Bem-aventurado Jordão de Saxe, o Imperador Frederico II e o Laicismo de Estado

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O bem-aventurado Jordão de Saxe (ou Saxônia, 1190-1237) foi o segundo Geral dos Irmãos Pregadores, ou seja, o segundo Geral dos dominicanos. Quanto mudaram daquele tempo para cá!…

A respeito dele o Dr. X informa o seguinte: era um homem de grande influência pessoal, de uma grande capacidade de atração pessoal e que a ele se deve a Ordem Dominicana ter aumentado o seu contingente extraordinariamente. Entre outras pessoas que atraiu, conta-se o grande Santo Alberto Magno, que foi professor de São Tomás de Aquino. De maneira que se pode dizer, num certo sentido da palavra, que na genealogia da Ordem, Jordão de Saxe é, por assim dizer, o “avô” de São Tomás de Aquino. Dele veio o santo do qual veio o maior dos filósofos e teólogos de toda a História. De si, isto já daria uma enorme glória.

Mas há outras coisas, além dessa, a dizer a seu respeito. Na ficha biográfica se lê o seguinte:

O bem-aventurado Jordão tinha uma grande coragem. Um dia encontrou Frederico II, que então perseguia a Igreja…”

Frederico II era imperador do Sacro Império Romano Alemão, quer dizer, era o mais alto hierarca temporal de toda a terra. Um homem que pelo seu cargo era cercado de tal protocolo que quando os príncipes soberanos alemães encontravam com ele, ajoelhavam-se. Ele tinha precedência sobre todos os reis da terra e seus embaixadores tinham precedência sobre todos os outros embaixadores cristãos. Se, por exemplo, o Imperador do Sacro Império se encontrasse com o rei da França ou da Inglaterra ou da Espanha, esses reis ficariam atrás; o primeiro a ser servido, a ser obsequiado era o Imperador do Sacro Império, líder natural de toda a Cristandade.

O imperador o fez sentar, mas não lhe disse uma palavra. “Eu me admiro”, disse o bem-aventurado, após um longo silêncio, “que tendo eu percorrido diversas províncias por causa dos deveres do meu cargo, vós nada tendes a me perguntar”. O Imperador respondeu: “Tenho meus emissários em todas as cortes e províncias e sei tudo que se faz no mundo”. Resposta do bem-aventurado Jordão: “Jesus Cristo sabia tudo como Deus, e, entretanto, perguntava a seus discípulos o que se dizia dEle”.

Isto não é uma resposta, isto é A resposta!

“Vós nada mais sois que um homem e ignorais muita coisa que se diz de vós e que seria bom que soubésseis, porque dizem que oprimis as igrejas, que desprezais as censuras eclesiásticas, que acreditais nas superstições, que favoreceis muito os judeus e os sarracenos, que não honrais o Papa, vigário de Cristo. Seguramente, tudo isto não é digno de vós”. Levantou-se e deixou-o”.

Deve-se notar que essas acusações justificariam uma ação para a deposição do Imperador do Sacro Império, pois este não era como um monarca qualquer.

Entre os teólogos sempre há um partido de teólogos “laranjas” e um partido de teólogos bons. Digo mal, o que há sempre é dos “laranjas”; o partido dos bons às vezes não há. Há teólogos “laranjas” que sustentavam – em plena Idade Média e se acentuou no tempo do absolutismo – o seguinte: um rei não pode ser destituído pelo Papa por motivo de heresia. Porque o Estado é uma organização de caráter temporal e não há fundamento na natureza do delito de heresia – que é um delito religioso – para destituir um homem de um cargo temporal, quer dizer, à margem da preocupação religiosa.

Toda a separação entre Igreja e Estado, todo o laicismo está dentro disso. Outros teólogos diziam que o rei era o representante de Deus no reino para as coisas temporais, e que ele tem a obrigação de servir a Igreja. E que o Estado, ele próprio, na esfera temporal, não só deve ajudar a Igreja e servi-La, mas reprimir os inimigos dEla. Mais ainda, que o Estado tem obrigação de organizar a ordem temporal de tal maneira, que facilite a santificação das almas. E um herege é inidôneo para isto. De maneira que, segundo esta sentença, um rei podia ser destituído por crime de heresia.

Vem exatamente desta sentença um dos movimentos mais simpáticos dos tempos modernos, que considero, de algum modo, uma forma ancestral da Contra-Revolução na França, que é a Liga Católica, dirigida pelos príncipes da Casa de Guise, contra os Bourbons. A Liga Católica sustentava que o trono dos Valois sendo extinguido por falta de descendência e passando a monarquia, por via hereditária, para o primeiro rei da Casa de Bourbon, que era Henrique III de Navarra – futuro Henrique IV de França -, como este último era protestante, não tinha o direito de governar.

Então, declararam a Casa de Bourbon caduca do trono de França e disseram que os Estados Gerais deveriam escolher outra dinastia. Mas sabia-se que a dinastia a ser escolhida era a dos Guise, exatamente príncipes dos quais se dizia que tinham uma ascendência carolíngea, eram descendentes de Carlos Magno. Era, portanto, levar de novo os descendentes de Carlos Magno ao trono de França. Mas sobreveio no fim um acordo, e os Bourbons se converteram e subiram ao trono.

O princípio de que um rei não podia ser deposto por crime de heresia era sustentado por muitos teólogos. E por isto havia uma família católica que representava o papel de “terceira força” e que eram os Montmorency, que jogavam entre os Bourbon e os Guise. E exatamente os Montmorency determinaram – em boa parte foram eles e em parte a Companhia de Jesus – o afluxo da influência para os Bourbons para que estes tomassem conta da França.

Com o Imperador do Sacro Império Romano Alemão ninguém discutia. Como o império era sacro, era de instituição eclesiástica e entendia-se que por uma ação do Estado, este tinha dado à Igreja o poder de destituição. Portanto, os Papas tinham o direito de depor os imperadores hereges, cismáticos ou que perseguissem a Igreja, porque a missão do Sacro Império, por um contrato entre o Império e a Igreja, era de perseguir os inimigos da Igreja Católica e favorece-La. De tal maneira que foi com fundamento nisto que São Gregório VII destituiu Henrique IV. Aí Henrique IV foi pedir perdão em Canossa etc., etc., como os srs. sabem.

Esta acusação do Bem-aventurado Jordão de Saxe (ou da Saxônia), portanto, indiscutivelmente abria caminho para um processo para depor o imperador. Este frade teve a coragem de, em presença do imperador, maltratado por este, tomar a iniciativa de lhe dizer todas as verdades e retirar-se. Os senhores estão vendo como isto representa uma atitude que hoje seria totalmente inconcebível.

Mas eu me concentro sobretudo numa consideração. Já ouvi dizer que a Igreja lucrou muito com a proclamação das repúblicas, porque – afirmam os dessa corrente – a Igreja antigamente estava em face de um poder temporal muito forte, representado por imperadores e reis em cujas mãos todo o poder se centralizava. Enfraquecido o poder temporal pela dispersão através de vários órgãos – com um mundo de deputados, de juízes, de presidentes, cada qual soberano na respectiva esfera -, a Igreja lutaria com um inimigo mais fraco e dividido.

Um fato é positivo: proclamaram-se repúblicas quase no mundo inteiro. Os senhores conhecem alguém que tenha ousado tratar assim um Presidente da república? Eu não conheço. Os senhores estão vendo aí qual é a índole das instituições e dos tempos…

Vamos pedir ao bem-aventurado Jordão de Saxe que nos obtenha essa coragem supereminente e dê ao mundo uma outra graça. Nessa época de anonimato, de pessoas sem expressão, sem personalidade, irrelevantes, sem graça – qual o homem público que hoje tem um pingo de graça? está tudo acabado! -, ele que foi um magnífico, um grande homem, além de ser uma alta alma na vida espiritual, que dê ao mundo e à Igreja esta graça: multiplicar os homens verdadeiramente homens e os santos verdadeiramente santos. De homens falsificados e de santos apresentados de modo truncado,  todos estamos fartos.

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