Um estrondo para destronar a Igreja – Mas Ela já enfrentou outras tempestades!

 Reflexões sobre os escândalos de abuso sexual na Europa

Um crime hediondo

Comecemos por afirmar do modo mais peremptório que não há nada de mais hediondo do que o abuso sexual de uma criança inocente. Ninguém foi mais severo a esse respeito do que Nosso Senhor Jesus Cristo: “Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho, e o lançassem no fundo do mar” (Mateus, 18:6).

Assim, ninguém deve ter maior indignação e severidade contra esse tipo de abuso do que os católicos. Essa indignação cresce de ponto quando o responsável é alguém que, por suas Ordens sagradas ou votos religiosos, estabeleceu um vínculo especial com o Salvador e assumiu um compromisso especial pelo qual ele simboliza de algum modo os ensinamentos e a moral do Divino Mestre.

Por essa razão, tais escândalos que têm sacudido a Igreja são considerados pelos católicos não somente como uma ofensa criminosa, mas também como um pecado hediondo.

Não devemos tampouco nos esquecer de que, além do crime de abuso, há ainda o fato de que esses atos foram tolerados por algumas autoridades eclesiásticas, ou mesmo acobertados por elas. Alguns dos padres criminosos foram transferidos de uma paróquia ou escola para outra, às vezes cometendo novamente os mesmos atos abomináveis. À vista desses fatos, todas as partes concernidas devem ser censuradas e punidas, mas não a instituição, a Igreja, estabelecida santa e hierárquica pelo seu Fundador.

Segundo ato da mesma peça teatral?

Revista alemã que iniciou o estrondo. A capa de Der Spiegel diz: “O Alienado – Um Papa alemão ridiculariza a Igreja”
Revista alemã que iniciou o estrondo. A capa de Der Spiegel diz: “O Alienado – Um Papa alemão ridiculariza a Igreja”

A semelhança do presente estrondo publicitário com a crise americana de 2002 nos leva a perguntar se os atuais esforços – especialmente aqueles tentando envolver o Papa – não apontam para uma associação de fato entre jornalistas de esquerda e dissidentes católicos, numa tentativa de mudar o tipo de governo da Igreja de hierárquico para democrático. As táticas utilizadas são tão semelhantes que parecem ser o segundo ato da mesma peça de teatro.

Essa possível associação de nenhum modo diminui a gravidade dos pecados cometidos ou a santa indignação que se deve ter ante tais escândalos. Entretanto, ela explica alguns aspectos de uma verdadeira campanha mundial que veicula as mesmas sugestões e pressões para mudar a Igreja, a fim de que Ela se conforme com a “moral” do mundo paganizado.

O principal órgão da mídia à frente do recente estrondo publicitário na Europa é a revista semanal alemã Der Spiegel. Na sua edição internacional on-line em inglês (08/02/2010), podemos ler o artigo intitulado Vergonha e medo: Por dentro do escândalo de abuso sexual católico da Alemanha, assinado pelo corpo editorial da revista.

Nesse artigo, ao mesmo tempo em que são descritos alguns casos de abuso com chocantes pormenores, fica clara a posição anticatólica e anticlerical de seus autores. O artigo apresenta a Igreja como uma instituição ultrapassada, portadora de uma moral repressiva, e atribui à posição dela sobre o homossexualismo e o celibato, bem como à sua estrutura hierárquica, a causa dos escândalos de pedofilia. Cita como especialistas teólogos dissidentes como Hans Kung e Eugen Drewermann, e se referem a grupos marginais como Nós Somos Igreja para opinar sobre o modelo de Igreja que querem ver imposta.

O artigo critica a “reivindicação da Igreja Católica de ser uma autoridade moral superior”. Para Der Spiegel, os escândalos sexuais são frutos da “moralidade sexual reprimida imposta de cima” pela Igreja. O ex-teólogo católico Hans Kung dá sua opinião: “Se você é forçado, em virtude de sua profissão, a viver uma vida sem uma mulher e filhos, há um grande risco de que a integração saudável da sexualidade venha a falhar, o que pode conduzir, por exemplo, a atos de pedofilia”. O ex-padre Eugen Drewermann acha errada “uma Igreja com uma estrutura repressiva nas áreas emocionais e relativas ao amor.”

Outro “perito” de Der Spiegel é Wunibald Müller, apresentado como teólogo e psicoterapeuta, o qual defende o homossexualismo e um “erotismo místico”. Ele sustenta que “a experiência da dor e do sofrimento pode nos conduzir a Deus, mas também o podem o erotismo e a paixão sexual”. Ele não vê nenhum problema nas relações sexuais, de qualquer tipo que sejam, mas somente em “um homossexualismo imaturo que tornaria certos padres suscetíveis a serem atraídos por jovens.” 1

Finalmente, o movimento dissidente Nós Somos Igreja reclama de “um problema estrutural no qual uma estrita moralidade sexual e um sistema autoritário combinam para formar uma mistura perigosa”.2

Ecos por toda a Europa

O artigo de Der Spiegel está ecoando em publicações por toda a Europa. Nelas encontramos os mesmos argumentos atacando a moral e as estruturas de governo da Igreja que circularam nos Estados Unidos em 2002, e em alguns casos, a citação dos mesmos “peritos”.

Seguindo o exemplo de Der Spiegel, podemos citar Peter Popham, articulista religioso do jornal inglês The Independent (15/3/2010). Ele escreve uma longa crônica sobre os escândalos sexuais clericais, e utilizando o linguajar progressista defende uma Igreja “modernizada.” Sua linguagem é tão violenta que ele vai ao extremo de chamar o Papa de “ex-nazista”.

O jornal italiano Corriere della Sera (16/03/2010) fez notar que “o movimento progressista [católico] ‘Igreja de Iniciativa a partir da Base’ pediu diretamente a renúncia de Bento XVI…” O jornal citou também o movimento dissidente Nós Somos Igreja.

Simon Sturdee, da Agência France Press (17/03/2010), afirma que “figuras conspícuas da Igreja na Alemanha… pedem a revisão do celibato eclesiástico…”

Um blogueiro religioso inglês muito lido, que usa o pseudônimo “Arcebispo Crammer” (16/03/2010), analisou a extensão do estrondo publicitário mundial, e perguntou: “O Papa Bento XVI está para renunciar?” Introduzindo os links à sua longa lista de artigos, ele acrescenta: “Bem, ele está sob uma pequena pressão”.

Cobertura escandalosa

Tal cobertura não trata das questões centrais. Em vez de deixar claro que os crimes hediondos cometidos e seus acobertamentos vão contra os ensinamentos e as estruturas da Igreja, esses pretensos jornalistas-teólogos alegam que tais ensinamentos e estruturas são a causa dos crimes! Ao invés de mostrar como a sexualidade desbragada é parte do problema, esses comentaristas apresentam o fim da “repressão sexual” como parte da solução.

Mencionemos ainda uma curiosa comparação. De 1995 até o presente, houve na Alemanha 210 mil casos de abusos sexuais com menores. Destes, somente 94 envolveram o clero, ou seja, a ínfima porcentagem de 0,044% do total. Somos levados a perguntar por que Der Spiegel e tantas outras publicações só falam de escândalos sexuais do clero, como se este fosse a única, ou a principal causa do abuso sexual de menores.3

Ante tais incoerências, a pergunta que se põe é se o atual estrondo publicitário internacional sobre os escândalos sexuais de clérigos visa o bem da Igreja e dos fiéis, ou se há, pelo contrário, está sendo promovida novamente a mesma agenda usada em 2002 nos Estados Unidos, visando reformar a instituição da Igreja como ela é hoje, sempre foi e não pode mudar uma vez que foi assim estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Espírito de Deus não está no sensacionalismo

Em 2002 a Comissão de Estudos da American TFP já havia denunciado, a existência de uma estranha ligação entre a mídia esquerdista e católicos dissidentes em seu livro Arrostei outras tempestades – Uma resposta aos escândalos e reformas democráticas que ameaçam a Igreja Católica. Esse livro mostra como tal aliança se aproveita da tragédia dos abusos sexuais para tentar transformar a estrutura da Igreja em algo contrário às suas tradições e aos desejos de seu Fundador, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Fazemos notar que o Papa Bento XVI, na sua Carta Pastoral aos Católicos da Irlanda, sem mencionar a mídia de esquerda ou os dissidentes católicos, trata da questão de modo sereno e sobrenatural, tão contrário ao tom de “escândalo-difamatório” da mídia e dos dissidentes. Deus não se encontra na agitação nem no sensacionalismo (Cf. 1 Reis, 19,11-13).

Castigar dando esperança

A carta do Papa fustiga tanto os padres infiéis como os bispos tolerantes responsáveis pelos escândalos. Ele usa uma linguagem forte para qualificar suas ações e apóia as sanções canônicas e civis contra eles. Mas, ao mesmo tempo, não os abandona e insiste no poder do arrependimento e da penitência unidos aos sofrimentos de Jesus Cristo, uma vez que não existe pecado sem perdão.

A carta enfatiza a necessidade do retorno à Fé, à verdadeira vida de piedade, à devoção à Santíssima Virgem e ao Santíssimo Sacramento, bem como um maior amor à Igreja. Não é rompendo com a Igreja ou sonhando com uma Igreja diferente da fundada pelo Divino Salvador que podemos sair da crise.

Bento XVI aconselha a todos os católicos: “ao enfrentardes os desafios do momento, peço-vos lembrar da ‘rocha da qual fostes talhados’ (Is 51,1)”. Os católicos devem se lembrar da Fé de nossos pais e de tudo quanto a Igreja fez: a conversão dos pagãos e dos bárbaros, a criação de instituições como os hospitais e as universidades, e o cuidado dos pobres.

A Igreja “enfrentou outras tempestades”

Sim, a Igreja “arrostou outras tempestades”. Em meio à crise atual, devemos seguir o conselho de São Paulo: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio.” (Efésios, 6,11).

_______

Notas

1. Cf. http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,676497-5,00.html
2. http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,druck-676497,00.html.
3. Luigi Accattoli, Perché solo la Chiesa ammette i propri peccati?, http://www.laiglesiaenlaprensa.com/2010/03/operaci%C3%B3nlimpieza-de-benecito-xvi.html.

Para adquirir um exemplar de Eu enfrentei outras tempestades – Uma resposta aos escândalos e reformas democráticas que ameaçam a Igreja Católica, escreva-nos.