Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.

Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da atmosfera do santuário2 e dos peregrinos que para lá acorrem.

Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.

Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão – não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a monotonia que ali domina.

Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor, pela ação de uma graça impalpável, mas real.

Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca, talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.

Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes. Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais, tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!

Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer. Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade, paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento religioso.

Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de 70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.

Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem. Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações, desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele cemitério de cruzes brancas.

Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um violino que pertenceram ao Pe. Reus

Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo, um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos, breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava encantar-se com elas.

De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário, a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa dali.

Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o atual gigante!

O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria, Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.

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Notas

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.

  1. Uma boa biografia do jesuíta foi escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus, Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
  2. O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de 1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
  3. Op. cit. pág. 81.

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