Comemoramos hoje a Instituição da Sagrada Eucaristia. Oferecemos essa meditação de Santo Inácio, verdadeiramente santa e genial. Os comentários são do Prof. Plinio em reunião de formação em São Paulo.
Santo Inácio nos convida a meditar,.”ele quer fazer uma consideração sobre o Santíssimo Sacramento enquanto dom, como presente.”
“Considera que três coisas podem concorrer para fazer a um dom grandemente estimável: A grandeza do mesmo dom, o afeto de quem o dá, a utilidade de quem o recebe, as quais três coisas todas se acham maravilhosamente na divina Eucaristia.”Comenta Dr. Plinio: “Então ele monta na preliminar do assunto uma teoria do presente, quer dizer, do que é que vale um presente. Mas válida então para todos os presentes, em todas as épocas do mundo e sobre toda face da Terra. E ele então dá os três pontos.”
“É curioso que a ordem hierárquica de valores é muito diferente da do homem de hoje. Diz o seguinte: O que torna um dom muito estimável, quer dizer, muito apreciado, é, primeiro a grandeza do mesmo dom; segundo, o afeto de quem o dá; terceiro, a utilidade de quem o recebe.”
A hierarquia do presente aplicada à Eucaristia
Primeira coisa que se considera no dom, é o valor do dom. Hoje não, hoje as pessoas pensam na utilidade própria.
A segunda coisa é de quem deu; a terceira é a utilidade de quem recebe. Esta é a verdadeira hierarquia. Se o sujeito me deu um brilhante, a primeira coisa que eu devo perguntar qual o valor do brilhante, é o valor do dom. Segundo, é quem é que me deu.
Bem, terceiro, o que é que eu vou fazer do brilhante? É a utilidade. Está tudo bem pensado, tudo razoável, magnífico.
Diz Santo Inácio:
"Considera em primeiro lugar a grandeza do dom. Grandes coisas tinha o Senhor já dado aos homens. Tinha nos dado a nós mesmos e juntamente nos tinha dado inumeráveis criaturas para o benefício de nossa criação e conservação. Mas essas coisas ainda que muito estimáveis, eram limitadas. Deu, pois, o Senhor aos homens, na Encarnação, um dom infinito, porém esse dom foi imediatamente dado à humanidade de Jesus Cristo, e a nós por ele, só medianamente. E por isso podia ainda o Senhor dar-se a si mesmo a cada um dos fieis em particular, estendendo dessa forma o benefício da mesma Encarnação."Ajudando o leitor a compreender Santo Inácio
Vejamos o método de Santo Inácio: “Deus para o homem deu uma porção de coisas. Deus deu-nos o ser. O primeiro dom que Deus nos deu foi de nos criar, porque não adiantava dar todo o resto se nós não existíssemos. Portanto, primeiro dom que ele nos deu foi o de nos criar.”
“Além disso ele criou todo o Céu e a Terra para todos os homens. O Céu, por exemplo, não adianta dizer que é para todo mundo, porque se todo mundo não existisse, ele brilharia igualmente para mim, de maneira que eu devo agradecer como se ele fosse só para mim. Deu o Céu, deu a Terra, deu todas as coisas que existem, deu saúde, deu inteligência, deu isso, deu aquilo, deu uma porção de coisas para cada homem.”
"Ele deu a Encarnação do Verbo. Ele se fez carne para nos salvar, é um dom enorme. Nosso Senhor Jesus Cristo ter condescendido, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade ter condescendido em ficar homem para nos salvar é um dom enorme."“Ora, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Deus verdadeiro, e entretanto se abaixou, condescendeu a ser homem. Quer dizer, a menor das criaturas racionais que há, já misturada com a matéria como é o homem. Não é um anjo, é misturado com a matéria. Ele condescendeu em fazer-se homem.”
“De tal maneira é grande o dom que Ele deu ao homem fazendo-se Ele mesmo homem, que São Luís, Rei de França, introduziu na Igreja o costume de quando se canta o Credo, as pessoas se inclinarem quando diz et Homo factus est, porque é tão extraordinário o dom que nós homens temos de que Deus se tenha feito Homem como nós, que todos devem se inclinar para agradecer a Deus esse dom.”
Passa 30 anos convivendo com Nossa Senhora
Continua Dr. Plinio: “Mas ainda mais, fazendo-se homem, Ele passou trinta anos na vida privada com Nossa Senhora, para glorificar a Deus e para rezar pelos homens. Ele passou orando durante esse tempo inteiro pela missão que ele depois haveria de exercer. Durante três anos fez maravilhas tais que São João diz que se fosse narrar os fatos dele dava para encher a Terra com os feitos que Ele fez em três anos. Os Evangelhos nos contam apenas uma parte desses feitos. São feitos tão maravilhosos que a gente nem sabe o que dizer.”
Está bem. Depois de ter dado todos aqueles ensinamentos, depois de ter dado todo o exemplo que Ele deu, toda a paciência, todo o carinho, todo o perdão, Ele ainda fez uma coisa a mais, Ele instituiu a Sagrada Eucaristia.
A Eucaristia, Coroa de Todos os Bens
Quer dizer, como coroa de todos os dons anteriores, Ele deu a Sagrada Eucaristia.
Santo Inácio continua:
“Isto pois é o que Ele fez na Eucaristia comunicando-se, quanto tem de riquezas e de bens: o seu corpo, o seu sangue, os seus merecimentos, as suas virtudes, a sua alma, a sua divindade, com uma invenção tão admirável que por toda a eternidade não viria jamais ao pensamento dos serafins. Não se pode, pois, pedir outra coisa melhor, maior a nosso Salvador nesta vida, e se lhe pedíssemos poderia Ele responder que ainda que é senhor de todos os bens agora não tem mais o que nos dar, dando-nos tudo o Pão dos escolhidos no vinho das virgens.“
O pensamento dele é um pensamento admirável. Ele diz o seguinte:
"Nosso Senhor na Eucaristia se dá a nós, mas se dá a nós de um modo como ninguém poderia inventar. É um modo tão admirável que os mais altos dos anjos que são os serafins, se pensassem sobre o assunto por toda a eternidade não podiam excogitar essa idéia de Deus se dar ao homem sob a espécie de pão e espécie de vinho. De maneira tal que Ele penetra no homem e é assimilado por assim dizer pelo homem. Não se poderia imaginar uma união tão íntima."Não há na Terra, por exemplo, nas relações de pessoa a pessoa nenhuma forma de união tão íntima como existe entre Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia e nós. Então ele mostra quais são esses dons.
Santo Inácio acrescenta.
“Em comparação pois com uma liberalidade tão excessiva de teu Deus para com tua alma, quão enorme será tua avareza para com Ele se não lhe ofereceres pelo mesmos aquela liberdade que te resta? Tens até agora feito resistência aos outros dons, mas poderás resistir a um Deus que te dá a ti mesmo?“
Essa pergunta é uma pergunta admirável, acrescenta Dr. Plinio:
“Você está recebendo esse dom, o que é que você vai fazer? Você tem resistido a outras graças, você resistirá a essa graça? Deus se dá a ti e tu não te dás a Ele? Que propósito tem não te ofereceres a ele, inteiro, nessa comunhão? Então ele dá tanto mais e pede tão pouco! O que sou eu para Deus Nosso Senhor? Nada. Ele não precisava de mim, eu não me ofereço a Ele? O corolário normal de uma comunhão é portanto um oferecimento e um oferecimento assim: “Senhor, eu não sou digno de vos receber, mas já que entrais na minha alma, dai-me a graça de desejar dar-me a Vós. E dai-me a graça de que um dia, o mais breve possível, eu me dê a Vós inteiramente. Quer dizer, eu abandone o pecado, eu deixe de Vos ofender, eu pratique inteiramente a virtude, eu seja um perfeito soldado de Vossa causa, por meio de Maria eu Vo-lo suplico.””
Convite à reflexão
Os senhores vejam como é bom a gente levar um pensamento para ter durante o dia. A gente se lembrar, por exemplo, “hoje Nosso Senhor se deu a mim, vou pedir a Ele que eu me entregue inteiramente a Ele em tal ponto, faça portanto tal sacrifício, entregue tal coisa que me custa, tal oportunidade difícil eu faça por Ele. Ou então o contrário: Eu hoje sei que vou ter uma aflição muito grande, tenho uma coisa muito difícil diante de mim, mas se Deus se deu a mim hoje e vai dar a mim amanhã, será que eu não vou confiar nele?
Essas são as atitudes de alma normais de quem tem uma vida vivida em função da comunhão que fez hoje e da comunhão que fará amanhã. Assim é que nós preparamos em nós uma alma verdadeiramente eucarística.
Continua Santo Inácio:
"Que dirão os anjos do céu que conhecem muito bem de um a outro extremo a liberalidade de Cristo e a excessiva estreiteza de teu coração?"É uma coisa que nos deixa confundidos. Os senhores sabem que os anjos mais altos do Céu, nem eles, tem com Nosso Senhor a forma de união que nós temos recebendo a Eucaristia? Um anjo não pode comungar, ele não tem corpo. Ele tem até a visão beatífica, ele vê Deus face a face, ele está inundado por todas as graças do céu, a Sagrada Eucaristia ele não tem.
Continua Santo Inácio:
"Confunde-te de tua ingratidão, lembra-te que a medida dos benefícios, se abusares deles, serão os castigos, propõe-te dar tudo a quem te dá tudo sem reserva. Dá graças ao Senhor de uma magnificência tão excessiva para contigo e roga-lhe que a tão excessivos benefícios, acrescente este de te dar um novo espírito e um novo coração para o estimares e lhe corresponderes como deves."O pensamento ainda aqui é muito profundo, ele, diz o seguinte: “Confunde-te de tua ingratidão”, quer dizer, nós devemos pensar nas nossas comunhões e ficarmos confundidos diante da ingratidão. O que é que é o confundido? É não saber o que dizer, é não ter palavras para o que dizer. Mas notem bem o que é o confundido na doutrina católica: é um confundido cheio de confiança, como quem se ajoelha aos pés de Nosso Senhor e diz: “Meu Senhor, eu não tenho o que Vos dizer, eu vejo que andei mal, mas eu confio em Vós porque Vós sois a solução de tudo, Vós sois o caminho, a Verdade e a Vida, eu me prostro aqui aos Vossos pés com os meus pecados, como Santa Maria Madalena.
Santo Inácio continua:
“Nós devemos pedir a Deus que Ele mude o nosso espírito.“
E disse na Ceia, está aqui na nota:
“Desiderium magno desideravi – com grande desejo eu desejei comer esta ceia convosco”, e ainda que para vir ao mundo e encarnar-se se fez desejar e esperar por tantos séculos, agora para vir ao teu coração Ele mesmo te solicita a ti com um desejo digno somente de Seu coração divino.“
Então os senhores compreendem porque na Quinta-feira Santa porque a Igreja faz uma festa da instituição da Eucaristia, tudo flores, paramentos claros etc., etc. por que? Porque é a festa da suma indulgência d’Ele dando-se para todos os homens, em todos os tempos, e para aqueles homens tíbios naquela ocasião.
Assim Deus infinito olha a nossa alma, tão pequena para Ele, mas nós somos de algum modo miniaturas d’Ele e Ele olhando a nós, feitos à semelhança d’Ele, se encanta em ver algo por onde nós, correspondendo à graça, podemos parecer com Ele e é com esse amor que Ele nos espera. Quer dizer, é para essa intimidade que Ele nos convida. Nunca os senhores serão íntimos de ninguém como podem ser íntimos de Nosso Senhor na Sagrada Eucaristia.Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento nos ajude a perceber e amar toda a grandeza que Nosso Senhor colocou na Sagrada Eucaristia pensando em nós, na nossa santificação. Amém.
Fonte: Santo do Dia 15 de setembro de 1973, auditório São Miguel, São Paulo




