Juan C. Sanahuja, 17.02.15

Impor o gênero é um crime contra a humanidade

(Continuação do número anterior)

“Os pobres não têm direitos”? São eles e seu desenvolvimento humano que deveriam ser o foco da cooperação internacional! Em contraste, a frase “os direitos dos homossexuais são os direitos humanos e os direitos humanos são direitos dos homossexuais” [Hillary Clinton] parece ter-se tornado o leitmotiv do discurso atual da governança global e, em consequência, se quer mudar a cultura dos povos em favor da livre escolha da “orientação sexual”. Pior ainda, no exato momento em que os direitos humanos são usados para impor esse tipo de projeto ideológico, o secretário da ONU declara de forma surpreendente que “nenhum costume ou tradição, nenhuma crença cultural ou religiosa pode justificar o fato de se privar um ser humano de seus direitos humanos”, [Ban Ki-moon].

Com que direito se sacrificam as culturas e a fé dos pobres em nome da homossexualidade, em nome dos ídolos da decadência moral do Ocidente? Cumpre hoje lutar com urgência para conciliar a lei com o casamento e a família, que é um bem comum da humanidade. O casamento e a família são anteriores ao poder político, que tem a obrigação de respeitá-los em sua estrutura humana universal.

Em nome da ideologia de gênero, eles substituem o casamento pelas uniões civis; redefinem os casais, o casamento, a família e a prole, para favorecer a homossexualidade e a transexualidade. Estão perdendo a humanidade, o senso da realidade e a razão das coisas, e contribuem para a criação de uma cultura suicida. É semanticamente incorreto atribuir aos casais homossexuais as palavras “casamento” e “família”, que sempre implicam o respeito pela diferença sexual e a abertura à procriação. A homossexualidade altera a vida conjugal e familiar. Não pode ser uma referência educativa para as crianças; ela as arruína de forma profunda e irreversível. Privar um filho de um pai e de uma mãe é uma violência inaceitável. (…) A homossexualidade, confrontando-a com a vida conjugal e familiar, não faz sentido. Recomendá-la em nome dos direitos humanos é pelo menos nocivo. Impô-la é um crime contra a humanidade.

É inaceitável que os países ocidentais e as agências das Nações Unidas imponham aos países não ocidentais a homossexualidade e todos os seus desvios morais, usando argumentos econômicos para revisar sua legislação e condicionar sua assistência ao desenvolvimento e à aplicação de normas absurdas e subversivas, desumanas e contrárias à razão, ao sentido da realidade. Promover a diversidade de “orientação sexual” em toda África, Ásia, Oceania e América do Sul significa liderar o mundo para uma deriva total de decadência antropológica e moral. Caminhamos para a destruição da humanidade!

Os países ocidentais se acostumaram com a instabilidade de suas idéias e com a construção de ideologias alienantes e fugazes como o marxismo e o nazismo. A exportação de suas ideologias ao longo da História sempre causou grandes danos à humanidade. O pensamento africano não pode deixar-se novamente colonizar. Após a escravidão e a colonização, estão novamente tentando humilhar e destruir a África através da imposição de gênero. É fundamental que os africanos não se privem de sua sabedoria e de sua perspectiva antropológica: o casamento e a família, baseados exclusivamente na relação entre um homem e uma mulher. A filosofia africana proclama: o homem não é nada sem a mulher, a mulher não é nada sem o homem, e ambos não são nada sem um terceiro elemento que é uma criança. Uma criança é o maior e mais precioso presente de Deus. É a expressão mais sublime do amor e a generosa fecundidade do dom recíproco dos cônjuges.

Começou uma grande batalha contra poderosos meios subversivos (…). O efeito corrosivo do gênero, diz Marguerite A. Peeters, é tão eficaz na consecução de seus objetivos que poderia dar origem a um sentimento de impotência; inclusive sucumbindo-se à tentação de adotar uma atitude derrotista e dizer: em qualquer caso, a catástrofe está assegurada, deixemos as coisas irem como vão. Mas Peeters nos diz: queremos participar em favor da eterna vocação ao amor do homem e da mulher, à comunhão e à sua complementaridade, não devemos nos dar por vencidos. (…)

O discernimento é decisivo. Começa com o realismo. Vejamos as coisas à distância, coloquemos a realidade atual na perspectiva mais ampla possível. De um lado, é preciso ser capaz de abrir os olhos para as difíceis realidades do nosso tempo e, de outro lado, mantenhahos os olhos fixos no mistério de Deus. Em vez de nos encerrarmos em atitudes superficiais de aceitação ou de rejeição, despertemos e abramo-nos à luz transcendente da graça. Devemos “retornar à fonte, retornar à casa do Pai” e manter a confiança na efetiva presença de Deus na História, uma presença que passa por nossa cooperação ativa e o despertar das consciências.

(*) Natural de Guiné, o cardeal Robert Sarah é arcebispo emérito de Conakri. Em 24 de novembro passado ele foi nomeado prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Fonte: InfoCatólica