PRECIOSAS TRADIÇÕES NATALINAS

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São Nicolau dá o dote às três jovens pobres – Fra Angélico (1395 –1455). Pinacoteca Vaticana.

Desde a primeira noite de Natal, o Nascimento de Jesus abre clareiras de luz e alegria, mesmo nas trevas e nas tristezas. Enquanto em Belém raiava a salvação, o imperador Augusto amargava o fracasso de sua política. Em palácio, noite adentro, as orgias prosseguiam e os falsos teólogos jogavam as sortes em práticas ocultistas. Não sabiam que num estábulo da Judéia, naquele mesmo momento, a sociedade do futuro se decidia. Ali as mãos virginais de Maria davam ao mundo o Messias, que o redimiria com seu Sangue, o reorganizaria com o Evangelho e o inundaria de gáudios com sua Graça.

Um presente impregnado de caridade

Um exemplo, bem nos primórdios do Cristianismo, foi o de São Nicolau (270–343) de Bari, Itália, bispo de Myra (hoje na Turquia), cuja festa é celebrada em 6 de dezembro. Um nobre arruinado de sua diocese, pai de três moças solteiras, não podia pagar o dote para casá-las. Numa noite o santo bispo viu as meias das moças secando na lareira, e colocou uma sacolinha em cada uma delas, com moedas equivalentes ao dote. Ninguém poderia imaginar, na época, que o exemplo transmitido com essa caridade impregnaria os costumes do mundo durante milênios.

A imaginação e a fé atribuíram a São Nicolau uma realidade que não se limita a ter ele subido ao Céu. Do norte da Europa e da América, uma torrente de cartas infantis saúda São Nicolau e lhe implora presentes. Na Alemanha, os Correios encaminham todo ano aproximadamente 500 mil cartas para a agência de Engelskirchen (Igreja do Anjo), na Renânia do Norte-Vestfália. Outra agência, na Finlândia, recebe mais de 500 mil com saudações e pedidos. A mente infantil está certa de que ele vive nesta Terra, lê essas cartas e faz suas listas, aguardando o período natalino para distribuir os presentes. Mas onde ele se encontra? Por que só aparece nesse período?

A tradição forjou a imagem de um piedoso ermitão num local inacessível — lá longe, no gélido Ártico! Revestido de suas insígnias episcopais, agasalhado com peles, nesse eremitério ele lê todas as cartas junto à lareira de uma cabana, num bosque coberto pelas neves. Lá ele prepara seu trenó e alimenta as renas, que o conduzirão por vários países.

De onde saíram esse trenó e essas renas, que nunca houve em Myra nem em Bari? Foram criadas por Clement Clarke Moore, num poema escrito em 1823 — “Uma visita de São Nicolau”. Para a inocente alma infantil, tudo ficou explicado: São Nicolau era conduzido em seu trenó, puxado por quatro casais de renas, cada uma nomeada pelas suas qualidades. A nona, à frente de todas, é a mais famosa: Rodolfo Nariz Vermelho, dotada de faro especial, cujo nariz fica vermelho e brilhante quando se aproxima da casa de alguma criança que mereceu presentes.

São Nicolau na escola de Linéville, na Alsácia (França)

Ao invés de um santo, uma contrafação comercial

O Papai Noel não passa de uma contrafação comercial. O primeiro Papai Noel que se fez ver no Brasil foi numa ceia de Natal em São Luís do Maranhão, por volta de 1890. Entrou pela janela com o saco de presentes, mas os homens puxaram trabucos e revólveres. Só não o mataram porque Da. Maria Bárbara de Andrade, filha do poeta Joaquim de Sousa Andrade, se interpôs e gritou: “Não o matem! É o Papai Noel! Eu o contratei!”. Mas deixemos de lado essa contrafação grotesca, e vejamos como São Nicolau é recebido em alguns países.

Na Alsácia, fronteira da França com a Alemanha, São Nicolau é um personagem oficial. As escolas do Estado preparam os alunos, ensinando-lhes canções com as quais pedem sua vinda. Quando ele chega com seu cortejo, convida cada criança a prestar contas, a fim de lhe dar o presente. Atrás dele vem um personagem sinistro: é o Padre Látego — encapuzado, de barba e cabelos desgrenhados, rosto escuro e olhar sombrio. Ele faz ressoar no ar um chicote, ameaçando as crianças desobedientes, e promete que levará num grande saco os meninos que não fazem suas orações. As crianças vaiam esse personagem e lhe jogam bolinhas de papel. Jules Hoches o pintou como “um enviado do Diabo, que ameaça levar crianças por não cumprirem as promessas”. Em Wissembourg, monta um cavalo negro e peludo, escoltado por ginetes apocalípticos, que com o fragor de tambores aterrorizam a população.

Lutero, pai do protestantismo, detestava os santos e não queria a festa de São Nicolau. Acabou sendo ele o Padre Látego dos maus cristãos! A Contra-reforma católica aprovou a figura para inculcar nas crianças o senso do prêmio e do castigo.

A árvore maravilhosa

Sélestat, cidade da Alsácia, reivindica a paternidade da Árvore de Nata

Conforme os costumes de cada região, os presentes podem chegar na festa de São Nicolau, no Natal, ou ainda na Epifania, trazidos pelos Reis Magos. O costume mais antigo é deixar meias penduradas na lareira, em lembrança das três moças do início da trajetória milenar de São Nicolau. Na Holanda as crianças enchem as meias de feno, para alimentar as pobres renas, com a esperança de que quanto maior a meia e o feno, maior será o presente. Mas podem receber só um carvão, se não se comportaram bem durante o ano. Em alguns países os presentes chegam em mais de uma festa.

São Nicolau e o “Père Fouettard”, em Mulhouse, Alsácia.

Sélestat [foto], cidade da Alsácia, reivindica ao lado de algumas outras a paternidade da Árvore de Natal, e exibe o mais antigo documento que há sobre ela. Os pinheiros ornados e com presentes ficam pendendo do teto no interior das igrejas. Após a Missa de Epifania, as crianças com varas vão derrubar os presentes. A inspiração para a árvore natalina talvez seja São Bonifácio, que derrubou um imponente carvalho idolatrado como deus pelos bárbaros; e depois plantou um pinheirinho — cujo perfil triangular servia para explicar o mistério de Deus Uno e Trino — e o ornou com frutas e sementes, símbolo das graças que distribuía. A maçã vermelha brilhante era ideal para isso, mas num infeliz ano a geada queimou a colheita; e na Alsácia e Turíngia os mestres vidreiros substituíram as frutas e nozes com bolinhas cristalinas. Posteriormente a rainha Vitória da Inglaterra (1819–1901) mandou adotar essas bolinhas de cristal para ornar seus castelos no Natal. O mundo todo seguiu o exemplo.

Tradição de Santa Luzia na Suécia

Santa Luzia, a santa da Luz

Nos países nórdicos, a mártir romana Santa Luzia (283–304) é especialmente comemorada no dia 13 de dezembro. Ela é uma das oito santas invocadas no Cânon da Missa católica tradicional. Foi uma nobre de Siracusa, de riquíssima família e excepcional beleza, que consagrou sua virgindade a Deus. Saía às noites com uma lâmpada de vela, distribuindo doações e alimentos aos pobres. A fim de fazê-la apostatar, os torturadores arrancaram-lhe os olhos, mas Deus lhe deu outros ainda mais belos. Por isso é a padroeira dos oftalmologistas e das pessoas com dificuldade de visão.

Na Escandinávia, os dias do Advento são curtos e escuros. Moças vestidas de branco, com uma coroa de velas, levam bolos para os pobres e carvão para os que passam frio. Na Noruega, Suécia e Finlândia, meninas assim coroadas fazem procissões — até mesmo em recintos protestantes — lembrando a Luz de Cristo que ilumina as trevas. Os rapazes usam vestes alusivas a Santo Estevão protomártir. O costume foi introduzido por missionários medievais, e paradoxalmente renasceu no século XIX, mesmo em cidades luteranas.

As procissões públicas começaram em 1927, quando um jornal de Estocolmo escolheu a ‘Luzia do ano’, e o exemplo se espalhou para outras cidades, escolas, jornais e TVs. Segundo o Guinness Book, a procissão de Santa Luzia na capital sueca é a maior do mundo, com 1200 membros de escolas de música. Em certas universidades há um jantar especial em seu dia. A Finlândia imitou a Suécia, e a ‘Santa Luzia do ano’ é coroada na catedral de Helsinki, paradoxalmente protestante.

A Dinamarca imitou a Suécia em 1944, pelo desejo oficial “de trazer luz numa época de escuridão”. A festa é comemorada nas escolas. Na noite anterior se acendem velas, apagam-se as luzes elétricas, e se canta o famoso vilancico napolitano à santa. Na Noruega, comemora-se Luzia como aquela que espanta os espíritos, gnomos e fantasmas que vagueiam pela Terra nos dias mais negros do ano, e pune aqueles que trabalham no dia de Natal. A procissão ingressa numa sessão do Parlamento, entoando uma canção tradicional napolitana e vilancicos locais.

No Norte da Itália, Santa Luzia leva presentes às crianças nos dias 12 e 13 de dezembro, quando são feitas umas bolachinhas doces em formato de olhos, que lembram o martírio da santa. As crianças lhe deixam um pouco de café, palha para seu burrico e um copo de vinho de Castaldo. Na Hungria e na Croácia, no dia de Santa Luzia planta-se uma semente de trigo num vaso. Ela brota no Natal, como símbolo do triunfo da vida sobre a morte e do nascimento de Jesus e da Eucaristia. Nas Filipinas celebra-se uma novena de missas antes de sua festa. No Caribe, Santa Luzia é a padroeira de uma pequena ilha, que leva seu nome e festeja sua data como Dia Nacional.

Em 2019, a rainha cedeu sua função de fazer o ‘pudding’ aos príncipes herdeiros. O encarregado de fazer a mistura dos 25 ingredientes foi o pequeno príncipe George, que trabalhou entusiasmado, acolitado pelos príncipes Charles e William.
Abaixo à direita o ‘pudding’ pronto.

O ‘pudding’ real inglês

‘pudding’ inglês não pode faltar no Palácio real de Buckingham. Cada família faz seu ‘pudding’ com receita exclusiva, inclusive a família real. Em 2019, a rainha cedeu sua função aos príncipes herdeiros. O encarregado de fazer a mistura dos 25 ingredientes foi o pequeno príncipe George, que trabalhou entusiasmado, acolitado pelos príncipes Charles e William. A receita secreta produziu 99 pequenos ‘puddings’, presenteados pela rainha para o Natal dos postos militares mais afastados. Elizabeth II presenteou também 1.500 ‘puddings’, feitos numa boa confeitaria, a seus 500 auxiliares nos castelos. Eles receberam junto um cartão assinado pela rainha, além de um cumprimento pessoal.

‘pudding’ não é de origem inglesa, mas foi levado ao país pelos soldados romanos. Em suas longas expedições, eles acondicionavam em seu alforje um aglomerado de frutos secos, nozes, amêndoas etc. (como fazem os tropeiros brasileiros com seu cuscuz), com leite e álcool, e com esse ‘bolo’ se alimentavam. Assim provavelmente se fazia nos tempos de Jesus em Belém.

Uma decadência, como tantas outras

Vinte séculos depois da divina Natividade, o mesmo mundo comemora de vários modos o Natal, mas o que se nota é uma contínua decadência de esplendor e religiosidade. A Terra afunda nas trevas, num caos que nem nos tempos de Augusto foi tão abrangente.

Mas, como os pastores que adoraram o Menino Deus no presépio, hoje os homens de boa vontade podem procurar a salvação pelas mãos puríssimas da Santa Mãe de Deus. Só por meio d’Ela será restaurado o reinado social de Jesus Cristo, quando as celebrações de Natal serão incomparavelmente mais belas.

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