A opinião de Cony sobre o PT

A Folha de S. Paulo, em sua edição de 25 de junho último, publicou na coluna “Opinião” um artigo do conhecido escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, sob o título “O funeral de César”. Em termos pouco usuais, Cony trata da posição do PT face às manifestações que vêm se desenrolando no Brasil. Apenas para conhecimento  dos leitores reproduzimos abaixo o referido artigo. Cada um faça dele o juízo que achar mais adequado. Os comentários estão abertos.


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O funeral de César

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Nunca tantos estiveram dizendo a mesma coisa por motivos diferentes. A começar pelos editoriais da mídia e a terminar com a fala presidencial de dona Dilma, que leu sem quase emoção um texto que escreveram para ela. E, pensando bem, usou e abusou das mesmas palavras e conceitos que os ditadores do outro lado do mundo usaram por ocasião da Primavera Árabe.

Em resumo: toleramos os pro- testos pacíficos, mas repudiamos o vandalismo de alguns manifestantes. As mesmas palavras que os dirigentes da República de Weimar usavam para condenar as primeiras manifestações do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), que instalou o nazismo naquele país.

Curiosamente, pouco mais tarde, o próprio Hitler, em Nuremberg, num comício-monstro, disse mais ou menos a mesma coisa. E, uma vez no poder, copidescou a frase, proibindo e punindo qualquer manifestação das ruas. Não fez por menos: atribuiu qualquer descontentamento popular ao poder do judaísmo internacional, que manobrava contra o seu regime.

Os latinos diziam que toda comparação claudica, mas tem um fundo de verdade. No caso atual da nossa vida pública, apesar de tudo, seria forte demais comparar o PT com os nazistas. Quem conhece a ascensão do partido soberano e único na Alemanha dos anos 20 e 30 do século passado encontrará algumas semelhanças de meios e modos com a ascensão do PT em nossa realidade política e social.

É bom visitar o passado para compreender o presente –perdão pelo clichê. Depois do famoso discurso de Marco Antônio no funeral de César, o povo saiu pelas ruas de Roma depredando tudo. Vandalismo total. Matou até mesmo um poeta (Cinna) pelos seus maus versos. E os assassinos de Cesar (“Brutus and the rest”) eram todos homens honrados.