Francisco homologa Leonardo Boff e joga Fritz Löbinger no Tibre

A Exortação Apostólica “Querida Amazonia”, que acaba de ser publicada, confirma que no pontificado do Papa Francisco a política tem prioridade sobre a religião. Ele manteve o pé no acelerador da “ecologia integral”, mas deu uma freada brusca na agenda religiosa do Sínodo.

Os cardeais Burke, Müller e Sarah (e seu coautor Bento XVI), assim como os poucos prelados que defenderam com ardor o celibato sacerdotal, têm motivos para estar satisfeitos. E podem agora olhar com sobranceria os promotores do sacerdócio low cost, principalmente os bispos Fritz Löbinger, Erwin Kräutler e seus parceiros do “caminho sinodal” alemão. Schluss!: nenhuma abertura aos viri probati, nem às “diaconisas”.

O Papa Francisco reconhece que é preciso fazer esforços para que as comunidades mais isoladas da Amazônia não sejam privadas do alimento da Eucaristia e dos sacramentos da Reconciliação e da Unção dos Enfermos (n° 86 e 89). Também admite que a vida e o ministério sacerdotais não são monolíticos (n° 87). Afirma, porém, que a solução repousa no sacramento da Ordem Sagrada, o qual configura o sacerdote a Cristo (n° 87), que é Esposo da comunidade que se reúne em torno da Eucaristia e é representado por um varão, o celebrante (n° 101). Com isso, ele assume os dois principais argumentos daqueles que se opõem ao sacerdócio uxorado.

E, como solução, propõe orações pelas vocações sacerdotais e o direcionamento das vocações missionárias para a Amazônia (n° 90). Queixando-se de passagem pelo absurdo de um número maior de sacerdotes dos países amazônicos se dirigirem aos Estados Unidos e à Europa em vez de irem para as missões nos próprios países! (nota 132).

Como havia sido anunciado nos últimos dias, não há uma só menção indireta à eventualidade de ordenar homens casados líderes da comunidade. Pelo contrário, Francisco insiste no fato de que não se trata simplesmente de facilitar uma maior presença de ministros ordenados que possam celebrar a santa missa, mas de promover o encontro com a Palavra de Deus e o crescimento na santidade através de vários tipos de serviços pastorais passíveis de serem desenvolvidos por leigos (n° 93), como pleiteou judiciosamente Dom Athanasius Schneider com base na sua própria experiência de privação de sacerdotes na Rússia soviética.

Pelo mesmo motivo da configuração do sacerdote em Cristo, Esposo da comunidade, e do amplo e generoso trabalho missionário já realizado por mulheres — nas áreas de batismo, catequese, oração — (n°99), o Papa Francisco fecha a discussão sobre a ordenação de mulheres, asseverando que seria uma forma de reducionismo “clericarizar” as mulheres e achar que elas unicamente obteriam um status superior na Igreja se fossem admitidas à Ordem sacra (n° 100). Pelo contrário, as mulheres dão sua contribuição à Igreja da forma que lhes é própria, prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe (n° 101).

Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica, reunido no Vaticano de 6 a 27 de outubro de 2019

Outro que pode estar satisfeito, pelo menos em parte, é o Cardeal Walter Brandmüller. Ele denunciou o Instrumentum laboris do Sínodo amazônico afirmando que era um convite à apostasia, na medida em que entendia a “inculturação” como uma renúncia a pregar o Evangelho e a aceitar as religiões pagãs como uma via alternativa de salvação. Seu clamor chegou até Santa Marta.

“Querida Amazonia” dissocia-se do conceito de “inculturação” promovido pela Teologia Índia — que tem como principais corifeus os sacerdotes Paulo Suess e Eleazar López — e assume a versão light da constituição conciliar Gaudium et Spes. Esta faz a inculturação consistir em mera adaptação do Evangelho à compreensão de todos, exprimindo a mensagem de Cristo em termos apropriados a cada cultura (nota 84).

Trata-se, portanto, de uma inculturação que, embora não rejeite nada de bom que exista na cultura amazônica, faz dela um sujeito de redenção (n° 67), levando-a sob a luz do Evangelho à sua plenitude (n° 66) e querendo-a enriquecida pelo Espírito Santo mediante a força transformadora do Evangelho (n° 68).

Isso obriga a Igreja a adotar em relação às culturas uma atitude de atenção e confiança, mas também de prudente sentido crítico (n° 67). Mas exige, acima de tudo, não envergonhar-se de Jesus Cristo (n° 62), nem limitar-se a dar aos pobres uma mensagem puramente social em lugar do grande anúncio salvífico (n° 63), posto que esses povos têm o direito de ouvir o Evangelho. Sem essa evangelização, a Igreja se transformaria numa vulgar ONG que teria abandonado o mandamento de pregar a todas as nações (n° 64). Santo Toríbio de Mongrovejo e São José de Anchieta — e não os missionários da Consolata e outros que se gabam de não ter batizado ninguém em 60 anos — são apresentados como modelos de grandes evangelizadores da América Latina (n° 65).

Contrastando com o anterior, e numa tentativa indisfarçada e malograda de se justificar pelos escandalosos cultos idolátricos à Pachamama nos jardins do Vaticano e na basílica de São Pedro, o Papa Francisco declara que é possível, no contexto de uma espiritualidade inculturada, receber de alguma forma um símbolo indígena, um mito denso de sentido espiritual ou festas religiosas que contém um valor sagrado sem incorrer necessariamente em idolatria (n° 79).

Além dessa infrutífera defesa do culto à Pachamama, o Cardeal Brandmüller tem outro motivo para ficar desgostoso. O Papa Francisco — citando abundantemente sua encíclica Laudato Si’ — reitera sua cosmovisão “teilhardiana” e New Age de um universo onde “tudo está interligado” (n° 41) e elogia o misticismo indígena, que leva os aborígenes não somente a contemplar a natureza, mas a se sentirem intimamente unidos a ela, a ponto de considerá-la uma mãe (n° 55). Aliás, a Mãe Terra é citada duas vezes na exortação (n° 42).

Uma referência en passant a Deus Padre como criador de todos os seres do universo é insuficiente para dissipar o sabor “panteísta” de tais passagens, as quais são precedidas pela citação de um verso sobre a “comunhão com a floresta” (n° 56), escrito pela poetiza peruana Sui Yun (conhecida pelo caráter desinibido e erótico de suas criações; “minha poesia é genital”, afirma ela).

Porém, de longe o aspecto mais deficiente do documento é sua plena adesão aos postulados e à pauta programática da Teologia da Libertação, na sua versão ecológica reciclada por Leonardo Boff e assumida pelos documentos sinodais.

Em uma patente manifestação de “clericalismo” — posto não possuir o magistério nenhuma autoridade em matéria científica ou econômica — e, sobretudo, contrariando o desejo de progresso da imensa maioria dos habitantes da Amazônia, a exortação pós-sinodal assume, sem o necessário discernimento, o diagnóstico catastrofista e mentiroso das ONGs ambientalistas e dos partidos de esquerda sobre a suposta devastação da Amazônia: a floresta estaria sendo devastada (n° 13); a construção de hidroelétricas e vias marítimas estaria danificando os rios (n° 11); a região estaria confrontada com um desastre ecológico (n° 8); as populações estariam sendo dizimadas devagar pelos novos colonizadores (nota 13) ou obrigadas a migrar para as cidades, onde encontrariam as piores formas de escravidão (n° 10).

Segundo o Papa, é preciso indignar-se (n° 15) e deixar-se tomar por uma sã indignação (n° 17). Nesse contexto, não é inócuo que Francisco transcreva versos do comunista chileno Pablo Neruda e do brasileiro Vinicius de Moraes — autor de um famoso poema intitulado “Senhores barões da terra”[1], no qual ele faz uma conclamação à luta armada —, apresentados como poetas-profetas que denunciam os supostos males do desenvolvimento econômico.

Pior ainda, as soluções alternativas propostas pelo Papa Francisco correspondem aos sonhos coletivistas mais avançados dos antropólogos neomarxistas que veem na vida tribal das selvas o modelo do mundo futuro.

Segundo o documento, a verdadeira qualidade de vida exprime-se no “bem viver” indígena (n° 8, n° 26 e n° 71), o qual realiza essa utopia de harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica, e encontra sua expressão numa vida austera e simples e no modo comunitário de conceber a existência (n° 71): “Tudo é compartilhado, os espaços particulares — típicos da modernidade — são mínimos […]. Não há espaço para a ideia de indivíduo separado da comunidade ou de seu território” (n° 20).

Nisso os indígenas têm muito para nos ensinar (n° 71), e os citadinos deveriam deixar-se “reeducar” por eles, acolhendo a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar por seu intermédio (n° 72).

À vista dessas fantasias ecotribalistas e coletivistas do Papa Francisco, compreende-se que ele seja o líder para o qual se voltam as correntes de extrema-esquerda do mundo inteiro!

Em resumo, “Querida Amazonia” — uma Exortação Pós-Sinodal insólita, na medida em que se recusa a citar o Documento Final do Sínodo dos Bispos que a motivou — representa, ao mesmo tempo, uma aceleração sócio-econômica e uma freada eclesiológica que deixará insatisfeitos gregos e troianos.

Mas não há dúvida de que os mais insatisfeitos serão os prelados e especialistas da área germânica, que investiram longas horas de trabalho intelectual e centenas de milhares de euros numa assembleia sinodal que acabou dando à luz um pássaro aleijado e incapaz de levantar voo por ter sido amputada uma das suas asas.

Caberá aos historiadores elucidar os motivos que levaram o Papa Francisco a brecar a tão propalada abertura aos sacerdotes casados. “Evitar um cisma ou, pior ainda, uma desestabilização [do pontificado] que teria sido fatal”, como sugere Franca Giansoldati no Il Messagero? Ou dar agora um passo atrás, na esperança de em breve dar dois para frente? (A referência à proposta do Sínodo de desenvolver um “rito amazônico”, contida na nota 120, obriga-nos a permanecer vigilantes, uma vez que o autor do documento é um “furbo” assumido…).

Como dizem os franceses: quem viver, verá.

Mas, por enquanto, “Querida Amazonia” é motivo de satisfação para os que nos empenhamos ao longo de um ano para bloquear a agenda revolucionária dos mentores do Sínodo para a região pan-amazônica (entre os quais cumpre assinalar o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e seu site panamazonsynodwatch.info, qualificado por um analista norte-americano como o “hub” da resistência).

Mesmo que tenha homologado Leonardo Boff, o Papa Francisco pelo menos jogou no Tibre os diretores da Hummes, Kräutler, Suess & Löbinger GmbH[2]


[1] Senhores Barões da terra / Preparai vossa mortalha / Porque desfrutais da terra / E a terra é de quem trabalha (…) Chegado é o tempo de guerra / Não há santo que vos valha (…)- Granada contra granada! /- Metralha contra metralha / E a nossa guerra é sagrada / A nossa guerra não falha!

[2]Gesellschaft mit beschränkter Haftung, equivalente ao “Ltda.” utilizado pelas nossas empresas de responsabilidade limitada.

1 COMENTÁRIO

  1. Não comemore muito tempo. Note que nos primeiros parágrafos da Exortação Francisco apresenta o documento final “…Novos Caminhos para a Igreja”. É justamente neste documento que menciona a ordenação de homens casados. (e porque não o casamento de sacerdotes?), maior protagonismo das mulheres, inclusive em instancia de governo, sugere rito amazônico, etc, sem contar as diversas expressões que nada têm de católica. Note que Francisco recomenda que se leia na íntegra e que não pretende corrigi-lo ou substituí-lo. Não nos deixemos enganar pelas táticas modernistas.

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