Formação: o imutável e o circunstancial na vida dos povos

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Comentando um discurso do Papa Pio XII aos historiadores:

Referindo-se às condições hodiernas do Ocidente, Pio XII, em seu discurso aos historiadores, notou que sua situação é de funda crise religiosa: “O que se chama Ocidente ou mundo ocidental sofreu profundas modificações desde a Idade Média: a cisão religiosa do século XVI, o racionalismo e o liberalismo conduziram o Estado do século XIX à sua política de força e à sua civilização secularizada. Tornava-se pois inevitável que as relações da Igreja Católica com o Ocidente sofressem um deslocamento”.

A doutrina do Evangelho é imutável. Mas, ao ser posta em prática, ela deve atuar sobre inúmeras circunstâncias concretas das mais variáveis, ordenando-as, corrigindo-as, elevando-as. E como uma civilização católica, considerada no plano histórico, é sempre a realização dos princípios doutrinários imutáveis do Evangelho, em circunstâncias históricas mutáveis, como de outro lado a Igreja não está vinculada senão à Revelação, daí decorre que Ela não Se identifica com qualquer cultura, ou qualquer civilização, por mais que lhes tenha servido de fonte de inspiração.

Como distinguir o essencial do circunstancial?

Princípio altíssimo, princípio fecundo, que melhor se compreende em toda a sua extensão, considerando-lhe a aplicação, a titulo de exemplo, numa esfera mais acessível, isto é, esfera individual. 

Tenhamos em vista, assim, não a história de um século, mas a de um homem, a de um Santo. Cada Santo dá uma realização plena aos preceitos e aos conselhos do Evangelho. Mas esta realização tem como campo de ação as circunstâncias pessoais e culturais do Santo. A Igreja impõe que se imite o exemplo dos Santos? Cumpre distinguir. Em seu espírito, nos princípios que o nortearam, sim, mas no que decorria de circunstâncias históricas contingentes, não. Santo Antônio falou aos peixes. Quer isto dizer que todo católico deve ir ao litoral convocar os peixes para uma conferencia? Não. São Simeão Estilita passou a vida no alto de uma coluna. Quer isto dizer que o mundo se deva transformar numa floresta de colunas, com um bom católico no alto de cada uma? Também não. Mas o espírito dos Santos, as regras de moral que praticaram, a virtude de que deram mostras, isto é perene, isto é imitável em todos os tempos e lugares.

Assim com a Idade Média. Tudo quanto nela foi inspiração dos princípios católicos, devemos desejar vê-lo revigorado no mundo inteiro. Mas o que foi circunstancial pode mudar.

Como distinguir o essencial do circunstancial? A tarefa comporta riscos consideráveis. Pois se há um excesso possível, no se considerar imutável algo que foi circunstancial, há também outro excesso possível, no se considerar circunstancial algo que é imutável. Isto não quer dizer que esta distinção não deva fazer-se. Quer dizer que deve fazer-se com muita prudência, muito tato, muito amor à Igreja. E muita desconfiança de que nos influenciem os erros tão pertinazes, tão aliciantes, de nosso século.

Um exemplo para ilustrar o assunto. A Igreja ensina ser obrigação do Estado professar a Religião Católica oficialmente, e organizar-se segundo os ditames do Evangelho. Na Idade Média, os Estados cristãos cumpriram este dever. O mesmo ideal continua a ser o de todos os católicos… não maritainizados. (É o que poderia ponderar um escritor do Rio de Janeiro, admirador fogoso e irrestrito de Maritain, que viu no discurso de Pio XII uma justificação da atitude de seu mestre nessa questão). Mas isto não quer dizer que muitos dos pormenores concretos dessa união – estilos e protocolos, por exemplo – não mudem conforme os tempos e os lugares. E é bem de ver que o campo do contingente não se limita a pormenores tais. Basta ler para este efeito a alocução de Pio XII.

Se, pois, os católicos podem e devem inspirar-se no passado, é para imitá-lo, e não para o copiar servilmente. Neste mudar de ano quer Pio XII que entremos em 1956 com a cabeça cheia da sabedoria da Igreja e da boa inspiração do passado, mas com os movimentos livres. 

Olhos postos no futuro

A própria Idade Média, lembra o Pontífice, tomou inspiração em épocas e culturas anteriores. Sem os ridículos e nefastos excessos da renascença, nutriu-se ela do leite rico da cultura clássica, do vinho forte de certos costumes germânicos, e das tradições de Fé dos séculos que a precederam. O que significa que tomou elementos culturais contingentes, para fazer a sua grande obra. De onde decorre que, embora ela tenha sido uma cultura católica, outras culturas católicas são possíveis, igualmente fiéis ao espírito da Igreja, mas alimentadas de seivas diferentes. E com isto Pio XII abre largamente os braços para as nações hoje ainda pagãs. Pode haver no Japão ou na Pérsia, desde que se convertam, uma cultura católica que assuma, purifique, eleve e ordene todos os valores tradicionais daqueles países. Claro está que, neste sentido histórico da palavra “cultura” terá nascido uma autêntica cultura católica nova, profundamente afim com a do Ocidente enquanto católica, profundamente diversa enquanto persa ou japonesa. E Pio XII quer mostrar bem claramente aos povos gentios que a Igreja não deseja de modo nenhum desnacionalizá-los, nem ocidentalizá-los. Católica, a Igreja entretanto não é cosmopolita. Ao contrário do que hoje se pratica, Ela não quer impor ao mundo inteiro uma mesma arte, um mesmo estilo de vida. Na imensidade de seu coração, cabem todos os povos folgadamente, de sorte que o suíço continue inteiramente suíço sendo profundamente católico, e o mesmo suceda ao afegão, ao esquimó ou ao bororó. Ela não sente necessidade de os reduzir a uma matéria-prima única e informe para os abranger todos. Cabem, portanto, em seu seio todas as culturas, em tudo aquilo que tenham de naturalmente bom, e aceitável pela Igreja, sob a condição de que se deixem guiar por sua doutrina e embeber inteiramente de sua vida sobrenatural.

Entramos, pois, em 1956, como O Pai Comum, com o coração e os braços largamente abertos, para uma acolhida cheia de discernimento, inteligência, prudência e afeto, para esses povos de tão glorioso passado… 

Samurai com o terço

O que fica então de fora? Tudo aquilo que a Igreja repudia como contrário ao Evangelho. Antes de tudo, as leis, instituições, a própria inspiração do comunismo. A Igreja ama intensamente os povos que gemem sob o peso deste erro. Mas execra o erro que os domina. Em seguida, todos os elementos que formam a velha ganga do paganismo na gentilidade: idolatria, costumes corruptos, naturalismo profundo, brutalidade. E, por fim, tudo aquilo que constitui em nossa civilização ocidental o veneno mil vezes pior do chamado “neopaganismo”, que antes devera chamar-se o maniqueísmo moderno, sob todas as suas formas declaradas ou larvadas.

Que o ano de … marque um passo avantajado na derrota de todo este mal, na edificação de uma civilização autenticamente católica em cada país do mundo, é o que de melhor, a respeito dele, podemos pedir a Nossa Senhora.

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O que pensar, à luz desses princípios, da “sabedoria ancestral dos indígenas” tão idolatrada pelo Sínodo da Amazônia? Nessa “sabedoria ancestral” qual a dosagem de paganismo, de revolta contra a Lei Natural? Infanticídio, idolatria, canibalismo, poligamia …

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/1956_061_CAT_Fidelidade_ao_passado.htm


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