Do coração das mães ao coração dos filhos: Dona Lucília Ribeiro dos Santos

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Transcrevemos de O Cruzado do Século XX, do Prof. Roberto de Mattei, esse trecho sobre Da. Lucília Ribeiro dos Santos, progenitora do Prof. Plinio. Ela faleceu em 21 de abril de 1968.

Lucília Ribeiro dos Santos (61), mãe de Plínio, nasceu em Pirassununga, São Paulo, a 22 de Abril de 1876, sendo a segunda de cinco filhos. A sua infância transcorreu num ambiente doméstico tranquilo e aristocrático, iluminado pela figura dos pais António (1848-1909), um dos melhores advogados de São Paulo naquela época, e Gabriela (1852-1934).

Em 1893, a família transferira-se para São Paulo, residindo num palacete no bairro dos Campos Elíseos. Aqui, com trinta anos de idade, Lucília conhecera e desposara o advogado João Paulo Corrêa de Oliveira (62), oriundo de Pernambuco, no Nordeste brasileiro e que se mudara para São Paulo, talvez por sugestão do tio, o Conselheiro João Alfredo. 

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Quando esperava o nascimento de Plínio, o médico anunciou a Dª Lucília que o parto iria ser arriscado e que provavelmente ela ou o menino morreriam. Perguntou-lhe se não preferiria que lhe praticassem o aborto, para não arriscar a própria vida. Dª Lucília de modo tranquilo, mas firme, respondeu: “Doutor, esta não é uma pergunta que se faça a uma mãe! O Sr. nem deveria sequer tê-la cogitado!” (63) Este acto de heroísmo reflecte bem o que foi a sua vida inteira. 

Da. Lucília tendo aos braços Plinio 

“A virtude – escreve Mons. Trochu – passa facilmente do coração das mães ao coração dos filhos” (64). “Educado por uma mãe cristã, corajosa e forte – escreveu o Padre Lacordaire da sua mãe – a religião tinha passado do seu seio para mim, como um leite virgem e sem amargura” (65).

Em termos análogos Plínio Corrêa de Oliveira atribuiu a Dª Lucília o cunho espiritual que desde a infância selou a sua vida: 

A minha mãe ensinou-me a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica” (66). “Eu recebi dela, como algo que deve ser tomado profundamente a sério, a Fé Católica Apostólica Romana, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora” (67).

Imagens na igreja do Sagrado Coração de Jesus, na capital paulista

Numa época em que Leão XIII havia exortado a colocar no Coração de Jesus “toda a esperança, a pedir-Lhe e esperar d’Ele a salvação” (68), a devoção que caracterizou a vida de Dª Lucília foi a do Sagrado Coração de Jesus, que é por excelência a devoção dos tempos modernos (69). Uma igreja dedicada ao Coração de Jesus erguia-se não longe da casa dos Ribeiro dos Santos (70). A jovem mãe visitava-a todos os dias, levando consigo Plínio e a sua irmã Rosée. Foi aqui, no clima sobrenatural que caracterizava as igrejas de outrora, observando a mãe em prece, que se formou no espírito de Plínio aquela visão da Igreja que o marcou profundamente. “Eu percebia–recordaria Plínio Corrêa de Oliveira- que a fonte do seu modo de ser estava na sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus, por meio de Nossa Senhora” (71). Dª Lucília permaneceu sempre fiel à devoção da sua mocidade. Nos últimos anos da sua vida, quando as forças já não lhe permitiam dirigir-se à igreja, permanecia longos períodos em oração, até altas horas da noite, diante de uma imagem de alabastro do Sagrado Coração de Jesus, entronizada no salão principal da sua moradia (72). 

As notas dominantes da alma de Dª Lucília eram a piedade e a misericórdia. A sua alma caracterizava-se por uma extraordinária capacidade de afecto, de bondade, de amor materno, que se projectava para além dos dois filhos que a Providência lhe deu. 

“Ela possuía uma enorme ternura – dizia Plínio Corrêa de Oliveira – foi afectuosíssima como filha, afectuosíssima como irmã, afectuosíssima como esposa, afectuosíssima como mãe, como avó e mesmo como bisavó. Ela levou o seu afecto até onde lhe foi possível. Mas, eu tenho a impressão de que alguma coisa nela dá a nota tónica de todos esses afectos: é o facto de ela ser, sobretudo, mãe! Ela possui um amor transbordante não só para com os dois filhos que teve, como também para com filhos que ela não teve. Dir-se-ia que ela era feita para ter milhões de filhos, e o seu coração palpitar do desejo de conhecê-los” (73).

Quem não conheceu Dª Lucília pode intuir a sua fisionomia moral por meio de algumas expressivas fotografias e através dos numerosos testemunhos dos que a recordam nos últimos anos da sua avançada idade (74). Ela representava o modelo de uma perfeita dama, que teria encantado um São Francisco de Sales à procura da figura exemplar que imortalizou com o nome de Filotéia (75). Pode-se imaginar que Dª Lucília educasse Plínio no espírito daquelas palavras que São Francisco Xavier dirigiu certa noite ao seu irmão, quando o acompanhava a uma recepção: “Tenhamos boas maneiras, ad majorem Dei gloriam”. 

A perfeição das boas maneiras é o fruto de uma ascese que só se pode alcançar com uma educação aprimorada através de séculos ou com um exímio esforço de virtude, tal como se pode encontrar com frequência nos conventos contemplativos, nos quais se ministra às jovens noviças uma educação que, sob este ponto de vista, se poderia considerar régia. Além disso, o homem é feito de corpo e de alma. A vida da alma manifesta-se de forma sensível através do corpo, e a caridade exprime-se em actos externos de cortesia. A cortesia é um rito social alimentado pela caridade cristã, que também se ordena à glória de Deus. “A cortesia é para a caridade o que a liturgia é para a oração: o rito que a exprime, a acção que a encarna, a pedagogia que a suscita. A cortesia é a liturgia da caridade cristã” (76). 

Lucília Ribeiro dos Santos encarnava o que de melhor havia no espírito da antiga aristocracia paulista. Na cortesia da sua mãe, expressão da sua caridade sobrenatural, o jovem Plínio via um amor à ordem cristã levado às suas últimas consequências e uma repulsa igualmente radical pelo mundo moderno e revolucionário. Desde então, as maneiras aristocráticas e a afabilidade no trato foram uma constante da sua vida. Plínio Corrêa de Oliveira, que nos seus modos fazia lembrar o Cardeal Merry del Val, o grande Secretário de Estado de São Pio X, célebre pela sua humildade de alma e a perfeição das suas maneiras, sabia proceder magnificamente em sociedade. A sua compostura era exemplar, a sua conversação inesgotável e fascinante. 

A Providência dispôs que estas qualidades se alimentassem e renovassem num convívio quotidiano que se prolongou até 1968, quando Dª Lucília morreu, aos 92 anos de idade.

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Cruzado0104.htm#.YH9pb2dKiMo

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