Pais e escola unidos contra as crianças

escolaO estilo atual de viver, bafejado pelas ideias de gozo da vida, igualitarismo geral, liberdade para tudo e para todos vai produzindo seus efeitos em cascata na sociedade. Vão ficando para trás os saudosos tempos das famílias unidas, do convívio ameno, da ordem social estabelecida.
O homem moderno é fortemente atormentado pelos fantasmas da frustração, da ansiedade, da insegurança, e por aquilo que os ingleses chamam de “nonsense”, que numa tradução livre corresponderia a falta de sentido da vida.

Tal situação calamitosa lança metástases em todas as categorias de pessoas, estando entre as mais atingidas as crianças e os jovens em idade escolar.

O slogan “menos crianças, mais felicidade”, ou seu equivalente “mais anticoncepcionais, mais satisfação” vai se mostrando altamente pernicioso. A promessa de que tendo menos filhos estes poderiam ser tratados com mais carinho e atenção, não passa de propaganda enganosa. Acontece exatamente o contrário. Aparece então a figura do filho-trambolho, que atrapalha a liberdade dos pais, a do filho-descartável que se quer pôr na escola o quanto antes e pelo maior tempo possível.

E a escola de hoje, seguidora subserviente das mesmas idéias, o que faz com as crianças? Também procura incutir-lhes as quimeras de liberdade total, ou seja, do vício total. Em grande número de casos a escola deixou de ser formadora e passou a ser deformadora.

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Sob o título “Maconha na escola”, o psiquiatra Jairo Bouer apresenta dados dignos de serem meditados (“O Estado de S. Paulo”, 13-10-13).

Pesquisa realizada em 2013, entre estudantes do 8º ano do fundamental até o 3º do ensino médio, de 67 escolas, em 16 Estados do Brasil, revela que a maconha havia sido experimentada por quase 10% dos alunos. O uso aumenta com a idade. Aos 17 anos, 16% já haviam tomado a droga. A metade dos que a experimentaram teve o primeiro contato entre os 14 e 15 anos. Entre os que já tinham consumido maconha, 18% a usaram todos os dias ou quase todos os dias no mês anterior à pesquisa. Ou seja, estão viciados ou a caminho do vício.

O levantamento foi feito em escola particulares. Imagine-se as públicas!

Prossegue o psiquiatra, “os números mais surpreendentes da pesquisa atual são os obtidos quando se cruzam os dados sobre emoções e rendimentos na escola com os de uso da maconha”.

Dos alunos que usam maconha, 31%, ou seja, quase um em cada três, já haviam sido reprovados na escola (entre os que não usam, só 13%). Dos que usam maconha, 63% disseram ter dificuldade em manter concentração na sala de aula (entre os que não usam, 48%). Dos que usam maconha, 51% disseram ter dificuldade para entender as aulas (entre os que não usam, 35%).

Essa relação entre o consumo da droga e o mau resultado nos estudos, como também “o uso da droga e dificuldades emocionais”, “merecem uma avaliação mais cuidadosa, principalmente no momento em que países vizinhos e políticos do mundo todo discutem uma maior flexibilização nos controles de venda e consumo de maconha”, diz o Dr. Bouer.

Para o médico Joaquim Melo, presidente da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, se os jovens experimentam maconha cada vez mais cedo, “parte relevante desse grupo deve evoluir para um quadro de dependência química, com a adição de outras drogas, inclusive o crack” (“O Globo”, 24-8-13).

Quando as crianças sentem que são um peso em casa, quando não têm irmãos nem irmãs para brincar, quando percebem que são “atiradas” nas escolas para que os pais se vejam livres, não fica difícil compreender que elas busquem refúgio nas drogas. E as escolas de hoje parecem feitas sob medida para incentivar esses desvios de conduta.