Na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, uma cena com artistas drag foi percebida por numerosos católicos como uma paródia da Última Ceia. Artigo publicado pelo IPCO classificou a representação como blasfema e criticou tanto a resposta dos organizadores quanto a demora da Santa Sé em se pronunciar. Quando finalmente se manifestou, segundo o texto reproduzido pelo IPCO, a Santa Sé declarou-se entristecida com algumas cenas e associou-se às vozes que deploraram a ofensa causada a cristãos e a crentes de outras religiões.
A discussão sobre a intenção dos responsáveis não eliminou o ponto central da controvérsia: em um espetáculo mundial realizado na capital francesa, uma composição imediatamente associada por muitos à instituição da Eucaristia foi submetida a uma linguagem de irreverência cultural. Para os católicos que protestaram, não se tratava apenas de mau gosto ou de liberdade artística, mas do tratamento público dispensado a uma realidade sagrada.
Dois anos depois, a visita do Papa Leão XIV à França, de 25 a 28 de setembro de 2026, ofereceu uma imagem muito diferente. Seu itinerário reuniu Paris, Saint-Denis, Lourdes e Metz, passando por lugares nos quais a história religiosa francesa permanece inscrita nas pedras, nas instituições e nas devoções.
Notre-Dame: memória religiosa no coração de Paris
Na tarde de 25 de setembro, Leão XIV celebrou as Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris com bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e seminaristas. O contraste com a abertura olímpica não decorria apenas de ambas as cerimônias terem ocorrido em Paris, mas do modo como cada uma apresentou, diante do público, a herança cristã.
Na controvérsia de 2024, um símbolo central da fé foi percebido como matéria de paródia. Em Notre-Dame, ao contrário, a liturgia foi celebrada segundo sua finalidade própria, em uma catedral na qual a memória nacional e a memória da Igreja se encontram há séculos.
Segundo a Vatican News, a história religiosa daquele lugar é anterior à própria construção gótica iniciada no século XII. A catedral atravessou as devastações da Revolução Francesa, sucessivas restaurações e o incêndio de 2019. Conserva também relíquias da Paixão, entre elas a Coroa de espinhos, parte da madeira da Cruz e um dos pregos. Não é, portanto, apenas uma obra admirável de arquitetura: continua sendo espaço de culto, pregação e conversão.
A mesma fonte recordou que Bento XVI, durante Vésperas celebradas em 2008, evocou as conversões ocorridas em Notre-Dame, algumas conhecidas e outras discretas. A permanência da catedral, assim, não se reduz à conservação de um objeto histórico. Sua continuidade mais profunda está no exercício da finalidade para a qual foi erguida.
Saint-Denis: das origens missionárias aos jovens reunidos em oração
Na noite de 25 de setembro, Leão XIV participou de uma vigília de oração com jovens no Stade de France, em Saint-Denis. Embora o programa não previsse visita à basílica local, a própria cidade carrega uma densa memória cristã e nacional.
Segundo relato publicado pela ACI Digital, um dos momentos mais marcantes da vigília foi uma encenação na qual centenas de atores representaram mais de 1.700 santos e beatos da França. A apresentação compôs a imagem de um “exército da santidade”; o relato acrescentou que o Papa se mostrou profundamente comovido e chegou a enxugar uma lágrima. A cena culminou com uma queima de fogos de artifício.
Saint-Denis está ligada à tradição de São Dionísio, considerado o primeiro bispo de Paris.
Sobre o local de sua sepultura surgiu a basílica que se tornaria necrópole dos reis da França, ligada também à recordação de personagens como São Luís e Joana d’Arc. A vigília no estádio introduziu outro elemento nessa continuidade: uma herança recebida de séculos anteriores foi apresentada a uma geração que nem sempre encontrou a fé nas famílias ou no ambiente cultural em que cresceu.
A continuidade cristã, nesse caso, não consiste em transformar o passado em peça de museu. Ela exige transmissão, adesão e vida. A reunião de jovens em oração, centenas de confissões atendidas nas próprias ruas, acompanhada pela evocação dos santos e beatos franceses, mostrou que a história religiosa de Saint-Denis ainda pode apontar para o presente.
Lourdes: devoção ainda viva
O Papa chegou a Lourdes na noite de 26 de setembro e rezou na Gruta das Aparições de Massabielle. No dia seguinte, encontrou-se com os bispos franceses, celebrou Missa no santuário, visitou os responsáveis e assistidos do Accueil Notre-Dame, reuniu-se privadamente com religiosas contemplativas e participou da recitação do Rosário acompanhada pela procissão das velas.
A sucessão desses atos foi significativa. Em Lourdes, a herança cristã não apareceu principalmente como lembrança arquitetônica ou episódio remoto. Manifestou-se por meio da peregrinação, da oração mariana, da vida contemplativa, da assistência aos enfermos e da celebração dos sacramentos.
É nesse ponto que o contraste com a cena olímpica se torna mais claro. De um lado, um símbolo religioso foi retirado de seu contexto e recebido por fiéis como objeto de escárnio. De outro, a viagem pontifícia encontrou uma devoção praticada em sua ordem própria: a gruta como lugar de oração, o Rosário como ato de piedade e a Missa como culto, não como matéria para reelaboração espetacular.
A etapa final, em 28 de setembro, ocorreu em Metz.
Uma disputa sobre o significado dos símbolos
Seria imprudente concluir que a cerimônia olímpica representa toda a França contemporânea ou que a viagem pontifícia exprime sem reservas a totalidade da sociedade francesa. Os dois acontecimentos tampouco foram equivalentes em natureza: um foi um espetáculo esportivo e cultural; o outro, uma viagem apostólica. O contraste legítimo está no tratamento público dado à mesma herança.
À luz de Revolução e Contra-Revolução, esse contraste pode ser compreendido como manifestação de uma disputa cultural mais profunda. O processo revolucionário não atua apenas por mudanças institucionais. Ele também tende a alterar o sentido dos símbolos, dessacralizar o que era venerado e apresentar como superada a ordem moral e religiosa recebida. A reação contrária começa quando pessoas, instituições e comunidades voltam a reconhecer esses bens segundo sua natureza e finalidade.
A ponte entre esse princípio e os fatos é concreta. A controvérsia olímpica nasceu da apropriação de uma imagem sagrada por uma linguagem ofensiva. A viagem pontifícia, por sua vez, passou por liturgias, santuários, relíquias, memórias de santos nas quais o catolicismo continua a ser professado e transmitido.
A França revelada por esses lugares não é uma reconstrução artificial de épocas desaparecidas. Notre-Dame foi restaurada depois de um incêndio; Saint-Denis reuniu jovens em oração e evocou a multidão de santos e beatos franceses; Lourdes continuou a acolher peregrinos e enfermos; Metz associou a reflexão sobre a Europa à celebração em sua catedral. Há feridas, rupturas e incertezas, mas há também sinais de graças e de resistência da fé, mesmo diante de uma profunda crise.
Fontes consultadas
- ACI Digital: https://www.instagram.com/reel/Ddug16oJ3lB/
- www.vatican.va — Viagem Apostólica do Santo Padre a França e Visita à Sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) (25-28 de setembro de 2026)
- www.vaticannews.va — Paris, Notre-Dame e Saint-Denis: Leão XIV percorrerá a história cristã da França – Vatican News
- ipco.org.br — Agenda antifamília: blasfêmias nas Olimpíadas




