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Crédito: Editorial

Uma grande potência pode possuir porta-aviões, exércitos e arsenais. Mas há uma força que não se mede em toneladas, soldados ou ogivas: a confiança depositada em sua palavra. Quando esta começa a valer menos, as armas precisam valer cada vez mais.

Donald Trump voltou a pôr essa questão diante do mundo.

Ao rever publicamente a posição americana sobre as Malvinas, em meio às divergências com Londres sobre a guerra contra o Irã, o presidente americano tocou num ponto muito maior que a secular controvérsia entre argentinos e britânicos. 

Segundo o relato do Estado de S. Paulo, Trump sugeriu que não apoiaria o Reino Unido em eventual conflito com a Argentina e associou essa posição à falta de apoio britânico na guerra contra o Irã. Também afirmou que poderia rever a neutralidade americana na disputa caso Londres não aumentasse seus gastos com defesa.

Não cabe aqui resolver a questão da soberania das Malvinas. Tampouco supor que os Estados Unidos sejam obrigados a endossar todas as posições britânicas.

A questão é anterior: o que acontece com uma ordem internacional quando compromissos duradouros passam a ser percebidos como instrumentos de pressão para obter vantagens em controvérsias diferentes?

É aí que os acontecimentos deixam de ser apenas diplomacia e começam a revelar uma concepção de ordem.

O poder não é a autoridade

Uma das grandes confusões do mundo moderno consiste em identificar autoridade com força.

Não são a mesma coisa.

A autoridade verdadeira ordena forças diferentes para o bem comum. Na perspectiva de uma sociedade orgânica, o superior não existe para absorver os corpos menores, mas para coordená-los, respeitando sua natureza, suas responsabilidades e sua legítima esfera de ação.

O princípio pode ser aplicado, por analogia, às relações entre povos. A superioridade militar de uma grande potência não lhe confere, por si mesma, o direito de tratar países menores como extensões provisórias de sua vontade. Pelo contrário: quanto maior a força, maior a responsabilidade de empregá-la com medida.

É essa medida que distingue autoridade de mera capacidade de imposição.

A regra invisível da honra

Há outro elemento que raramente aparece nos balanços geopolíticos: a honra.

Uma ordem estável depende de um ambiente no qual princípios, lealdades e deveres conservem valor próprio e não precisem ser renegociados a cada instante segundo a conveniência imediata. Nem tudo pode depender da ameaça, da vantagem econômica ou da correlação momentânea de forças.

A palavra dada possui peso. E isso vale também entre nações.

Naturalmente, alianças podem ser revistas. Tratados não são imutáveis. Governantes têm o dever de defender o legítimo interesse nacional. Há, porém, enorme diferença entre renegociar claramente um compromisso e fazer com que sua validade prática pareça depender, a cada crise, do comportamento momentâneo do parceiro.

No primeiro caso existe prudência e negociação. No segundo começa a surgir a insegurança.

Groenlândia e Islândia: quando o aliado olha para o protetor

Isso ajuda a compreender por que episódios diferentes produziram reações semelhantes no Atlântico Norte.

Na Groenlândia, as repetidas manifestações de Trump sobre assumir o controle da ilha levaram a União Europeia a reforçar publicamente seu apoio aos groenlandeses e dinamarqueses. Em Nuuk, Ursula von der Leyen anunciou 200 milhões de euros para os dois anos seguintes e declarou que o futuro do território cabe aos povos da Groenlândia e da Dinamarca, invocando soberania, integridade territorial e inviolabilidade das fronteiras.

Na Islândia, a reação nasceu de uma imagem. O governo convocou o embaixador americano depois que Trump publicou um mapa manipulado no qual Islândia, Groenlândia, Canadá, México e Cuba apareciam cobertos pela bandeira americana. A chancelaria islandesa classificou a publicação como totalmente inadequada.

Uma imagem não é uma invasão. Uma declaração não é uma anexação. Mas política internacional também se faz de símbolos, porque símbolos alteram expectativas.

No caso islandês, isso possui peso particular: o país integra a Otan, não tem forças armadas próprias e depende, para sua defesa, de um acordo bilateral firmado com os Estados Unidos em 1951. Nenhuma das fontes informa ruptura desse acordo. Ainda assim, quando um país nessa condição é representado simbolicamente como parte do território da potência encarregada de sua defesa, surge uma pergunta incômoda: o protetor continuará sendo apenas protetor?

A confiança começa então a ceder espaço ao cálculo.

A intemperança também pode entrar na política externa

Uma categoria útil do livro Return to Order é a crítica à perda da medida, à aceleração desordenada e ao impulso de remover freios legítimos para alcançar resultados cada vez mais imediatos.

Algo semelhante pode aparecer na política internacional quando todo instrumento passa a ser empregado para produzir uma vantagem instantânea: uma tarifa torna-se arma diplomática; uma aliança converte-se em instrumento de negociação; uma controvérsia territorial transforma-se em ficha de pressão; uma publicação nas redes sociais repercute sobre relações construídas ao longo de décadas.

Isso pode produzir resultados rápidos. Mas uma ordem orgânica não vive somente de resultados.

Vive também de continuidade, costumes, compromissos, autoridade, reciprocidade e confiança. 

São precisamente as coisas que a pressa tende a consumir.

Hierarquia não significa arbitrariedade

O livro Revolução e Contra-Revolução oferece aqui uma distinção importante. A ordem cristã reconhece desigualdades e hierarquias legítimas, mas isso não significa que o mais forte possa transformar sua superioridade em vontade sem limites.

A verdadeira hierarquia é ordenada: prerrogativas maiores correspondem a responsabilidades maiores e permanecem submetidas a princípios objetivos.

Há, portanto, duas maneiras de deformar as relações internacionais. Uma consiste em imaginar uma igualdade absoluta entre países evidentemente desiguais em população, capacidade militar, responsabilidades e recursos. A outra consiste em supor que a desigualdade de poder autorize o maior a impor tudo aquilo que consegue impor ao menor.

Nem igualitarismo, nem arbitrariedade. Ordem.

Quando todos começam a desconfiar de todos

É aqui que o problema deixa de interessar apenas a britânicos, dinamarqueses ou islandeses.

Quando uma potência torna menos previsíveis suas garantias, os aliados procuram alternativas. Aumentam gastos militares, procuram novas garantias, constroem entendimentos paralelos e passam a se preparar para hipóteses antes consideradas remotas.

Os adversários observam o mesmo movimento e respondem.

O Estado de S. Paulo, citando o Uppsala Conflict Data Program, registrou que 2025 teve 65 conflitos envolvendo um ou mais Estados, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. Treze foram classificados como guerras com mais de mil mortes no ano, e aproximadamente 244 mil pessoas morreram em conflitos.

Esses números possuem causas numerosas e não podem ser atribuídos a Donald Trump. Entre os fatores mencionados pelas fontes estão a crise de governança posterior à Primavera Árabe, a anexação da Crimeia pela Rússia, a invasão da Ucrânia e a deterioração mais ampla de mecanismos internacionais de contenção.

Mas, num mundo assim, seria imprudente imaginar que a redução da confiança não tenha preço.

Cada compromisso que deixa de parecer seguro precisa ser compensado por novas precauções. Cada aliado que duvida prepara uma alternativa. Cada adversário procura testar os limites.

A força destinada a produzir segurança pode acabar multiplicando o medo.

O porta-aviões e o desgaste

Há quase uma parábola no recente percurso do USS Abraham Lincoln.

O porta-aviões chegou à Tailândia depois de 286 dias de operação em apoio à guerra americana contra o Irã, dos quais 264 dias ininterruptos no mar antes da escala. As fontes mencionam sinais de desgaste no casco, preocupações com a saúde mental da tripulação e escassez de suprimentos essenciais. A Marinha americana rejeitou as críticas, enquanto Trump declarou que o destacamento não fora longo o suficiente.

Não se pode deduzir do estado de um navio o declínio de uma potência. Mas a imagem é sugestiva.

Até a maior máquina possui limites. Homens se cansam. Navios precisam de manutenção. Recursos não são inesgotáveis. Nenhuma potência pode permanecer indefinidamente em todos os lugares.

Justamente por isso, quanto mais limitada é a força material, mais preciosa se torna a força moral da palavra dada.

A grande potência e a grandeza

Trump tem razão ao lembrar que a proteção possui custos e que aliados não podem transferir indefinidamente a outros a responsabilidade por sua própria defesa. Exigir reciprocidade pode ser não apenas legítimo, mas necessário.

O problema surge quando a aliança parece deixar de ser compromisso para transformar-se em transação permanente.

Há diferença entre dizer a um aliado: assuma a parcela de responsabilidade que lhe cabe, e transmitir a mensagem: acompanhe-me hoje, ou talvez eu não esteja ao seu lado amanhã.

A primeira atitude pode fortalecer uma aliança.

A segunda corre o risco de transformar proteção em dependência.

Return to Order recorda a importância da medida, da honra, da continuidade e das instituições orgânicas. Revolução e Contra-Revolução mostra que ordem não significa ausência de hierarquia, mas tampouco o triunfo do voluntarismo. É a disposição legítima das coisas segundo princípios superiores à vontade passageira dos homens.

Uma grande potência demonstra sua força pela capacidade de vencer uma guerra.

Mas demonstra sua grandeza quando amigos e adversários sabem que sua palavra continuará valendo quando chegar a hora difícil.

Pois, quando a palavra vale, muitas armas podem permanecer silenciosas.

Quando ela deixa de valer, todas as partes começam a procurar mais armas.

E talvez seja precisamente essa a diferença entre poder e ordem.


Fontes consultadas

  • O Estado de S. Paulo — Porta-aviões dos EUA chega com sinais de desgaste à Tailândia — AP e AFP — O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 4 de setembro de 2026
  • O Estado de S. Paulo — Trump diz que não apoiaria britânicos se a Argentina atacasse Malvinas — Agence France Presse — O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 4 de setembro de 2026
  • O Estado de S. Paulo — Declínio dos EUA impulsiona maior número de conflitos desde a 2ª Guerra — Carolina Marins, Lucas Keske, Bruno Ponceano e William Brizola — O Estado de S. Paulo, domingo, 6 de setembro de 2026
  • O Estado de S. Paulo — Em meio à pressão dos EUA, UE libera recursos para a Groenlândia — atd — O Estado de S. Paulo, terça-feira, 8 de setembro de 2026
  • O Estado de S. Paulo — Islândia protesta após Trump indicar ilha como território americano — Agence France Presse — O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 9 de setembro de 2026

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