Quando se fala de mito pensa-se em mitologia grega. Os gregos antigos utilizavam figuras, deuses e heróis para explicar suas origens ou a origem do universo. Tudo isto era misturado com fatos reais ou lendas. Existe, entretanto, outro significado da palavra mito que não tem nada a ver com a mitologia grega.

Há na História muitos personagens que se destacaram por seus feitos, suas inteligências e até mesmo pelo seu carisma. Em tais pessoas criou-se o que chamamos mito.

Assim, o mito é uma espécie de áurea em torno do personagem que pode ou não corresponder à realidade, transcender ou não o que a pessoa realmente foi ou é. Por vezes, o mito exagera as qualidades ou o carisma da pessoa. Por exemplo, diz-se no Brasil que D. Pedro II falava 23 línguas estrangeiras. Há historiadores que discordam desse número. Entretanto, diríamos que se trata de uma hipérbole literária que não diminui em nada as qualidades ou o mito do Imperador.

Carlos Magno, por sua vez, foi um dos maiores imperadores que já existiu. Creio que, apesar de tudo o que se diz dele, ele foi ainda maior do que o mito. Assim, certos personagens correspondem ao mito, enquanto outros o superam.

Outro exemplo de mito na História de Civilização é Rolando, um dos doze pares de Carlos Magno. Mito que criou a famosa Chanson de Roland, a qual, entre os muitos feitos de seu protagonista, canta este: “Vous l’auriez vu jeter mort l’un sur l’altre, leur sang tout clair glisser sur cette place” (Vós o teríeis visto lançar um morto sobre o outro, e o sangue deles escorrer claro nesse lugar). De Roland, até a temida espada Durendal – “qui bien tranche et bien taille” (que corta e talha bem) – era um mito.

Batalha de Roncesvales

A Canção de Rolando – como se diz em português – narra a história de um herói lendário, Rolando, e ressalta a sociedade guerreira medieval associada às conquistas de Carlos Magno. A obra, uma Canção de Gesta, realça também a fé cristã em todos os segmentos da sociedade medieval, o feudalismo e o papel do cavaleiro, especialmente durante as Cruzadas. O evento mais importante dessa obra é a Batalha de Roncesvales, ocorrida no ano de 778 entre cristãos e sarracenos pelo domínio da região de Zaragoza, na Espanha. Rolando morreu nessa batalha por causa da traição de Gamelão, um dos pares de Carlos Magno. Assim, a Canção descreve a morte do Cavaleiro Rolando:

En France il y a moult merveilleux tourments,/ Voici qu’il y a du tonnerre et du vent,/Pluie et grésier, tout démésurément,/Foudre tombant est menu souvent./Et tremblement de terre, voirement,/Du Saint Michel du Péril jusqu’aux Saints,De Besançon jusqu’au port de Wissant. /Nulle maison de ses murs n’est crevant./En plein Midi ténèbres il y a grandes,/ Nulle clarté sauf du ciel qui se fend,/Nul ne le voit que moult ne s’épouvant,/Disent plusieurs : C’est le finissement,/La fin du siècle qui nous est à présent./Ils ne le savent ni disent vrai néant,/C’est le grand deuil pour la mort de Roland. !

Tradução livre, extraída de https://ascruzadas.blogspot.com/p/cancoes-de-gesta.html:

Na França há muitas espantosas tormentas;/Eis que há trovão e ventania,/Chuvas e granizos, caem todos desmesuradamente;/Caem os raios em grande intensidade./E tremores de terra os há verdadeiramente./De Saint Michel du Péril até Saints,/De Besançon até o porto de Wissant,/Não há casa que por algum lado não desabe./Até no extremo sul da França há grandes trevas,/Não há claridade, salvo quando o céu fulmina seus raios./Ninguém vê isso sem ficar muito apavorado./Muitos dizem: “É o fim de tudo,/O fim do mundo que se nos apresenta”./Eles não sabem nem dizem a verdade:/É o grande luto pela morte de Roland!

Assim foi descrita a morte de Rolando, cujo mito transpõe os séculos. O mito torna a pessoa atemporal, acima do tempo.

Há, entretanto, pessoas a quem são atribuídas qualidades que de fato não têm, salvo certo carisma. Esse falso mito geralmente é criado pelas tubas da Revolução, como é o caso do sanguinário guerrilheiro Che Guevara, na América Latina, e de Lula, no Brasil. O “mito” criado em torno desses personagens é falso. Podemos, então, nos perguntar como seria a morte desses “mitos”.

Neste sentido, parece ilustrativo um artigo do jornal O Estado de S. Paulo de 15/09/2017, a respeito da morte do “mito” Lula:

Lula continua apresentando uma reação típica de líderes políticos levados a julgamento: a de questionar a legitimidade do tribunal ou do juiz.

“Não são raros os casos de líderes presos justa ou injustamente que foram condenados quase à revelia por não acharem seus julgadores dignos da missão. Isso fica claro em declarações como ‘vão ter de me pedir desculpas’ ou na pergunta se ele terá direito a um ‘juiz isento’.

No entanto, o julgamento é sobre a pessoa física do Lula. É neste ponto que o gigante mostra o seu pé de barro. As principais contradições que ameaçam Lula se referem a questões ligadas à sua fonte de renda, ao aluguel da cobertura vizinha à sua, à administração do Instituto Lula. A primeira condenação certamente fez cair alguma ficha de Lula. No entanto, isso se mostrou em uma mudança de postura do que de discurso.

O ex-presidente teimou em não se preparar para responder questões privadas. Talvez porque as considere menores, coisas de simples mortais. Talvez porque não tenha boas explicações para elas. De todo modo, o resultado tem sido a paulatina desconstrução do mito para a posterior condenação do homem.” (grifos nossos)

Aqui está a diferença entre o verdadeiro e o falso mito: o primeiro não morre, pisa com determinação o chão granítico de princípios imorredouros, espelha enfim as qualidades de sua época; o segundo é efêmero, tem “pés de barro”, vive de fantasias e retrata assim os defeitos de seu tempo.


[1] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,analise-lula-do-mito-ao-homem,70001998291