… nas páginas da História (III)

À época, uma solerte e perigosa guerra psicológica solapava os princípios do direito de propriedade.

A pressão psicológica exercida pela imprensa, por certa intelectualidade e certos corifeus da esquerda católica criava um clima de hostilidade contra os proprietários rurais.

Eles próprios começavam a sentir escrúpulos de consciência por possuírem terras herdadas de seus maiores, ou legitimamente adquiridas pelo trabalho, e ensaiavam preci pitar-se pela rampa resvaladia das concessões.

“Ceder para não perder” era o lema imaginado para tentar contornar a situação.

Dado o rumo que tomavam os acontecimentos, podia-se prever que imensas convulsões – as quais fariam obviamente o jogo do comunismo –sacudiriam o Brasil no momento da aplicação efetiva de uma reforma agrária confiscatória.

Nessa emergência, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira concebeu a idéia de que só uma obra de envergadura que tratasse a um tempo dos aspectos doutrinários e técnicos do problema agrário, poderia elucidar os meios católicos e os ambientes rurais, cortando o passo à agitação que crescia ameaçado ramente.

Assim, ele idealizou Reforma Agrá ria – Questão de Consciência.

Com a valiosa cooperação de dois Bispos, seus amigos e companheiros de luta desde os tempos do “Legionário”, D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos, D. Geraldo de Proença Sigaud (então Bispo de Jacarezinho (PR) e do economista Luiz Mendonça de Freitas, trabalharam na elaboração do livro concebido.

O resultado foi surpreendente, como pretendo mostrar em outro post.

2 COMENTÁRIOS

  1. Só permita-me discordar num ponto, Alteza.

    No segundo parágrafo de seu artigo

    “A pressão psicológica exercida pela imprensa, por certa intelectualidade e certos corifeus da esquerda católica criava um clima de hostilidade contra os proprietários rurais.”

    Vossa Alteza se esqueceu de grafar a palavra CATÓLICA, em ESQUERDA CATÓLICA, com aspas. O mais correto é ESQUERDA “CATÓLICA”.

    É claro que Vossa Alteza sabe, melhor do que eu, o que estou querendo dizer. Estamos, apenas, lançando mão de figura de linguagem.

    Falando um tanto mais concretamente, para citar um único exemplo, e provavelmente o mais famoso corifeu da esquerda “católica”, tomemos a figura dúbia e viciada do finado D. Hélder Câmara.

    De integralista convicto (postura aliás compatível com o catolicismo, evidentemente com os devidos cuidados tendo em vista a sua condição de sacerdote e, ademais, certos aspectos da doutrina e ação integralistas que poderiam colidir com a integridade da fé católica), a progressista consumado, o seu D. Hélder foi um exemplo de hibridismo politiqueiro, típico da época de auto-demolição por que passava a Santa Madre Igreja.

    Abaixo, vou postar um tão excelente quanto documentado artigo do saudoso jornalista e advogado Júlio Fleichman, membro-fundador do insubstituível Movimento Permanência, que sucedeu a Gustavo Corção na direção da admirável entidade católica, e autor de uma obra-prima: “Itinerário espiritual da Igreja Católica”, que pode ser adquirido aqui: http://www.editorapermanencia.com
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    Dom Helder Câmara – uma retrospectiva de fatos

    Júlio Fleichman

    Tenho sobre minha mesa 10 pastas cheias de recortes sobre D. Helder Câmara. Cobrem o período que vai de 1964 até 1977. A simples existência dessas pastas, cheias de recortes que nos informaram, aqui no Brasil1 de TODOS os pronunciamentos de D. Helder Câmara, muitos transcritos na íntegra e em TODOS os jornais, desmentem por si só a alegação de que D. Helder é aqui “totalement censuré”, como costuma dizer contra nós o jornal “La Croix” de Paris. Mas, como não pretendo ser democrata nem partidário da liberdade de imprensa (no sentido em que esta expressão é entendida nos Estados Unidos) acrescento que uma coisa D. Helder Câmara tem sido e continua sendo, graças a Deus, impedido de fazer pelo Governo brasileiro. Não que seus pensamentos sejam expressos e publicados mas, sim, que ele faça CAMPANHAS públicas em que mistificaria a opinião pública com sua condição de Arcebispo, fingindo que a Igreja Católica, a que tem 20 séculos e é sempre a mesma, endossa suas atitudes. Isso sim, graças a Deus, lhe é proibido.

    Helder Câmara nasceu em 7/12/1909. Tem hoje, portanto, 68 anos. Foi feito bispo auxiliar do Rio de Janeiro em março de 1952. Nomeado Arcebispo de Olinda e Recife, no nordeste brasileiro, em março de 1964, dias antes que eclodisse o levante militar que depôs seu amigo e companheiro, o Presidente João Goulart, a quem ajudou como pôde.

    Durante a década de 1930/40, Helder Câmara, já um padre, era integralista (partido fascista brasileiro, cujo “fuherer” era o escritor Plínio Salgado e cujas camisas, à semelhança dos partidos fascistas europeus, era não negra nem parda mas verde). O jornal “O Estado de São Paulo”, de 25 de maio de 1968, publicou uma antiga fotografia do padre Helder Câmara, em 1934, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, norte do Brasil, cercado de “camisas verdes” e em plena arenga política com os mesmos gestos dos braços e as caretas como hoje faz (hoje as caretas de D. Helder Câmara são “bondosas”; naquele tempo eram ameaçadoras). Esta fotografia foi também publicada no “Jornal do Comércio” de Recife, de 23/5/68 e reproduzida na revista francesa “Minute”, de 4/10 de fevereiro de 1971, página 5.

    Durante cerca de 12 anos, Helder Câmara foi assistente eclesiástico do nosso Centro Dom Vital, a associação de escritores católicos presidida por Alceu Amoroso Lima da qual saíram Gustavo Corção e a maioria dos sócios em 1963, quando Alceu Amoroso Lima, juntamente com Helder Câmara, já mostrava inequívocos sinais de progressismo e esquerdismo.

    A partir de 1955, Helder Câmara, já bispo auxiliar do Cardeal D. Jaime Câmara, do Rio de Janeiro, e secretário-geral da CNBB ganhou fama de organizador, por ter sido o responsável (segundo se dizia) pela boa marcha dos trabalhos do Congresso Eucarístico Internacional. Por essa época, o jornal “O Globo”, de Roberto Marinho, possivelmente com boa intenção, colocava jornalistas e fotógrafos à disposição de Helder Câmara que não dava um passo sem ser muito fotografado e muito noticiado. Sua paixão pela notoriedade, seu excessivo interesse pela publicidade e auto-promoção, tiveram aí talvez um reforço irresistível e avassalador. Dizem que ao dar comunhão, se pressente o “flash” de um fotógrafo, pára com a hóstia no ar e compõe uma atitude fotogênica.

    A notoriedade que alcançou, sua influência junto a donos de jornais e também a empresários que, por meio dele, procuravam, às vezes sem intuitos subalternos, prestar algum auxílio à diocese ou a organizações caritativas, fizeram de Helder Câmara (que não sopitava sua ânsia de prestígio e influência) uma personalidade cada vez mais importante. Cercado de senhoras que o viam como uma espécie de São Vicente de Paulo (mas que também sabiam que ele era um ambicioso político como pude testemunhar pessoalmente) tinha a serviço da promoção de suas campanhas mas também de sua auto-promoção, as esposas de muitos homens influentes e poderosos na política, nos negócios, na alta finança. Durante os anos em que governaram Juscelino Kubistchek e João Goulart (1956 a 1964), foi uma das mais poderosas eminências pardas do mundo político no Brasil, como se pode comprovar, entre outros, pelos seguintes exemplos indiretos:

    ― Em 1958 os jornais publicaram subitamente, com grande destaque, que o presidente de uma organização governamental de âmbito municipal, ocupada em obras públicas do Rio de Janeiro, chamada Sursan, denunciava como ladrão o seu assistente imediato (cujo nome conheço mas deixo de publicar em vista dos anos passados). Esse assistente era um protegido de Helder Câmara, por ele nomeado para aquele posto através da condescendência do Presidente Kubistchek para com o bispo. A acusação do Presidente da Sursan, Sr. Maia Penido, era específica. O acusado roubava pagamentos a serem feitos, para cada caminhão de transporte de terras usado no desmonte do morro de Santo Antônio. O Sr. Maia Penido era, também ele, um homem influente, e ordenara a abertura de um inquérito de apuração dos fatos. No dia seguinte, 24 horas depois, o referido assistente da Sursan foi transferido administrativamente para o Gabinete da Presidência do Brasil, isto é, saíra do âmbito municipal para o federal e além disso, para o gabinete presidencial. Escapava assim ao inquérito e à punição. A prova de poder político de Helder Câmara que todos os jornais disseram, na ocasião, ser o autor da transferência, era evidente. Para nós, desnecessária. Todos, no Brasil, sabiam da influência de D. Helder Câmara.

    ― O que nem todos sabiam porém era até que ponto ia essa influência. Quando houve o levante militar em 1964 e o governo da cidade do Rio de Janeiro ficou livre das pressões do Presidente João Goulart, o novo presidente nomeado pelo Governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, para o Banco do Estado da Guanabara, Sr. Dario de Almeida Magalhães, denunciou ao Governador que havia encontrado entre os documentos importantes do Banco, uma nota promissória, vencida e não paga, cujo devedor era o Sr. Dom Helder Câmara. O valor do dinheiro levantado pelo referido bispo, no montante de um bilhão de cruzeiros (cruzeiros de 1962) era igual ao do capital total do Banco. Esse dinheiro foi usado por D. Helder Câmara para suas promoções demagógicas irresponsáveis como, por exemplo, construir prédios de apartamentos para favelados no meio de áreas residenciais mais abastadas como a Praia do Pinto. O fato foi mais tarde tornado público pelo próprio Governador Carlos Lacerda em depoimento publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, de 17/6/77, já depois de sua morte, depoimento esse em que o conhecido orador e político dizia de Dom Helder Câmara que ele era “a humildade mais bem organizada do Brasil”. O que nos lembra (como aliás todas as caretas “bondosas” de Dom Helder) a figura de Uriah Heep de “David Copperfield”.

    Estes dois exemplos (há outros) são suficientes. Nessa época D. Helder Câmara ― freqüentador de ricaços, banqueiros e membros de “international set” ― influia na eleição da diretoria do Jockey Club, na nomeação de ministros, na composição de arranjos políticos e foi então que algumas das senhoras ricas que o julgavam um São Vicente de Paulo descobriram que Helder Câmara, como dizia o Dr. Zhivago dos comunistas, é um homem que mente. Afirmo isso porque sou testemunha de tais descobertas e de tais decepções.

    Nos dias que antecederam o levante militar de 1964, quando a angústia apertava a garganta de todos os homens de bem e pais de família do Brasil; quando João Goulart e os comunistas que o cercavam já tinham dado início a diversas providências para sovietizar o país, inclusive criando “comissariados”, ocupando fazendas e fábricas, mantendo um clima de agitação permanente nas ruas, nas universidades e nos jornais e, finalmente, começando a organizar comícios de “protesto” de marinheiros e soldados e comícios “gigantes” como o da Central do Brasil em 13 de março de 1964, Helder Câmara, já nomeado Arcebispo de Olinda e Recife, juntamente com o Cardeal de São Paulo de então, procuravam ajudar a obra de decomposição de João Goulart. No dia 24 de março, dias antes do levante militar, quando já havia começado a reação das senhoras católicas de Minas Gerais e São Paulo e já se programava a primeira “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, Helder Câmara, talvez pela primeira e última vez, vestiu as mais solenes vestes vermelhas que um bispo pode usar e foi, em companhia de Dom Carlos Mota, Cardeal de São Paulo e conhecido simpatizante do Presidente Goulart, fazer a este uma visita no Palácio. Com ele almoçaram. Foram fotografados e, com toda a sua fapela, ambos e mais Goulart saíram nos jornais de esquerda do dia 25/3/64 em grandes fotografias. Na véspera do dia 31 de março, quando eclodiu o levante, as estações de rádio favoráveis a Goulart repetiam o dia inteiro: ― “O Presidente Goulart não é um comunista. Agora mesmo a Igreja, na pessoa do Cardeal Mota e Arcebispo Helder Câmara foram prestigiá-lo por suas reformas sociais etc”.

    Derrubado Goulart, Helder Câmara, que era, não o esqueçamos, secretário-geral da CNBB, onde já havia montado ― com o auxílio das senhoras que o cercavam, as que ainda o consideravam um santo ― todo um “staff” de gente de sua confiança, procurou entender-se com o Presidente Castelo Branco. Mas este, homem inteligente, que conhecia muito bem quem era Helder Câmara, não se deixou influir e não esqueceu os serviços prestador por Helder Câmara aos presidentes da República que haviam corrompido, desonrado e quase destruído o Brasil. Helder Câmara, segundo se dizia então, compreendeu perfeitamente no encontro que teve, juntamente com outros bispos ― com o general Castelo Branco, que as portas dos palácios estavam fechadas para ele enquanto os militares governassem o Brasil. Data dessa época sua “descoberta” da necessidade de empenhar-se em campanhas difamatórias no exterior em que procurava sobretudo estabelecer movimentos de “opinião” que acabassem influindo no país.

    Ao longo de todos esses anos, enquanto passamos lentamente, um após outro, os numerosíssimos recortes de jornais, vemos que a trajetória de Helder Câmara foi, evidentemente, facilitada por contatos no Vaticano, em organizações suspeitas tipo “Associação dos Amigos da Democracia no Brasil” com sede em Paris e outras com sede na Alemanha, muitas das quais o próprio Helder Câmara relacionou com uma certa coragem impudente na cínica resposta que deu a uma entrevista do então Governador Abreu Sodré ― datada de outubro de 1970, assunto a que faremos alusão mais adiante.

    Apesar de todas as aparências, apesar do caráter de muitas de suas declarações ― francamente marxistas, favoráveis a assassinos subversivos, explicitamente socialistas, etc. ― a nosso ver o que temos diante de nós é tão somente um espetáculo em que se misturam um oportunismo que não recua diante de nada, uma insopitável ânsia de notoriedade e um grande desejo de influir politicamente. Sabendo-se definitivamente afastado de qualquer possibilidade de influência política e notoriedade fácil no Brasil, Helder Câmara, como tantos outros homens públicos fizeram, procurou usar o nome que já tinha de um modo que obrigaria os jornais, as agências noticiosas, enfim, os órgãos de comunicação de prestígio a ocupar-se dele. Como se sabe, é o “sensacional”, o inusitado, o conflitante, o escandaloso, que realmente interessa aos jornalistas. É por isso que Helder Câmara dedicou-se a estes temas e o fez de um modo que chega a absurdos como veremos mais adiante. Ele explora o que pressente no ar, ele diz o que os temos corrompidos e perturbados gostariam de ouvir, ele atende aos desejos que, antes de seus pronunciamentos, eram para muitos apenas uma tentação; com tais pronunciamentos passam a ser atos praticados. O caráter moral desses atos tornar-se-á mais claro no dia do seu julgamento pessoal que não nos compete. Mas compete-nos a impossibilidade de crer até mesmo no seu comunismo. Ele não tem suficiente vigor para ser comunista. Quanto aos seus pronunciamentos, são de índole comunista, é indiscutível, como veremos adiante.

    Já em junho de 1964 o jornal “La Croix”, órgão da Arquidiocese de Paris, em editorial de primeira página transcrito no “Jornal do Brasil” e outros jornais de 6/6/64, examina um Manifesto de Bispos brasileiros, movidos pelo então secretário-geral da CNBB que, embora reconhecendo o perigo comunista que ameaçava o Brasil e que justificava o levante militar, já começavam a se referir a uma inquietação pela depuração e prisão de comunistas, aliados do Presidente Goulart. “La Croix” não hesita em ir mais longe do que os bispos brasileiros, ainda muito tímidos. Nega que os comunistas estivessem a ponto de tomar o poder apesar do que os próprios bispos dizem. E logo aproveita o que os bispos dizem para estender seu sentido: “Com suas fórmulas gerais parece que os bispos visam não só alguns fatos concretos mas também as próprias disposições da lei constitucional provisória promulgada pelo poder revolucionário”.

    Mais tarde, no seu afã de movimentar “opiniões públicas” fabricadas pela máquina que se montava na Europa, com a ajuda daquelas “Associações”, Helder Câmara funda, um atrás do outro, inúmeros movimentos de pressão, esperando, da iniciativa da fundação de cada um (e da repercussão que a fundação tem, habitualmente, nos órgãos de difusão) que o impacto deles exercesse alguma influência aqui. Cito ao acaso: Em 1968, funda o Movimento “Ação, Justiça e Paz”; nesse mesmo ano, outro movimento: “Pressão Moral Libertadora”; em 20/8/69, outro movimento, ainda sem nome, prometido para ser fundado no dia 12/10/1969, data do centenário de nascimento de Gandhi, “para libertação de todos os povos da América Latina e do Terceiro Mundo, de qualquer tipo de imperialismo”, como disse em entrevista ao jornal “Avvenire” de Milão. E vários outros. É claro que esses “movimentos” logo desapareciam, para outros serem fundados depois.

    D. Helder voa ao redor do mundo. Londres, Paris, Milão, Roma, Nova York, Montreal, Pekin etc. Em Liverpool prega a atividade política para a Igreja: “Todas as igrejas devem mobilizar a força moral que lhes resta (sic) para trabalhar pela libertação do homem, mesmo se para isso devem sair do terreno religioso para entrar no político”. Alemanha, Japão, Austrália, Suécia. A toda parte leva ele a difamação contra o governo do seu país alegando que seus pronunciamentos não são publicados em sua pátria. O que é uma mentira, como mostram meus recortes. Mas, como disse, é verdade que não lhe é permitido mistificar um povo humilde, simples e ainda dotado, em grande parte, de uma certa religiosidade católica, enganando-o com sua condição de Arcebispo que pretende misturar (e mistura, no exterior) com suas opiniões (muitas vezes falsas) a respeito de temas políticos, fazendo constar que é a própria Igreja que estaria contra o Governo militar do Brasil.

    Em 1968, o Papa Paulo VI dirige-se a Medellin, Colombia. Helder Câmara encarrega um assessor, o padre belga Joseph Comblin, de preparar o que ele (e seus cúmplices da CNBB) chamam “um documento-base”. É uma visão marxista da sociedade e uma análise preparatória para a guerra revolucionária que se iria organizar no Brasil.
    Cito alguns trechos:

    “A Igreja Falha ― A Igreja realiza o milagre de ser mais tradicionalista na cultura que transmite do que as próprias classes que controlam o ensino do Estado”.

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    “A Igreja adotou e continua adotando a mesma atitude dos grandes proprietários: desconhece a existência das massas rurais e seu caráter humano… Nunca a Igreja fez tão pouco por uma categoria social… O clero é formado exclusivamente por pessoas assimiladas às classes altas.

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    “A religião que se ensina ao povo é freqüentemente uma religião primitiva, medieval, tipicamente sub-desenvolvida”.

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    “Quanto à doutrina social o que falta na “Gaudium et Spes” e na encíclica “Populorum Progressio” é a consideração dos problemas relacionados com a “arrancada” do desenvolvimento…”

    “Ninguém pode acreditar que as reformas fundamentais que exige o desenvolvimento poderão ser promovidas por uma evolução política normal dentro dos princípios que regem a sociedade ocidental. Esses princípios se aplicam somente em situações de calma e sem problemas. As reformas não se farão pela persuasão nem pelas discussões platônicas em assembléias legislativas, nem por via de eleições segundo os moldes do sistema ocidental moderno”.

    ……………………………………………………………………………………….

    “Bastaria a Igreja armar um grupo (ficaria muito mais barato do que os gastos das obras assistenciais) e tudo ficaria resolvido…”.

    Compreenda-se que quem fala assim (e há muito mais e muito pior no longo documento) é um Padre, sustentado pelo seu bispo, D. Helder Câmara, que levou este documento e o ofereceu à consideração dos demais participantes do Congresso Eucarístico de Medellin, Colombia, na presença do Papa Paulo VI. O Padre Joseph Comblin foi expulso do Brasil (é claro) debaixo da feroz oposição de Helder Câmara e seus companheiros da CNBB o que mostra, para nós evidentemente, que a CNBB não é uma instituição idônea. Resta acrescentar que apesar do caráter francamente subversivo desse documento ele foi publicado em todos os jornais do país, e em vários deles, como no “O Estado de São Paulo”, o jornal de maior circulação daquele Estado e um dos mais divulgados do Brasil, foi publicado na íntegra, ocupando páginas inteiras dos dias 14, 15 e 16 de junho de 1968. Como se vê, o jornal “La Croix”, que afirma sempre que, no Brasil, esses assuntos são “totalement censurés”, é um jornal que não diz a verdade.

    Em abril de 1968, na Europa, Helder Câmara começa a incluir nas afirmações com que compõe a figura que quer impor aos jornalistas (o que consegue tendo em vista o que os jornalistas gostam de publicar) a nota do “ameaçado”. O “heróico” bispo dos pobres está com sua vida ameaçada pela “camarilha militar” que, com o dedo no gatilho das armas, ocupa-se em pesar sobre os pobres e enriquecer os ricos. No dia 26/4/68 os jornais publicam: “Dom Helder diz que vai ser morto”. Diz que vai ter a sorte de Martin Luther King, a quem admira. O “Jornal do Brasil” acrescenta por sua conta, “essa afirmação vem preocupando os fiéis brasileiros porque estes sabem que o Prelado não fala sem ter razões para isso…”. Mas o sociólogo e famoso escritor brasileiro Gilberto Freyre, declara aos jornais, quando interrogado a respeito, que o Dom Helder, se corre o risco de morrer, é atropelado porque o trânsito em Recife é ‘realmente infernal'”. Os fatos posteriores desmentiram, como tantas outras mentiras, a afirmação do “Prelado que só fala quando tem razões para isso”.

    No dia 24/5/1970 o jornal “O Estado de São Paulo” publica notas pessoais a respeito de Dom Helder Câmara encontradas entre os papéis privados de um dos mais eminentes e conhecidos escritores católicos brasileiros, um dos mais eminentes e respeitados sacerdotes, recentemente falecido, o Padre Alvaro Negromonte, cuja “verve”, ironia, sabor da linguagem, grangearam-lhe fama ainda durante sua vida. Diz que Helder Câmara, que considera inteligente, tem enorme capacidade de trabalho e sabe ser insinuante, fazendo-se estimar “em vista da aparente bondade e tolerância que emprega com excepcional esperteza”.

    Mas, acrescenta ele:
    “… pertenceu a todos os Movimentos que o podiam projetar enquanto tiveram projeção, mas logo os abandonou quando caíram na rotina do trabalho humilde… Como as obras materiais no plano social dão glória fácil, orientou-se para elas. Realiza-as com verbas do governo e com dinheiro tirado dos ricos por processos demagógicos… Daí ser cortejador de todos os governos com um oportunismo exagerado… Para atingir o episcopado insinuou-se na confiança de D. Jaime Câmara… Tornou-se amigo íntimo do núncio Chiarlo e do atual núncio (na época Dom Lombardi) através de régios presentes, logrando assim o cargo de secretário-geral da CNBB… Os seus planos notáveis redundam em fracassos porque é desorganizado e sem perseverança. Desbarata o dinheiro que recebe, do qual jamais prestou contas a ninguém… Não cumpre seus compromissos com notável facilidade… Não tem amigos, tem interesses. Por esse seu mau caráter é que consegue numerosas amizades e dedicação, distribuindo verbas… Chegou a falsificar um documento da Conferência dos Bispos para agradar o governo João Goulart, fato público denunciado pelo Cardeal Silva da Bahia. O Cardeal Silva declarou à imprensa que aquele não era o documento que ele assinara e que não o assinaria naqueles termos… Suas ligações com esquerdistas são públicas… Os que com ele trabalham de perto participam dessas idéias… Seu “vedetismo” não irrita só os católicos…”.

    No dia 16/8/1968, o jornal “O Globo” publicou cinco perguntas que o Arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud fez a Dom Helder Câmara a respeito de sua pregação por uma nova sociedade no Brasil.

    As perguntas são as seguintes:

    1a. ― Se nessa sociedade ele, Helder Câmara, admitiria a iniciativa particular.

    2a. ― Se admitira a propriedade, por particulares, de meios de produção.

    3a. ― Se o Estado deveria ter uma função supletiva ou a direção e a exclusiva responsabilidade nas questões econômicas e sociais.

    4a. ― Se seria lícita a economia de mercado livre.

    5a. ― Se admitiria a propriedade particular de bens pessoais.

    Essas perguntas foram feitas de viva voz a D. Helder Câmara durante a reunião de bispos em que foi lançado um dos movimentos criados por D. Helder para sua promoção pessoal. A resposta dada por D. Helder foi a de que deixaria o assunto para as universidades. Diante da insistência de D. Sigaud, Helder propôs a nomeação de uma comissão de peritos para responder. Diante da insistência repetida, disse que qualquer aluno de sociologia católica sabe qual a posição da Igreja a respeito. Dias depois da publicação de todo esse debate, o “Jornal do Brasil” (de 28/8/1968) publicou a irritação de D. Helder que não conseguiu deixar de se mostrar “touché”. O próprio jornal é que informa que ele ficou irritado. O que, somado a sua recusa de responder, é bastante significativo.

    Pulando um pouco no tempo (do contrário esse trabalho não acabaria mais), chegamos à famosa entrevista dada por D. Helder Câmara à revista “L´Express”, publicada por esta revista no princípio de junho de 1970 e aqui reproduzida em todos os jornais (na íntegra, no “O Estado de São Paulo”, de 5 de julho de 1970. Como sempre, tudo “totalement censuré” segundo o jornal “La Croix” de Paris). Essa entrevista é um modelo de impudência em que até sua vida de seminarista é apresentada por D. Helder, provavelmente mentindo, segundo as cores que na época são apreciadas pelos que o ouvem com gosto. É assim que menciona, certamente sem saber o que está dizendo e por isso provavelmente mentindo, que um “grande padre” que não nomeia o livrou do temor de Deus e lhe deu uma “visão muito confiante da vida da qual o pecado está excluído”. “Eu não tinha medo de Deus. Eu tinha confiança nele”. Diz que “não era obediente” e que não se fez “filho de Maria” porque “eu ria, eu falava, eu zombava, eu era normal”. Dá um exemplo: era proibido, no seminário, falar nos corredores, “mas eu não aceitava essa proibição, eu falava”. ― Sozinho? Pergunta o entrevistador. ― “Não”, responde, “eu procurava corromper os outros”. Nessa entrevista ele afirma que deixou o integralismo (o fascismo brasileiro) porque o Cardeal do Rio de Janeiro assim lho pedira. Afirma textualmente: “O que eu acatei sem grande dificuldade pois começara a ter dúvidas quanto à ascensão do nazismo e do fascismo”. Ele parece não perceber o que, subrepticiamente, confessa com frases assim.

    A entrevista ocupa duas páginas do jornal. Ele confessa que o Governo Kubistchek era “muito simpatizante” com as suas obras. Depois entra na parte política em que afirma que: a “Igreja era uma força alienada, que se alienava a si mesma. “Convencemo-nos de que era preciso ‘conscientizar’ as massas”. Mais adiante explica o que entende por “conscientizar”: “É fazer tomar consciência da injustiça e da necessidade de fazer pressão para a libertação”. Afirma que “Che Guevara” era um gênio que ele admira:

    “Eu respeito todos aqueles que, em consciência, escolhem a violência ativa: Che Guevara ou os jovens que fizeram a mesma opção entre nós. Porque eles se sacrificam pela justiça”. O entrevistador do L´Express pergunta: ― Já não acredita na guerrilha urbana? D. Helder responde: “Já não acredito. Eu não digo isso para desanimar esses jovens que tentam alcançar a libertação de nosso povo. Eu os amo e persigo o mesmo fim. Eles são extraordinários esses guerrilheiros urbanos. Eles têm coragem. Eles assaltam bancos para obter dinheiro, a fim de comprar armas. Mas quando se conhece um pouco o preço das armas sabe-se perfeitamente que eles nunca terão o suficiente… O sr. há de dizer que eles têm êxito com o seqüestro de personalidades. Mas alguns são apanhados. Eles são torturados e por vezes falam. É muito difícil resistir quando eles arrancam as suas unhas e esmagam seus testículos”.

    Quando nos lembramos que quem assim fala é um Arcebispo que nunca foi punido como devia por Roma; que essas palavras constam de uma publicação francesa muito conhecida e portanto não podem ser postas em dúvida; que o criminoso que ousa dizê-las não tem uma palavra de piedade pelas vítimas inocentes dos “jovens” que ele “ama” os quais lançam bombas em supermercados, escolas e hospitais e seqüestram personalidades que ameaçam de morte e muitas vezes matam, como mataram Dan Mitrione, Pedro Aramburu, Carlo Sacheri, Capitão Chandler e tantos outros, sem falar nos soldados e policiais mortos no cumprimento do dever; que suas alegadas “torturas” se realmente ocorressem, como ele diz, teriam por objetivo não roubar dinheiro de bancos ou adquirir armas para impor o terror comunista a uma sociedade estuprada mas obter informações para prender outros criminosos como esses que ele apóia e cujo fim também ele persegue como diz; quando nos lembramos disso tudo, é difícil manter o equilíbrio. Este homem que ousa falar assim e o Papa que o sustenta, Deus não permitirá que deixem de responder pelo que fizeram e fazem.

    Repugnado por tudo isso, em fins de setembro de 1970, o então Governador do Estado de São Paulo concedeu candente entrevista aos jornais em que acusa D. Helder Câmara de estar a serviço da máquina de propaganda do Partido Comunista, chamando-o de “Fidel Castro brasileiro”. Essa entrevista, que causou grande repercussão no país, não bastou, juntamente com as declarações do próprio Helder Câmara que acabamos de transcrever, para ao menos reduzir ao silêncio os demais membros do episcopado que, por suas omissões e declarações, antes e depois, assumem a responsabilidade de cúmplices das manobras políticas de baixo nível que Helder Câmara executava e continua executando. Ao contrário, premido pela evidente repercussão causada na opinião pública do país, o então presidente da CNBB, Cardeal Agnelo Rossi, hoje prefeito da Sagrada Congregação para Evangelização dos Povos em Roma, teve a audácia de vir a público pedir “provas” ao Governador Sodré. Possivelmente esperava recibos assinados por Kruschev ou Brejnev. Em carta que entregou a Dom Agnelo e fez publicar na íntegra nos jornais de 24 de outubro de 1970, Sodré responde com argumentos, principalmente com o princípio latino “Cui prodest?”, a quem aproveitam suas campanhas?, e mais de 55 documentos e citações, dentre as quais algumas transcritas acima e outras, especialmente um franco elogio ao Partido Comunista, publicado no jornal clandestino do Partido chamado “Missão Operária”, no. 4, ano II, pág. 48, bastante comprometedoras.

    Depois dessa época, Helder Câmara prossegue seus giros internacionais cujos financiadores reais nunca foram conhecidos. Sua tecla é insistir na idéia de “torturas” no Brasil e durante algum tempo empenha-se, especialmente com parlamentares socialistas alemães e suecos e com membros luteranos do Conselho Mundial de Igrejas, tentando obter o Prêmio Nobel da Paz. A princípio, essa visível intenção de um farsante que se auto-promove, sabendo que os militares católicos brasileiros jamais o molestarão fisicamente, causava-nos enorme indignação. Depois, a verificação de que o Parlamento Norueguês e a Academia Sueca premiaram personalidades indignas como Sean Mac Bride, Jean Paul Sartre e o “pelego” russo Mikkail Cholokov ― perseguidor de Boris Pasternak, da mulher de Pasternak quando este morreu e de Soljenitzin, por ser cunhado de Kruschev, conforme denúncia publicada em 21 de novembro de 1970 pelo presidente da Associação Européia de Escritores, o italiano Giancarlo Vigorelli ― tudo isso nos livrou da nossa indignação. Se Dom Helder Câmara não merecia o Prêmio Nobel, a instituição Nobel que àqueles premiou, merece Dom Helder. É de sua laia. Cabe dar-lhe o prêmio, agora.

    A repercussão internacional dos giros de Helder Câmara, entretanto, diminuiu. Ele cansa. Apesar das tentativas que se fizeram recentemente no sentido de injetar novo alento nesse “mito” de repugnante contorno, como por exemplo uma entrevista promovida pelo “Jornal do Brasil” que ocupou duas páginas, com várias fotografias do prelado, em 24 de abril de 1977, o interesse por sua pessoa parecia diminuir. Em princípios de outubro de 1977, em Atenas, num simpósio internacional sobre a “democracia”, fez o processo e moveu a condenação das “multinacionais” conforme a moda da época, juntamente com outros esquerdistas como o ex-Presidente do México, Echeverria, o economista Galbraith, etc.

    Reitero o que disse. Não consigo acreditar no comunismo, nas convicções comunistas de Helder Câmara, coisa que, aliás, foi dita por várias outras pessoas, dentre as quais, citado acima, o falecido Padre Negromonte. O escritor Gustavo Corção, que também não crê nisso, costuma dizer que Helder Câmara não tem nem sequer caráter bastante para ser comunista.

    O que é terrível, a nosso ver, é pensar na ousadia com que um sacerdote, arcebispo, visivelmente para obter resultados políticos em manobras com que busca prestígio pessoal, que esse Arcebispo ouse espalhar pelo mundo e sobretudo pelos humildes, que utiliza demagogicamente como massa de manobra, idéias que corrompem as almas, que incitam ao ressentimento, que prestigiam a maldade mais horrenda que nos tempos modernos se expandiu em assassinatos, seqüestros e atentados cruéis, que, em suma, favorecem o Partido Comunista Internacional. Esse Arcebispo envenena os que o escutam, reforça também a crescente e pérfida corrupção do mundo em que vivemos, mundo apóstata, paganizado e ateu que já construiu sombrias câmaras de tortura nos países socialistas e que se prepara para estender o sinistro império que já exerce sobre metade da humanidade, aos restos de uma sociedade que já foi cristã. São Pio X tremia de horror constatando, já no seu tempo, o quanto se afasta o mundo em que vivemos, da fé que o poderia salvar. Que dizer da situação do mundo de hoje que o Concílio Vaticano II pretende ser palco de um “novo humanismo” encorajador e que o Papa Paulo VI vê como um mundo que ama a Paz, porque se multiplicam os congressos pró-paz etc. (ver seus Discurso de 1o. de janeiro de 1975). É possível que esse mundo ame a paz, mas não a paz que vem do Cristo. Amará a paz que dá o mundo, ele mesmo.

    Que o Senhor todo-poderoso nos venha socorrer diante da abominação que se instalou em nossa época. Roguemos para que sejam abreviados os dias, como Ele mesmo nos disse. E repitamos, como no Apocalipse: “Vem, Senhor Jesus”.

    http://www.permanencia.org.br/drupal/node/711
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    Clique aqui (http://www.permanencia.org.br/drupal/node/996) e leia uma esclarecedora entrevista com Júlio Fleichman.

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