Antiga inscrição num vitral da catedral de Lübeck

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Com áudio https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Mult_940624_catedral_Lubeck_inscricao.htm#.Yb_BWWjMKMo

Comentários à inscrição no vitral da Catedral de Lubeck (na Alemanha), muitíssimo oportunos e salutares. Dr. Plinio, neste “Santo do Dia”, ressalta a importância de tais palavras, pois “na inércia paspalha dos dias de hoje a gente precisa se sacudir violentamente, para abrir os olhos, para dar atenção, para saber sacrificar-se, imolar, lutar, vencer”.

Antiga inscrição num vitral da catedral de Lübeck:

“Tu Me chamas Mestre e não Me obedeces.

Luz e não Me vês.

Caminho e não Me segues.

Vida e não Me desejas.

Sábio e não Me escutas.

Amável e não Me amas.

Rico e não Me invocas.

Eterno e não Me buscas.

Justo e em Mim não confias.

Nobre e não Me serves.

Senhor e não Me adoras.

Se eu te condenar, não Me culpes.”

* * *

Esse vitral da catedral de Lübeck eu acho que é propriamente a condenação do “heresia branca”, do sujeito mole, com uma piedade fofa, cheia de fórmulas ultra-batidas, ultra-conhecidas, que a pessoa pronuncia assim para dizer qualquer coisa a Deus, mas sem sinceridade.

Vale a pena nós retomarmos ponto por ponto rapidamente.

Então são palavras de Nosso Senhor a alguém que está ajoelhado diante d’Ele e que lhe fez uma oração. Ele analisa o texto da oração que esse alguém lhe fez.

Tu Me chamas Mestre e não Me obedeces.

Quer dizer, “do que é que adianta você Me chamar mestre? Chega na oração você diz: Ó, Divino Mestre! Mas você segue as minhas palavras? Você compreende a necessidade que tem de seguir quem é mestre e que pode ensinar a quem não é mestre? Nada! tu és fofo, balofo!”

* Assim como o cego não vê a luz do dia, o heresia branca não vê a Nosso Senhor Jesus Cristo

Luz e não Me vês.

Isso. “Tu Me chamas luz, diz Nosso Senhor, mas é uma fórmula. Qual é a Minha verdadeira luz? Tu vês essa luz? Tu nem sequer vês. Isso é uma fórmula…

Um cego poderia falar o mesmo a respeito do dia. Ele está durante o dia e sente o sol que bate sobre os dedos dele, porque entra pela janela. E ele diz: “Que linda luz está havendo hoje”, porque como tem calor, tem luz, ele percebe então que deve estar havendo luz. Mas ele é cego, ele não vê a luz.

Quanta gente chama Nosso Senhor de luz e trata os ensinamentos d’Ele assim?…

Caminho e não Me segues.

“Tu Me chamas caminho. Um caminho é o que se deve seguir para atingir um fim. Tu Me segues?”

Na oração dizes: “Ó Jesus, caminho de minha alma”. “Está bom, Eu sou doce e tu não sentes o Meu sabor? Eu sou luz, tu Me segues [vês]? Eu sou caminho, tu Me segues?”

Vida e não Me desejas.

“Tu Me chamas vida, quer dizer, dizes que Eu sou vida: Jesus, minha vida, vida de minha alma… mas tu não Me desejas… tu não Me procuras. A vida a gente deseja, é algo de altamente desejável. Tu Me procuras?

“Quando tu Me procuras é por obrigação, é porque é Missa no domingo e tu cairás no Inferno se não fores a essa Missa. Mas não é como quem procura a luz.

Sábio e não Me escutas.

“Tu Me chamas sábio. Realmente os Evangelhos são o oceano infinito da sabedoria, mas tu prestas atenção a isso? Tu escutas o que está no Evangelho? Tu escutas o que disseram os Apóstolos? Nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas quanta coisa eles disseram…”

* Se é para ser gentil, as Minhas gentilezas baterem num paredão de ferro e caírem no chão – é assim que tu Me tratas – vale a pena?…

Amável e não Me amas.

“Tu dizes que eu sou amável, que eu sou gentil. Está bem, tu Me amas? Se é para ser gentil e as Minhas gentilezas baterem num paredão de ferro e caírem no chão – é assim que tu Me tratas – vale a pena?…”

Rico e não Me invocas.

“Tu sabes que eu sou rico. Por quê? Porque sou infinitamente poderoso, porque sou o criador do Céu e da Terra, posso tudo e tenho tudo, tudo depende absolutamente de Mim.

“Agora pergunto: tu Me invocas? tu Me pedes algo? tu Me procuras para algo? Nada! tu só te incomodas, não com as riquezas de alma, que são as que principalmente Eu dou, mas com as riquezas da Terra. E teu estado de espírito é tal, que se queres a Minha intervenção a propósito de tuas riquezas, é para aumentá-las e para gozar mais da vida na Terra, e não para serdes mais Meu.

“O que é isso? Isso é piedade? Tu tens piedade, hipócrita?!”

Eterno e não Me buscas.

Eterno é perfeito, é o abismo de todas as perfeições. Junto ao abismo de todas as perfeições deve-se procurar tudo aquilo de que se precisa.

“Tu Me buscas? Tu vives por aí… tu vives torcendo no futebol. Esse és tu. Na hora de rezar para mim [rezas] da boca para fora uma fórmula que aprendestes em criança: Ó Jesus eterno, perfeito, boníssimo, confio em ti. Cinco vezes isso dá uma indulgência plenária, então lá vai… Tenha paciência!

Justo e em Mim não confias.

“Tu dizes que Eu sou justo. Se Eu sou justo, procederei junto a ti com justiça. Se confiasses em Minha justiça, tu Me temerias e tu Me amarias. Tu nem Me amas nem Me temes.

* Eu tenho sede de ti e te procuro; tu tens sede de Mim?

Nobre e não Me serves.

“Tu Me chamas nobre, mas como é que Me serves? Em nada! Há tantas coisas para que Eu precisaria de ti, Eu quereria precisar de ti.

“Eu que criei o Céu e a Terra, eu dependeria de ti, segundo a disposição das coisas, [para] que tal alma viesse Me pertencer. Aquela alma pela qual Eu derramei Meu Sangue no alto do Calvário na Santa Cruz; aquela alma pela qual Eu vi a Minha Mãe chorar e pedir no momento em que Eu ia morrer; aquela alma dependeria de uma palavra tua, de um convite teu, de um passo, de uma iniciativa tua.

“Tomas essa iniciativa? Que é que te importa a alma dos outros?! Não te importa nada! Nem tens desejo de salvá-la…

“No momento em que Eu na Cruz disse: Sitio, tenho sede, Eu evidentemente disse isto porque a sede do corpo ocasionada pela enorme perda de sangue. É clássico que a perda de sangue muito grande, por exemplo, em operações, gera sede.

“Mas agora a questão não é essa; a questão é que Eu ali dei a entender, mais do que tudo, que Eu tinha sede de almas. Eu tinha sede de tua alma!

“Tu estás aqui ajoelhado diante de Mim, a tua alma não tem sede de Mim. E Eu tenho sede de ti e te procuro, e tu Me pagas com essas orações balofas, que não valem nada…”

* Todo senhor é feito para ser amado, para ser reverenciado

Senhor e não Me adoras.

“Tu Me chamas Senhor e não Me adoras. Todo senhor é feito para ser amado, para ser reverenciado. Sobretudo Cristo Nosso Senhor, Rex regnum et Dominus dominantium, Rei dos reis e Senhor de todos aqueles que exercem o poder, exercem o domínio.

Está bem, esse é Cristo Nosso Senhor, que deve ser adorado. Tu adoras? Qual é a tua adoração? Nenhuma…

“Eu vou te dizer qual é teu deus e a quem adoras, esse verdadeiramente: é a ti próprio – aí não tem dúvida! – e a mais nada.

Se Eu te condenar, não Me culpes.

“Se Eu te condenar, não blasfemes contra Mim, porque será uma blasfêmia, será uma injustiça, e condenado tu estarás ferroteado nos efeitos de Minha divina justiça para todo o sempre. Não haverá mais misericórdia para ti e tu estarás no reino do Inferno. Ali te torturarei até ao último sentido da palavra tortura!

“Mas, preste atenção! Eu não quis, até ao último momento, que fosses parar lá. A prova é esta oração que Eu inspirei a uma alma piedosa, que pôs num vitral”.

Essa oração tem passado os séculos e tem sido impressa em vários idiomas, tem sido distribuída várias vezes. Eu a recebi de cá, de lá e de acolá, no tempo em que havia uns restos de piedade na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, restos esses que estão reduzidos hoje quase a farelo, nesse tempo eu recebi essa oração.

Os senhores vão recebê-la. Eu estou com o projeto, àqueles que levantarem o braço, de mandar imprimir um número correspondente a isso para distribuir aqui no auditório.

(Aparte: Acaba de ser distribuído a todos.)

* Na inércia paspalha desses dias de hoje a gente precisa se sacudir violentamente, para abrir os olhos, para dar atenção, para saber sacrificar-se, imolar, lutar, vencer

Ah, tanto melhor!

Mas eu recomendo muito isto: antes de rezar as suas orações comuns, por exemplo, antes da comunhão, rezem isto, para se sacudirem um pouco. Na inércia paspalha desses dias de hoje a gente precisa se sacudir, mas sacudir-se a si próprio violentamente, para abrir os olhos, para dar atenção, para saber sacrificar-se, imolar, lutar, vencer. Isso é que é seriedade, essa é que é a virtude da sabedoria!

Então tenhamos isso na carteira ou em qualquer outra parte do traje, mas de maneira tal que facilmente possamos tirar e ler de vez em quando.

Eu não recomendaria a ninguém que lesse isso todos os dias, porque fica depois mecânico e fica balofo como a oração censura que o balofo é. Nós devemos evitar as orações cuja repetição se mecanizem em nós. Isto se faz por meio do auxílio da graça, piedade, força de vontade.

Mas quando nós sentimos que nossa piedade lá vai como foi; força de vontade, é melhor nem falar… acontece que a gente vai repetindo, repetindo, e aquilo fica um blá-blá-blá. Não vamos transformar essa linda oração num blá-blá-blá, mas escolhermos um dia por semana, não mais, para rezar esta oração.

Aí nós devemos nos levantar do lugar onde estamos, por exemplo, do genuflexório onde estávamos rezando para assistir à Missa, para comungar, etc. terminada a missa levantemo-nos e vamos para outro lugar, aos pés de um crucifixo, de uma imagem de Nossa Senhora, enfim, qualquer coisa recomendável. Mas fisicamente saíamos do lugar, porque isso ajuda a combater a modorra, e ali rezemos isto, por exemplo, uma vez por semana.

Quando o sábado começar a ficar rotina, há seis outros dias na semana. Mudemos, mudemos, mudemos, para combater a nossa modorra.

Não sei se eu consegui ser claro.

(Aparte: O senhor permitiria uma pergunta?)

Pois não.

(Aparte: Na última frase, “Senhor e não Me adoras” […] Porque é que o “adorar” foi relacionado com o “Senhor”. O que é que há no fato de ser senhor que remeta a uma adoração?)

* Aos santos a gente reza na medida em que eles são intermediários, medianeiros junto a Deus

Não tem dúvida.

Eu não conheço o texto alemão, mas a linguagem dessa tradução é ligeiramente arcaica. E no que diz respeito à palavra “adorar”, ela é muito arcaica.

No tempo em que eu era menino – o senhor já por aí pode ver o arcaísmo da coisa – eu encontrei nos ambientes de piedade bons um resto de combate ao abuso da palavra adorar. De maneira que se uma criança, por exemplo, diante dos pais, ou diante de um sacerdote, ou qualquer coisa, se distraísse e dissesse: “Eu adoro a Nossa Senhora”, recebia imediatamente um corretivo: “Adorar só a Deus”.

Eu me lembro Da. Lucilia várias vezes, com a suavidade que era toda dela, ela insistia: “Meu filho, adorar só a Deus”. Quer dizer, só a Deus é que se deve o preito da adoração.

Mas a palavra adoração, pelo amolecimento de todas as coisas, com a decadência da Civilização Cristã na Europa e na América, amoleceram também os vocábulos. E muitos daqueles vocábulos que são precisos, como adorar, e que tinham, por causa disso, um sentido definido, foram amolecendo também, empregando-se a palavra “adorar” para significar muitas vezes simplesmente um auge comum de um amor qualquer.

Assim o senhor tem, por exemplo, no hino brasileiro chamar-se o Brasil de “terra adorada”. Compreende-se bem que não é a adoração com que se adora a Deus, que é um modo de dizer, que o brasileiro ama o Brasil – oxalá amasse! – mais do que todos os outros valores terrenos, então diz “terra adorada”. Mas se compreende bem que não visa substituir a Deus.

Etimologicamente falando a palavra indica: ad orar, é orar ad, é rezar para, não é? E, por excelência, a gente reza para Deus. Aos santos, a gente reza na medida em que eles são intermediários, medianeiros junto a Deus. A gente então presta a eles uma reverência, presta um culto, faz atos de amor, portanto, mas que visam, como termo final, a Deus Nosso Senhor.”

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