Corredor polonês ambientalista

Um dos meus colegas gosta de nos surpreender com ideias espantosas. Alguns anos atrás, lançou displicentemente no ar:

— Olhem, até que aquela ideia das câmaras de gás era muito boa.

— Câmaras de gás?! Boas para quê, seu maluco?

— Ora essa, boas para matar micróbios. E elas estavam em fase experimental para isso.

— Mas as câmaras de gás eram para matar gente. Será que você não sabia?

— Claro que sabia, pois os jornais dos vencedores da guerra só falavam disso. Mas a verdade é que os ingleses precisavam vender antibióticos, por isso difamaram as câmaras de gás, que eram concorrentes fortes no mercado. Os alemães punham lá dentro os doentes, e quando os micróbios já tinham morrido, desligavam a câmara. As pessoas ainda vivas continuariam vivas, e livres dos micróbios. Só que ainda não haviam achado o ponto certo para desligar. Se tivessem ganho a guerra, poderiam prosseguir as experiências, e teríamos hoje câmaras de gás eficientes.

Ele falava absurdos assim com tanta tranquilidade e convicção, que era raro os interlocutores não terem algum momento de vacilação. Acho que ele passava boa parte do tempo pensando em algum absurdo novo, pois tinha na ponta da língua as respostas para todas as nossas objeções.

— E veja bem, os antibióticos renderam muito dinheiro. Até prestaram um bom serviço, mas agora quase todos já perderam a força contra micróbios resistentes. As câmaras de gás não teriam esse problema. Só faltou mesmo dar tempo aos alemães para acharem o ponto de parada.

Mais recentemente ele apareceu com outra:

— Os ambientalistas dizem que o nosso planeta não tem reservas para sustentar uma população tão grande. Muitos deles estão afirmando que precisa haver uma redução drástica. Chegam até a estabelecer o limite máximo de trezentos milhões, ou seja, apenas 5% da população atual.

— E você já descobriu uma maneira de fazer essa redução?

— Pois é exatamente nisso que tenho pensado. Vocês se lembram das câmaras de gás?

— Sim, mas você não sepultou aquela maluquice?

— Não, não se pode desprezar uma boa ideia assim tão facilmente. Só que agora as coisas evoluíram muito, e já é possível substituir as câmaras de gás por métodos muito mais eficientes.

— Deus nos livre! Quer dizer que você está pensando em dizimar 95% da humanidade?

— Não seja injusto comigo. O que estou propondo é um aperfeiçoamento do mecanismo de seleção natural, que os cientistas alegam estar confirmado em toda a natureza.

— Você então vai propor guerras de extermínio de todos os países entre si, para depois recomeçar tudo de novo com os que sobrarem?

— Muito primitivo isso, e muito sangrento. Dá para fazer melhor e sem massacres.

— Eu até gostaria de saber como será a sua máquina de seleção natural.

— Muito simples. Vocês sabem que a exposição prolongada à radioatividade pode provocar o câncer, não é? Pois a minha proposta é construir um túnel radioativo e obrigar todas as pessoas a passarem por ele. Os que correrem com boa velocidade vão se livrar do câncer; e os mais fracos, que caminham devagar, morrerão pouco tempo depois. Pura aceleração da seleção natural.

— Você já apresentou essa ideia a algum ditador?

— Não, mas pretendo escrever àquele ecologista dos trezentos milhões. Imagine se esse cara vai a Secretário da ONU. Nós dois resolveremos todos os problemas ecológicos do mundo. E ainda eliminaremos os micróbios, pois a radioatividade já é usada para esterilizações.

Um dos colegas prestara atenção em tudo, e apresentou uma contraproposta:

— Eu também tenho uma ideia, muito melhor do que essa. Em vez de túnel radioativo, vamos fazer um corredor polonês para ele. E agora tomem posição: uma fila de cá, outra de lá, e ele vai passar correndo entre as duas. Se sair vivo do outro lado, depois dos nossos tapas, murros e chutes, será o primeiro sobrevivente do massacre ecologista.

Foi assim que meu colega desistiu do túnel ecológico-evolucionista. Mas ele é muito criativo, e ainda vai aparecer com outras. Só que agora ele já conhece o corredor polonês ambientalista.