as graças de que nós precisamos. [Aplausos].

Bem-aventurado ucraniano Padre Alessio Zarytsky, eminente devoto do Santíssimo Sacramento, apóstolo zeloso nas “catacumbas” sob o regime comunista, morto em Karaganda (Casaquistão), em 1963

Nossa Senhora Medianeira

Esse papel da Sagrada Eucaristia no mundo Moderno me faz pensar em Nossa Senhora, e como não se pode falar nem em triunfos nem em graças, sem falar nEla que é a Medianeira necessária, eu posso afirmar que um dos dons mais preciosos que a Sagrada Eucaristia dá ao mundo é a devoção a Nossa Senhora. E que essa devoção a Nossa Senhora tão característica e tão radicada em nossa terra de Santa Cruz há de salvar o Brasil.

Nesta obra de salvação do Brasil, a cidade de Campos tem um papel proeminente como sempre o teve em outras ocasiões de nossa história. Ela tem esse dom da repercussão, que é um dom especial que ninguém lhe pode negar e que é a sua glória. 

O Paraíba e Nossa Senhora

Ela foi colocada numa situação geográfica que é um quadro formoso de tudo quanto dela pode esperar a Providência.

Vós sabeis que nos santuários em que há muita afluência de peregrinos, é costume colocar nas mãos da imagem posta no altar uma fita que desce até aos romeiros, que passam. Osculando a fita, eles de um certo modo, osculam a própria imagem. Ora, o rio Paraíba que passa por aqui é exatamente como que uma fita formosa de água que Nossa Senhora deita até o Oceano e que banha antes de se perder no Oceano, a cidade de Campos.

[Aplausos].

Campos, jóia do Paraíba, um grande Bispo, jóia de Campos

Campos é a extremidade desta fita e a Providência na extremidade desta fita colou a cidade como uma jóia preciosa; ela amorosamente destinou à cidade de Campos como que a selar com sua existência preciosa essas águas que correm do trono de Nossa Senhora até a imensidade do Oceano.

Nesta jóia preciosa a Providência, há pouco, encaixou uma pedra de um preço literalmente incomparável. É o grande bispo de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, (aplausos prolongados) que tem tudo para estar colocado no alto deste sólio, que é um candelabro em todo o Brasil: inteligência, cultura, zelo, e sobretudo aquelas três devoções que são o característico de sua grande alma de Bispo e que dão tão admirável perfume de virtude à sua personalidade: devoção à Sagrada Eucaristia, devoção a Nossa Senhora e devoção ao Santo Padre. As três devoções com que se resume toda a personalidade, forte como a de D. Vital e suave como a de Pio X, do ínclito Bispo desta Diocese.

Uma Grande Pastoral

Campos caminha, portanto, para um grande destino. No apostolado eucarístico e moderno tem imensas possibilidades e um dos fatos que marcam essas possibilidades é exatamente essa Pastoral admirável sobre os erros modernos publicada nesta cidade pelo bispo de Campos, mas como já foi lembrado nesta sala, passou além e já repercutiu nos lugares mais importantes do velho e do Novo Mundo; traduzida para o francês, traduzida para o espanhol, traduzida para o inglês para leitura dos norte-americanos, ela foi comentada em todo orbe moderno.

D. Antônio de Castro Mayer, vindo a Campos, paulista embora de nascimento, como que se revestiu desse dom de repercussão da cidade de Campos e a cidade de Campos na sua veneranda e ilustre pessoa já está ocupando nestes trabalhos de luta contra o Modernismo na sua expressão má, contra o Modernismo na sua expressão censurável e imensamente perigosa, está ocupando lugar de vanguarda, que a cidade de Campos sempre teve em todos os movimentos no Brasil.

Assim, pois, minhas senhoras e meus senhores, encerro aqui estas palavras, apresentando-vos como brasileiro, as expressões de toda simpatia, e de toda a esperança com que o Brasil vos vê, armados de vossas tradições, dotados da missão neste mundo moderno, sob a direção de Bispo tão ínclito, para caminhar para a realização da grande luta por Jesus Eucarístico e por Nossa Senhora, para salvação e para grandeza do Brasil.

[Aplausos, aplausos, aplausos].https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS%20-%201955-04-23%20-%20Eucaristia%20e%20apostolado.htm

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