Em julho de 1947, comentando o cenário internacional da Guerra Fria, Plinio Corrêa de Oliveira publicou um artigo intitulado Os dois blocos se consolidam e se organizam. Em determinado trecho, mencionava os chamados discos voadores, observando:
“Claro está que os discos voadores (…) não são mera fantasia popular.”
A observação é curiosa — sobretudo porque vinha acompanhada de extrema prudência. Dr. Plinio não aderiu às fantasias esotéricas tão comuns na época, mas também não tratou o fenômeno com o simplismo racionalista que reduz toda questão ao ridículo.
Talvez porque percebesse algo mais profundo.
Pois não deixa de ser significativo que, em períodos de grande tensão histórica, o tema dos discos voadores volte ciclicamente ao imaginário coletivo.
Foi assim durante a Guerra Fria.
E parece ser novamente assim hoje.
Dos blocos ideológicos ao caos multipolar
Nos anos 60 e 70, o mundo vivia sob o peso da bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética. O medo nuclear, a corrida espacial e a instabilidade psicológica das sociedades modernas criavam um ambiente propício ao irracional.
Foi precisamente nesse contexto que floresceram:
— o movimento hippie;
— a Revolução de Sorbonne em 1968;
— o esoterismo da Nova Era;
— o orientalismo pseudoespiritual;
— e a obsessão moderna pelos extraterrestres.
Tudo isso não surgiu por acaso.
Enquanto a III Revolução — a comunista — tentava impor estruturas rígidas de igualitarismo político e econômico, começava simultaneamente a nascer algo mais fluido, mais psicológico e mais desagregador.
Plinio Corrêa de Oliveira identificaria logo esse fenômeno como a IV Revolução.
Não mais a ditadura organizada do proletariado, mas a dissolução das estruturas da própria civilização.
A IV Revolução e a dissolução da realidade
Em Revolução e Contra-Revolução, Dr. Plinio descreve a IV Revolução como uma etapa marcada pelo tribalismo, pela destruição da racionalidade e pela dissolução das identidades estáveis.
Não é difícil perceber como muitos elementos da cultura ufológica moderna caminham nessa direção.
A ideia de uma “consciência planetária”, de “irmãos cósmicos”, de superação das religiões tradicionais em favor de uma espiritualidade difusa e universalista — tudo isso constitui um imaginário profundamente ligado à Nova Era.
O curioso é que esse irracionalismo convive perfeitamente com o “hiperdesenvolvimento tecnológico” contemporâneo.
Daí o paradoxo: quanto mais técnica, mais superstição.
Quanto mais informação, mais confusão psicológica.
O retorno dos OVNIs em tempos de crise
Hoje, o mundo atravessa nova fase de instabilidade:
— guerra entre Rússia e Ucrânia;
— tensões entre Irã e Estados Unidos;
— reorganização geopolítica global;
— crise de confiança nas instituições;
— fragmentação cultural do Ocidente.
E novamente os OVNIs retornam ao centro do debate.
Pentágono divulgando arquivos.
Audiências públicas.
Fenômenos aéreos misteriosos.
Discussões sobre “vida não humana”.
Tudo isso reacende o imaginário geral exatamente num momento de insegurança civilizacional.
Talvez porque o homem moderno, ao perder a referência sobrenatural verdadeira, continue procurando sinais “vindos do alto”.
Mas sem Céu.
Do sobrenatural ao extraterrestre
A modernidade não eliminou a necessidade de transcendência.
Apenas deslocou seu objeto.
Sem anjos, vieram os alienígenas.
Sem Revelação, vieram as “mensagens cósmicas”.
Sem religião, veio a espiritualidade difusa da Nova Era.
Nesse sentido, muitos aspectos da cultura ufológica contemporânea funcionam menos como ciência e mais como substituto psicológico da religião.
E isso explica sua força em períodos de crise.
Pois sociedades desorientadas tendem a oscilar entre: — o controle tecnocrático absoluto;
— e o irracionalismo tribal.
Exatamente os dois polos que caracterizam a transição entre a III e a IV Revolução.
Entre o medo e a desagregação
O fenômeno mais importante talvez não esteja nos céus.
Mas nas almas.
O crescimento simultâneo: — da paranoia coletiva;
— do colapso institucional;
— do esoterismo moderno;
— e da dissolução psicológica do homem contemporâneo
revela uma civilização em crise de fundamentos.
Uma civilização que já não sabe mais em quem confiar: — nem nos governos;
— nem na ciência;
— nem nas instituições;
— nem na própria razão.
Resta então o caos.
Ou a busca da ordem.
A verdadeira resposta
A Igreja sempre ensinou prudência diante do desconhecido.
Nem racionalismo estreito.
Nem credulidade delirante.
Mas sobretudo: nenhuma teoria sobre civilizações extraterrestres poderá resolver a crise espiritual do homem moderno.
Porque o problema central da civilização contemporânea não é cósmico.
É moral.
E enquanto a Revolução continuar dissolvendo as estruturas naturais, religiosas e culturais da sociedade, o vazio deixado por Deus tenderá a ser preenchido por mitos — sejam políticos, tecnológicos ou interplanetários.
A verdadeira restauração não virá das estrelas.
Mas da volta à ordem cristã.



