Igreja ortodoxa russa a serviço do comunismo; Padre Arrupe visita Pimen (I)

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Publicamos a seguir o artigo do Prof. Plinio, na Folha de São Paulo, analisando a visita do geral dos Jesuítas, Padre Arrupe, ao “patriarca” ortodoxo Pimen. A invasão da Ucrânia pelas tropas de Putin trouxeram nova atualidade ao tema da igreja ortodoxa russa por ser, novamente, um apoio ao déspota do Kremlin — tal qual fez durante o stalinismo.

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Sobre Pimen

A recente visita que o Geral da Companhia de Jesus, Padre Arrupe, fez à Rússia, deu nova atualidade a um dos assuntos mais dramáticos — e ao mesmo tempo ilustrativos — da vida religiosa hodierna.

Padre Arrupe, Geral dos Jesuítas, à direita. Pimen, “patriarca” ortodoxo, à esquerda

Segundo noticiou toda a imprensa, o objetivo da viagem era visitar o “Patriarca” Pimen, de Moscou, tomar contato com a “Igreja Ortodoxa” russa, e participar com os “ortodoxos” da festa litúrgica da Assunção. Todas estas aspas são minhas. Não me parece que elas estejam em harmonia com o significado simbólico da viagem do ilustre sucessor de Santo Inácio. Não as atribuo, pois, a ele. Mas, como quem escreve sou eu, e elas tem mil afinidades com minha mentalidade, elas aí estão.

Com efeito, sobre isto já me expliquei em artigo anterior (“Lições no jardim do vizinho“, Folha de S. Paulo, de 25-7-71).

Uma vez que a única Igreja verdadeira é a católica, só Ela tem o direito de ser chamada ortodoxa. Pois este adjetivo se aplica, em grego, a quem possui uma opinião reta. Ora, a verdade integral, só a pode possuir um Igreja infalível. Isto é, a Igreja Católica. Contesto, ademais, que Pimen seja Patriarca de qualquer lugar. Tenho por certo que a “igreja” de que ele faz parte não merece o nome de Igreja. E, “ipso facto”, nego que ela seja uma continuadora verdadeira ou uma parcela autêntica da Igreja greco-cismática russa do tempo dos tzares.

E por tudo isso, estou a me perguntar o que foi fazer com Pimen e sua grei o Pe. Arrupe. Sem dispor de elementos para dar respostas a essa pergunta, registro entretanto um fato óbvio e importante.

É que, aceitando de se sentar, lado a lado com Pimen e os seus, o Revmo. Pe. Arrupe admitiu implicitamente que os toma a sério, como religião, como Igreja e como hierarquia. Aos olhos de incontáveis católicos, a camarilha pseudo-cristã de Pimen, da qual tanta gente duvidava, recebeu, assim, de certo modo, um precioso aval.

— A quem serviu este aval? Só à camarilha? — Não. Esta não age por conta própria. Foi ela criada artificialmente por Stalin com o intuito de disfarçar, pelo menos em alguma medida, aquém e além cortina de ferro, o desígnio essencial do Kremlin, que é de aniquilar a Religião sobre a face da terra. Em outros termos, a razão de ser da “igreja” de Pimen é fazer propaganda comunista entre aqueles mesmos cujas convicções religiosas o comunismo quer exterminar.

De tudo isto decorre que o resultado último da viagem do eminente jesuíta foi facilitar o jogo dos déspotas de Kremlin.

Não quero, com estas palavras, emitir um juízo sobre as intenções do padre Arrupe. Limito-me a constatar o fato: todo o lucro foi do Kremlin.

Digo-o com uma tristeza sem nome. Pois honro-me em ser ex-aluno da Companhia de Jesus, e formei minha vida espiritual e meu feitio de espírito segundo os princípios do grande Inácio de LoyolaAo escrever o que acima ficou, tinha eu a sensação de estar cortando meu próprio corpo. Ou, pior, minha própria almaNão obstante, essa é a verdade, por mais que ela me doa. E eu a devo inteira aos meus leitores.

* * *

Pressinto que leitores “sapos” menearão a cabeça ao tomar conhecimento de minha apreciação sobre o resultado da viagem do Rev.mo pe. Arrupe. Bem “sapamente” evitarão entrar no mérito da questão. Suas lamentações serão feitas de modo dulçuroso e interrogativo, abordando o assunto pela rama: “Por que adotar, na matéria, uma linguagem tão peremptória, uma atitude tão exclusivista, uma lógica tão estrita?”

Não respondo aqui propriamente aos “sapos”, pois a experiência me vai mostrando sempre mais que um “sapo” só pode ser persuadido por um milagre de primeira grandeza. Um destes milagres fulgurantes e sublimes, de que não tenho nenhuma notícia nos dias vulgares e pardacentos que correm. Tenho minha atenção voltada só para aqueles em quem a argumentação “sapa” produza algum efeito.

A estes pergunto o que poderia eu fazer senão usar tal lógica, tal exclusivismo e tal linguagem? Se aos olhos do mundo os maquiavéis do Kremlin levantam um formidável embuste — como é a “igreja” de Pimen — destinado a lhes facilitar a conquista do poder universal, onde está para nós, anticomunistas, o caminho do dever?

— No silêncio? Não. Lembro-me, a este propósito, de um verso de Edmond  Rostand:

“Tout ce qui trop longtemps reste dans l’ombre et dort.

S’habitue au mensonge et consent à la Mort!” [Tudo o que permanece muito tempo à sombra e dorme, se habitua à mentira e consente à morte, n.d.c.] (Chantecler, Fasquelle Editeurs. Paris, 1957, pág. 217).

— Na palavra? Neste caso, o que devo dizer? Qualificar os déspotas ateus do Kremlin de amáveis cavalheiros, apenas um pouco transviados em matéria de Fé? Chamar os agentes mitrados do ateísmo, de veneráveis e simpáticos pastores? — Por certo, isto me seria muito agradável. Primeiramente, porque me dispensaria de ver a triste verdade à que a lógica me conduziu a respeito da viagem do padre Arrupe. Em segundo lugar porque, em vez da contrapropaganda “sapa”, eu colheria como resultado os louvores fartos e lisonjeiros que a “saparia” jamais recusa aos que com ela afinam. Mas esta linguagem não teria a aprovação de minha consciência.

Assim, o único caminho que me resta é falar em alto e bom som. Move-me a isto o amor que tenho à Igreja e à Civilização Cristã. Vendo-as ameaçadas por um adversário mascarado — a seita de Pimen — salto em defesa delas e jogo a máscara no chão.

— Se meu leitor andasse por uma rua escura com um amigo, e se, de repente, um adversário de máscara saltasse sobre meu leitor, o que esperaria este do amigo? — Evidentemente, que o ajudasse a arrancar do agressor a arma e a máscara.

E se o amigo assim agisse, meu leitor o qualificaria de valoroso, de dedicado e destro.

Isto posto, compreenda meu leitor que, na medida limitada de minhas forças, eu procure fazer o mesmo em defesa da Igreja e da Civilização Cristã.

* * *

No clima de conformismo, moleza e adocicamento em que se encontra a opinião pública do Ocidente, são necessárias todas essas considerações para que alguém se sinta à vontade ao raciocinar com lógica e ao chamar as coisas pelos seus nomes. E assim lá se foi a maior parte do artigo.

Aproveito, entretanto, o espaço que me resta, para entrar, ao menos um pouco, no cerne da questão.

Ela não é nova para os leitores. Em meu citado artigo anterior, já tive ocasião de expor as grandes vantagens que a política do Kremlin aufere com a existência da “igreja ortodoxa” fundada e dirigida pelos chefes do ateísmo mundial. Já de si, a consideração destas vantagens tira todo o sério à tal “igreja”. Pois o próprio de uma Igreja é de servir — ou presumir que serve — a Deus. Mas se ela serve escancaradamente ao ateísmo, cujos líderes a dirigem despoticamente, ela não pode ser tomada a sério como Igreja.

Parece-me, entretanto, que o assunto pode ser aprofundado. Um pouco da história das perseguições religiosas na Rússia comunista basta para provar que a “igreja ortodoxa” pré-bolchevista não é um instrumento de propaganda montado pelo Kremlin um tanto displicentemente, ao sabor de circunstâncias fortuitas que vão e que vêm. Desde o início, isto é, de 1917, as perseguições não visaram só o objetivo difícil e quase inverossímil, de extirpar a religião na Rússia. Diante do sucesso altamente improvável desse empreendimento, elas tiveram em mira também um resultado mais modesto, mais provável, e por isto mesmo, mais sólido: aterrorizar, dividir, desorganizar a Igreja greco-cismática, extenuar pela brutalidade e pela confusão o maior número de adeptos dessa Igreja, e por fim obter que eles aceitassem uma hierarquia nova, instituída, nomeada e dirigida pelos sem-Deus. Fazer da religião e de seus ministros, os agentes da irreligião, tal era o estratagema supremamente hábil que o maquiavelismo cremliniano teve em vista.

— Por que etapas passou este processo? — Vê-lo-emos em outro artigo. Aqui só me resta consignar que em 1971 o processo vai atingindo resultados espetaculares.

A prova disto é a visita do sucessor de Santo Inácio. Visita tão prestigiosa para os visitados… E tão sem lustre para o preclaro visitante.

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2071-09-12%20Sobre%20Pimen.htm#.Yi_wOHrMKHs

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