A questão é o tempo. O horário de verão. O Congresso está novamente tentando torná-lo permanente. Se isso virar lei, não haverá mais a mudança de voltar uma hora no outono e avançar uma hora na primavera no calendário. Prolongaremos para sempre o dia com uma hora adicional de luz solar percebida artificialmente à noite e permaneceremos na escuridão durante a manhã.
Horário de verão De uma perspectiva prática, a mudança de horário traz benefícios para determinados setores. Ao prolongar as horas de luz do dia, o horário permite economizar energia — muita energia, para grande satisfação dos ambientalistas. Ele ajuda os negócios ao estender a luz do dia para entretenimento, compras, convívio social e esportes depois do horário de trabalho.
De fato, a prática começou nos Estados Unidos durante as duas Guerras Mundiais para economizar energia preciosa. Depois de ambas as guerras, porém, o governo deixou aos estados e às localidades a escolha de adotar o horário de verão. O resultado foi um mosaico confuso de estados, condados, cidades e municípios com diferentes formas de observar o horário. Em 1966, o governo federal padronizou os períodos em que ele poderia ser adotado durante o verão, aplicando-o em todo o país, embora permitisse que estados como Arizona e Havaí optassem por não adotá-lo.
Oposição à mudança de horário A princípio, pensei ser o único que se sentia incomodado com a ideia de um horário de verão permanente. Mas logo percebi que muitos não gostavam da ideia. As pessoas mais práticas se opõem à medida por uma variedade de razões.
Certamente discordam dos defensores que afirmam que o tempo é uma designação artificial e, portanto, que faz pouca diferença a maneira como o observamos. Muitos especialistas afirmam que adiantar o horário interrompe os ritmos naturais determinados pelo sol. Levantar-se mais cedo, ainda no escuro, desregula o relógio biológico do corpo e afeta seu funcionamento. Assim, algumas pessoas apresentam problemas digestivos ou de ansiedade por causa da mudança.
Além disso, as localidades do norte, com menos exposição ao sol, obtêm menos benefícios que outros estados. Certas tarefas agrícolas se adaptam melhor aos horários do tempo padrão. Uma forte razão contra a medida é que ela obriga crianças em idade escolar a esperar pelo ônibus no escuro, o que pode ser perigoso.
Uma perspectiva mais metafísica Essas razões são lógicas e influenciam o debate, mas não explicam meu incômodo.
Algo mais metafísico me leva a me opor à mudança permanente. Creio que a natureza da criação exige certo respeito pelos ritmos naturais das coisas. O tempo não é relativo. Deve haver marcos naturais que designem precisamente a extensão máxima da luz e da escuridão, chamados, respectivamente, meio-dia e meia-noite. A própria natureza observa que há momentos que favorecem uma atividade intensa e outros de repouso tranquilo. Cada hora e cada período têm seu significado e seu estado de espírito.
Esses períodos delimitam o dia e proporcionam um elemento de ordem que nos permite regular nossa vida. A Igreja rezava as horas litúrgicas fixas para honrar a Deus ao longo do dia. As pessoas podiam organizar seus dias em torno do chá das cinco ou de devoções matinais. Quando vivemos em sintonia com uma ordem que respeita a natureza, nossa vida adquire calma, reflexão e propósito. Construímos narrativas celebradas pela passagem das horas e pelo lento curso dos dias e das noites.
Horários definidos tornam-se repletos de simbolismo e significado. As metáforas do tempo são expressões poderosas e poéticas que refletem uma realidade ordenada de modo superior.
Quando mexemos com o tempo, perdemos o contato com essa realidade superior. Tornar o tempo permanentemente relativo, mesmo que por uma única hora, transmite a mensagem de que somos nós que determinamos o que é o tempo. Lembro-me dos revolucionários franceses que tentaram mudar o calendário para refletir suas filosofias antinaturais. Fracassaram miseravelmente.
A tendência moderna é enxergar o tempo dentro do contexto de nossas agendas apressadas e sem marcos. Então, o tempo se torna um borrão no qual experimentamos a dupla sensação de não ter tempo para fazer nada e de não fazer nada com nosso tempo. Quando não existem períodos definidos para refletir sobre as experiências, a vida pode se tornar uma mistura confusa de impressões, emoções e sensações.
A noção do tempo de Deus Entretanto, a razão mais convincente para meu incômodo é que isso reflete uma preocupação com uma ordem superior que vai além de suas vantagens econômicas grosseiras.
Ao crescer, sempre nos referíamos ao horário solar padrão como o tempo de Deus. Era assim que Ele o havia feito. Durante a primavera, tomávamos emprestada uma hora de Deus para que alguns pudessem se beneficiar dela. No entanto, sempre a devolvíamos a Ele no outono, antes do Dia de Ação de Graças. Pelo menos os rituais de acertar os relógios nos lembravam de que Deus é o dono do tempo.
De fato, um dos primeiros atos de Deus na Criação foi estabelecer os parâmetros do tempo. Gênesis (1:3-5) o descreve desta maneira: “E Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas. E chamou à luz Dia, e às trevas Noite; e houve tarde e manhã, um dia.”
Precisamos respeitar esse tempo e seu Autor. E creio que é por essa razão que o horário de verão sempre encontrou oposição ao longo de sua história na América. Conversando com as pessoas, fiquei surpreso com quantas compartilhavam desses sentimentos.
Assim, quando o Congresso vota para tornar permanente o horário de verão, colocamo-nos no centro das coisas. Não gosto da ideia de que o meio-dia nunca mais será realmente o meio-dia em seu ponto culminante. Ele será aquilo que dissermos que é. A oração do Angelus das seis horas nunca mais será rezada no momento correto, mas no momento que determinarmos. Nestes tempos de extrema desordem, precisamos de padrões de estabilidade, não de relatividade.
Sei que isso pode parecer uma questão menor, mas às vezes as pequenas coisas podem assumir grande importância. Essas questões me deixam inquieto. É melhor não brincar com o tempo de Deus.
Fonte: The American TFP — https://www.tfp.org/three-reasons-not-to-fool-with-gods-time




