Após muita expectativa ‒ apreensiva nos que amam a Igreja de sempre, e antecipadamente vitoriosa nos que querem uma Igreja nova e dessacralizada ‒ afinal, o Papa Francisco deu a público a Exortação Apostólica Pós-SinodalQuerida Amazônia[1], com a data de 2 Fevereiro. 

Os erros nos documentos anteriores do Sínodo não foram condenados

A Querida Amazônia não corrigiu nem condenou os graves erros nos documentos anteriores do Sínodo, quer o Instrumentum Laboris[2], quer o Documento Final, intitulado a Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integra[3]. Pelo contrário a Exortação Apostólica manteve a mesma inspiração daqueles documentos: o evolucionismo panteísta da heresia Modernista e do Pe. Teilhard de Chardin S.J.

Consequentemente, as críticas sérias de cardeais e bispos, de que o Instrumentum Laboris contém heresias e é implicitamente panteísta, continuam válidas[4].

Querida Amazônia cita poetas, mas não Padres da Igreja

Querida Amazônia não cita Padres e Doutores da Igreja[5], como seria de esperar em um documento pontifício. Em vez disso, dá destaque a poetas comunistas. Isso torna o documento papal quase surreal[6].

Por outro lado, a Querida Amazônia atribui aos povos indígenas da Amazônia crenças e costumes que não existem lá. Eles pertencem a nativos de outras regiões. É o caso, por exemplo, da “deusa” Pachamama‒ que se tornou o símbolo do Sínodo da Amazônia. Pachamama não é cultuada a pelos indígenas da Amazônia, mas sim por aqueles da Cordilheira dos Andes.[7].

Uma Amazônia Fictícia

Na verdade, o novo documento do Papa Francisco, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia,  da mesma forma que o Sínodo dos Bispos para a Região Amazônica, ao qual se refere,  não tem por base a região amazônica tal como ela realmente existe: ela se baseia numa utopia, “um lugar ou estado imaginário em que tudo é perfeito”[8], à qual se deu o nome de “Amazônia.”

Os habitantes dessa terra imaginária ‒ os silvícolas descritos pela Querida Amazônia ‒ são também entes de ficção, à maneira do “bom selvagem” da filosofia iluminista do século dezoito: homens perfeitos, puros e sábios, por viverem em contacto direto com a natureza primitiva ‒‒ a natureza pura e ainda não corrompida pelo homem ‒ eles mesmos ainda não “corrompidos” pela civilização.

Desde que o mito do “bom selvagem” permeia todos os documentos do Sínodo da Pan-Amazônia,bem como o próprio Sínodo, e é uma das chaves para entender Querida Amazônia, vale a pena explorá-lo um pouco mais.

Querida Amazônia e o “Bom Selvagem” de Rousseau

A professora canadense Jany Boulanger, escrevendo em 2004 sobre o mito do bom selvagem, oferece idéias interessantes sobre o assunto:

Jean-Jacques Rousseau. Para Rousseau, a civilização e a propriedade privada são más.

Livres, sensuais, polígamos, comunistas e bons: essas são as características comuns, altamente caricaturadas, dos habitantes desse ‘melhor dos mundos’.… Sem dúvida, Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) é reconhecido como aquele que mais promoveu  esse mito, ao defender a idéia, que percorre a maior parte de seu trabalho, de que ‘A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade o torna depravado e infeliz’. ”

Para Rousseau, a civilização e a propriedade privada são más. A Profa. Jany Boulanger continua:

“Em seus ensaios filosóficos, Discurso sobre as ciências e as artes, de1750, e Dicurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de1755, Rousseau afirma que o estado primitivo do homem o  conduz à virtude e à felicidade porque sua própria ignorância do mal impede que este se espalhe. Entretanto, o desenvolvimento de seu intelecto e sua busca por luxo, propriedade e poder, incentivados pelas instituições sociais, expulsam o ’bom selvagem‘ de um paraíso próximo `a natureza”.[9]

Querida Amazônia e “sabedoria” aborígine

Assim como para Rousseau, também para a Querida Amazônia, os chamados “povos originários” da Amazônia ainda não foram “corrompidos” pelas instituições sociais. Eles preservaram uma “sabedoria ancestral”, que devem transmitir ao mundo civilizado. Mais ainda, sua “sabedoria” deve informar a “inculturaçãodo Evangelho” na região amazônica (n° 70).

Essa “sabedoria ancestral” indígena é continuamente mencionada pelaExortaçãoQuerida Amazônia. Por exemplo:

“A sabedoria do modo de vida dos povos originários” (nº 22).

A integração na vida urbana interrompe “a transmissão cultural de uma sabedoria que foi transmitida por séculos de geração em geração” (nº 30).

“Mesmo agora, encontramos na região amazônica milhares de comunidades indígenas…. Os grupo distintos, em uma síntese vital com seu entorno, desenvolvemum modo próprio de sabedoria ” (nº 32).

“Durante séculos, os povos amazônicos transmitiram sua sabedoria cultural oralmente, com mitos, lendas e contos” (nº 34).

“A sabedoria dos povos originários da região amazônica ‘inspira o cuidado e o respeito pela criação, com uma consciência clara de seus limites, e proíbe seu abuso’” (n. 42).

“Para cuidar da Amazônia, é bom articular o conhecimento ancestral com os conhecimentos técnicos contemporâneos, mas sempre buscando uma gestão sustentável do território queao mesmo tempo preserve o estilo de vida e os sistemas de valores dos habitantes” (nº 51).

“Para alcançar uma renovada inculturação do Evangelho na Amazônia, a Igreja precisa ouvir sua sabedoria ancestral” (nº 70).

“…somos chamados ‘a ser seus amigos, ouvi-los, interpretá-los e recolher a misteriosa sabedoria que Deus deseja nos comunicar através deles” [103]. Os moradores da cidade precisam valorizar essa sabedoria e deixar-se ‘reeducar’…” (n. 72).

A graça “supõe cultura”?

O conceito de “sabedoria ancestral” indígena é um dos pontos centrais de Querida Amazônia.

De onde viria essa suposta sabedoria? Qual é a sua natureza?

A Exortação papal afirma que ela foi supostamente transmitida “oralmente, com mitos, lendas e contos”. No entanto, a Exortação não diz nada sobre sua origem e natureza.

Essa “misteriosa sabedoria” é de origem natural ou sobrenatural? É o resultado da graça ou revelação primitiva?

Como o Papa Francisco afirma que essa “sabedoria ancestral” deve “inculturar” a Igreja, parece provável que ele a considere de origem divina, imanente ao homem. É também isso que a heresia modernista sustenta[10].

A palavra “inculturação” é usada vinte vezes na Querida Amazônia. Ela faz uma parceria, por assim dizer, com o mito da “sabedoria ancestral”. Mas se os nativos já possuem sabedoria e bondade (“a bondade que já existe nas culturas amazônicas” – nº 66), então o papel da Igreja não é convertê-los. Em vez disso, a Igreja “deve recolhê-la [a suposta bondade] e levá-la à plenitude à luz do Evangelho” (n. 66)

A Exortação Apostólica exagera o papel da cultura, usando o termo quarenta e cinco vezes. Ela apela ao diálogo e à compreensão “a partir de dentro a sensibilidade e as culturas amazônicas.” (nº 86). Mas o Papa Francisco vai muito além disso quando muda o axioma teológico clássico, de que “a graça pressupõe a natureza,”[11] para afirmar que “a graça supõe a cultura” (nº 68)[12].

Agora, de acordo com a definição clássica, a graça é “um dom sobrenatural de Deus para as criaturas intelectuais (homens, anjos) para sua salvação eterna, seja esta promovida e alcançada por meio de atos salutares ou um estado de santidade”[13]. “Somente uma natureza racional ou intelectual é suscetível à graça, pois é por meio da graça que a criatura racional é levada à sua perfeição suprema, que consiste na visão da essência de Deus” (visão beatífica)”[14].

Ao afirmar que a graça “supõe a cultura”, as naturezas humana e angélica parecem serem confundidas  ou identificadas com a cultura, o que tem um sabor panteísta.

Inculturar a Igreja na “Sabedoria Ancestral”

Se a graça supõe a cultura, segue-se que a Querida Amazônia quer inculturar o Evangelho na “sabedoria ancestral” dos nativos.

De fato, lê-se na Exortação:

“Para conseguir uma inculturação renovada do Evangelho na Amazônia, a Igreja precisaouvir a sua sabedoria ancestral, voltar a dar voz aos mais velhos, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das comunidades originárias, recuperar a tempo as ricas narrações dos povos. Na Amazônia já recebemos riquezas que vêm das culturasprecolombinas, ‘como a abertura à ação de Deus, o sentido da gratidão pelos frutos daterra, o carácter sagrado da vida humana e a valorização da família, o sentido de solidariedade e a co-responsabilidade no trabalho comum, a importância do cultual, a crença numa vida além da terrena, e tantos outros valores’”(nº 70)[15].

Essa “sabedoria ancestral” dos aborígines da Amazônia, com a qual o Papa Francisco quer inculturar o Evangelho, incluiu no passado a prática de canibalismo e a poligamia[16]. Atualmente ainda treze grupos étnicos na região amazônica praticam o infanticídio, com algum apoio do Conselho Indígena Missionário do Brasil[17]. É impossível conciliar essas práticas com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tribalismo eclesiástico e pentecostalismo

O sonho apresentado na Querida Amazônia de uma Igreja “inculturada” nos moldes tribais foi previsto pelo grande pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira em 1976 em seu ensaio Revolução e Contra-Revolução:

“E. Tribalismo eclesiástico – Pentecostalismo ‒ Falemos da esfera espiritual. Bem entendido, também a ela a IV Revolução quer reduzir ao tribalismo. E o modo de o fazer já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a modelaram magnificamente, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos “profetas” mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalo-tribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista”.[18]

Seguindo os passos de Teilhard de Chardin

Como parte dessa inculturação da Igreja na “cultura” indígena, Querida Amazônia tem afirmações que evocam o evolucionismo panteísta, místico do “Cristo cósmico,” condenado pela Igreja, do Pe. Teilhard de Chardin, S.J.[19]

Depois de referir-se a uma pretensa “autêntica qualidade de vida como um ‘bem viver,’” dos “povos indígenas amazônicos,” a qual expressa “uma harmoniapessoal, familiar, comunitária e cósmica” (nº 71), Querida Amazônia tem a seguinte tirada de sabor panteísta Teilhardiano:

“Certamente é preciso valorizar essa mística indígena da interconexão e interdependência de toda a criação, mística de gratuidade que ama a vida como dom, mística de admiração sagrada diante da natureza que nos transborda com tanta vida. Não obstante, também se trata de fazer com que esta relação com Deus presente no cosmos se converta, cada vez mais, na relação pessoal com um Tu que sustenta a própria realidade e quer dar-lhe um sentido, um Tu que nos conhece e nos ama” (n. 73).

Querida Amazônia continua, citando a encíclica teilhardiana do Papa Francisco, Laudato Si ‘:

“Da mesma forma, a relação com Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, libertador e redentor, não é inimiga desta cosmovisão marcadamente cósmica que os [os povos indígenas ] caracteriza, porque Ele também é o Ressuscitado que penetra todas as coisas. […] o Filho de Deus incorporou em sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação final’” (n. 74).

Citando novamente Laudato Si ‘, a Exortação Apostólica declara:

“A inculturação da espiritualidade cristã nas culturas dos povos originários tem nos sacramentos um caminho de especial valor, porque neles se unem o divino e o cósmico, a Graça e criação. Na Amazônia [os Sacramentos] não deveriam ser entendidos como uma separação em elação ao criado. Eles ‘são um modo privilegiado de como a natureza é assumida por Deus e se torna mediação da vida sobrenatural’. Eles são uma plenitude da criação, onde a natureza é elevada para que seja lugar e instrumento da graça, para ‘abraçar o mundo a um nível diferente’.” (nº 81).

Ainda citando Laudato Si ‘, o documento sugere que a matéria é divinizada e apresenta a Eucaristia como um “pedaço de matéria”: “Na Eucaristia, Deus, ‘na culminação do mistério da Encarnação, quis chegar à nossa intimidade através de um pedaço de matéria’: ela [a Eucaristia] ‘une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação’”(n. 82).

É claro nessas passagens, talvez mais do que em outros lugares, como o novo documento do Papa Francisco explora a Amazônia e seus povos indígenas, usando-os como um mero pretexto para espalhar o panteísmo cósmico evolucionário.

O culto a “Pachamama” fará parte de uma liturgia inculturada?

A Exortação explica a inculturação da liturgia: “Assim ‘não fugimos do mundo nem negamos a natureza quando queremos encontrar Deus’. Isto nos permite recolher na liturgia muitos elementos próprios da  experiência dos indígenas em seu íntimo contato com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos. Já o Concílio Vaticano II tinha pedido este esforço de inculturação da liturgia nos povos Indígenas’.”(nº 82).

Uma ilustração reveladora de como fazer essa inculturação amazônica nas cerimônias da Igreja foi o culto à deusa Pachamama (Mãe Terra), realizado em 4 de outubro de 2019 nos Jardins do Vaticano, depois na Basílica de São Pedro, e em uma procissão da Basílica ao salão em que os Padres sinodais se reuniram, com dois bispos carregando o ídolo em uma espécie de andor. O Papa Francisco esteve presente em todas essas ocasiões, e deu uma bênção ao ídolo de Pachamama durante o primeiro desses atos.[20]

Na Querida Amazônia, o Papa Francisco procura justificar todas essas cerimônias que cultuam a deusa Pachamama:  “É possível recolher de alguma forma um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente de idolatria. Um mito carregado de sentido espiritual pode ser aproveitado, e nem sempre considerado um erro de pagão”(n. 79).

Querida Amazônia também reitera o laxismo moral da Amoris Laetitia: “…a Igreja deve ter um cuidado especial para compreender, consolar, integrar, evitando impor-lhes uma série de normas como se fossem uma rocha, com o que se consegue o efeito de fazer que se sintam julgadas e abandonadas precisamente por essa Mãe que está chamada a aproximar-lhes a misericórdia de Deus”(nº 84).

Não é uma vitória para os conservadores

Como a Querida Amazônia não menciona a ordenação de homens casados ​​(viri probati) como padres, nem mulheres como diaconisas, alguns conservadores cantaram vitória. É verdade que muitos católicos liberais estavam ansiosos por esse passo, e o Documento Final reclamava isso. Assim, em certo sentido, pode dizer-se que a omissão foi umavitória conservadora. No entanto, como veremos abaixo, não foi uma vitória verdadeira, mas uma “vitória de Pirro”[21]. O Papa Francisco transcendeu a questão, abordando-a em um plano muito mais alto e de maneira devastadora. A triste verdade é que Querida Amazônia aponta para uma mudança no ministério sacerdotal e na liturgia que alcança os mesmos resultados na prática, sem parecer fazê-lo. Essa mudança subversiva está alinhada com o novo entendimento da Igreja sobre a graça e os sacramentos.

Querida Amazônia aponta o caminho a seguir para os progressistas na forma de uma pergunta retórica: “A inculturação também deve desenvolver-se e refletir-se numa forma encarnada de levar adiante a organização eclesial e a ministerialidade. Se se incultura a espiritualidade, se se incultura a santidade, se se incultura o próprio Evangelho, como evitar pensar numa inculturação do modo como se estruturam e se vivem os ministérios eclesiais?”(n. 85).

É verdade que o documento afirma que somente um sacerdote ordenado pode consagrar e “presidir a Eucaristia” (ver nºs 86–90). No entanto, também diz que a inculturação amazônica “requer a presença estável de líderes leigos maduros e dotados de autoridade […] supõe na Igreja uma capacidade para dar lugar à audácia do Espírito, para confiar e concretamente para permitir o desenvolvimento de uma cultura eclesial própria, marcadamente laical”(nº 94).

Esses “líderes leigos maduros” se parecem muito com o “viri probati” do Sínodo. Como não é claroo tipo de autoridade que esses líderes leigos maduros, masculinos ou femininos, receberão, os bispos ou as conferências episcopais podem interpretá-la como bem entenderem. Foi assim que os bispos de Malta e da Argentina interpretaram Amoris Laetitia em relação à admissão de católicos divorciados e “casados” novamente à Sagrada Comunhão[22]. E, assim como esses bispos receberam a aprovação do papa e essa aprovação foi proclamada magistério da Igreja e incorporada na Acta Apostolicae Sedis, também agora pode-se prever razoavelmente que o Papa Francisco aprovará do mesmo modo essas novas etapas de inculturação da “Igreja com rosto amazônico” ( n° 61), implementadas por bispos no Brasil, Peru, Congo, Índia … ou qualquer outro lugar.

Inculturando o ministério sacerdotal na nova Igreja laical

Essa metodologia parece tanto mais provável quanto a Querida Amazônia, conforme vimos, exorta a promoção de “cultura eclesial marcadamente laical”. Se, como discutido acima, “a graça supõe cultura”, e a cultura deve ser marcadamente laical, não estaremos a caminho de uma Igreja leiga na qual o papel do sacerdote fica reduzido à consagração da Eucaristia e à absolvição dos pecados, sendo despojado de toda autoridade e superioridade sobre os leigos não ordenados?

O Arcebispo de La Plata (Argentina)D. Victor Manuel Fernández, amigo íntimo, escritor de textos  (como a Amoris Laetitia) e consultor do Papa Francisco, fez uma observação muito importante sobre essa laicização da Igreja, em artigo publicado por L’Osservatore Romanode 17 de fevereiro de 2020.[23]

Depois de declarar que o papa na Querida Amazônia não fechou a porta aos padres casados eapenas se absteve de tratar do assunto, o Arcebispo declara:

“De qualquer forma, o sonho eclesial expresso por Francisco dá um novo impulso à renovação da Igreja. Seu apelo para criar uma Igreja Amazônica “marcadamente laical” (n. 94) tem uma força particular. Por isso, Francisco exige que os leigos sejam ‘dotados de autoridade’ (n. 94). O que comporta rever um modo de entender o sacerdócio que o relaciona demais com o poder que tem na comunidade. Francisco fala explicitamente sobre isso nos pontos 87 e 88. Francisco especifica que, quando se diz que o sacerdote é um sinal de Cristo, a Cabeça, deve ser entendido como a fonte da graça, especialmente na Eucaristia, não como fonte de poder. Portanto, a direção das comunidades pode ser confiada a líderes leigos dotados de autoridade que possam dar vida a uma Igreja mais participativa”.[24]

Na linha de uma Igreja Amazônica “marcadamente laical”, uma das razões que oPapa Francisco apresentou para não ordenar mulheres como diaconisas é que fazê-lo seria “clericalismo”. Isso nos levaria a “a clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e provocaria sutilmente um empobrecimento da sua contribuição indispensável”(nº 100).

Um estágio intermediário em direção a uma nova igreja sinodal

Além disso, é preciso salientar que, pela primeira vez na história recente, um Papa não assinou um documento oficial com a forma clássica: “Dado em Roma, junto de São Pedro…”. Ao assinar a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia, o Papa Francisco empregou uma fórmula nova e não convencional:“Dado em Roma, junto aSão João de Latrão…”

Isto não é sem importância. Pelo contrário mostra mais um passo na direção de criar uma nova Igreja, não mais Hierárquica e Monárquica, sendo o Papa a suprema autoridade, mas uma “Igreja Sinodal,” à maneira dos cismáticos, governada por um Sínodo de Bispos, sendo o Papa apenas o primus inter pares‒ o primeiro entre iguais.

De fato, enquanto a Basílica de São Pedro, em cuja cripta se encontra a tumba do Chefe dos Apóstolos, simboliza o poder universal do Papa, São João de Latrão é a Catedral da Diocese de Roma, da qual o Papa é o Bispo. Ao abandonar a forma clássica de assinar o documentos “junto de São Pedro…”, Francisco parece querer dar a entender que ele está agindo apenas como Bispo de Roma e não como Papa. E isso num documento “sinodal” no qual ele insiste muito na “sinodalidade” da Igreja.

Nada foi corrigido e novos erros foram acrescentados

Exceto na forma, o Papa Francisco, nesta nova Exortação, não mudou nada dos documentos anteriores do Sínodo. Querida Amazônia apresenta os mesmos erros contidos no Instrumentum Laboris e no Documento Final do Sínodo. As aparências foram alteradas, mas a essência permaneceu a mesma. Pior, outros erros foram acrescentados, incluindo confusão doutrinária sobre graça e cultura, os Sacramentos e o ministério sacerdotal.

Dada a sua profundidade, alcance global e, acima de tudo, a destruição do Papado e do sacerdócio, o Sínodo dos Bispos da Amazônia e seus documentos, incluindo a Exortação Apostólica Querida Amazônia, são sintomas de uma crise como a Santa Igreja nunca conheceu.

Diante desta situação, não podemos deixar de prestar veneração especial a São Pedro e a todos os papas que brilharam por sua santidade no trono pontifício. Os erros e atitudes do Papa Francisco não devem levar ninguém ao sedevacantismo, ao menosprezo do Papado, ou a diminuir a autoridade e os poderes conferidos por Nosso Senhor a São Pedro e seus sucessores. Resistir ao erro do Papa Francisco não é revoltar-se, o que nunca é legítimo. Pelo contrário, é obediência filial. É imitar São Paulo, que resistiu a São Pedro na questão dos judaizantes (Gálatas 2:11).[25]

Convencidos de que Nosso Senhor estará com Sua Igreja todos os dias até o fim dos tempos, e confiando na promessa da Santíssima Virgem em Fátima, de que finalmente seu Imaculado Coração triunfará, com a graça de Deus, devemos continuar a luta, resistindo a toda infiltração de erro e de mal na Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica eRomana.

Notas


[1] Seguimos o texto e a numeração dos parágrafos do original espanhol do documento, tomado do website da Santa Sé:  Exhortación Apostólica Postsinodal Querida Amazônia del Santo Padre Francisco al Pueblo de Dios y a Todas las Personas de Buena Voluntad. Acessado 11/03/2020 17:46. http://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20200202_querida-Amazônia.html.

[2]Sínodo Pan-Amazônico, Instrumento de Trabalho para o Sínodo dos Bispos. Acessado 26/2/2020. http://www.sinodoamazonico.va/content/sinodoamazonico/en/documents/pan-amazon-synod–the-working-document-for -the-synod-of-bishops.html

[3]Documento final do Sínodo Pan-Amazônico. Acessado 26/2/2020. http://www.sinodoamazonico.va/content/sinodoamazonico/en/documents/pan-amazon-synod–the-working-document-for -the-synod-of-bishops.html

[4]VerMaikeHickson, “Walter Cardinal Brandmüller: ‘Everything Is at Stake at the Amazon Synod’” [“Walter Cardinal Brandmüller: ‘Tudoestáemjogo no Sínodo da Amazônia’”] LifeSiteNews, 17 de outubro de 2019, https://www.lifesitenews.com/blogs/cdl-brandmueller-everything-is-at-stake-at-the-amazon-synod; Raymond Leo Cardinal Burke and Bishop Athanasius Schneider, “A Crusade of Prayer and Fasting: To Implore God that Error and Heresy do not pervert the coming Special Assembly of the Synod of Bishops for the Pan-Amazon,” [“Uma cruzada de oração e jejum: Para implorar a Deus que oerro e a heresianãopervertam a próximaAssembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia”] . Acessado 26/2/2020. https://www.ncregister.com/images/uploads/BurkeSchneider.pdf.

[5]A não ser duas referências de passagem a São Tomás de Aquino, que não dão suporte ao contexto teológico do documento.

[6]Os poetas citados são comunistas ou socialistas: Pablo Neruda, Vinícius de Morais, Juan Carlos Galeano e Amadeu Thiago De Lello. Quanto à também citada poetiza Sui Yun, seus poemas têm cunho erótico, com  total desprezo pelas normas morais. Sobre esta última, ver Ignacio López-Calvo, Dragons in the Land of the Condor: Writing Tusán in Peru [Dragões na Terra do Condor: Escrevendo Tusán no Peru] (Tucson, AZ: University of Arizona Press, 2014), 144.

[7]“Pachamama é uma deusa reverenciada pelos povos indígenas dos Andes. Ela é também conhecida como a mãe terra / tempo. Na mitologia inca, Pachamama é uma deusa da fertilidade que preside o plantio e a colheita, encarna as montanhas e causa terremotos”.  “Pachamama”, Wikipedia. Acessado 26/2/2020.https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Pachamama&oldid=940223563

[8] “Utopia”, Oxford Learner’s Dictionaries. Acessado 22/2/2020. https://www.oxfordlearnersdictionaries.com/us/definition/american_english/utopia

[9]Jany Boulanger, “Le Mythe du bon sauvage”, Syllabus Encyclopédie – Litterature– ch. XVIIIe ‒Cégep du Vieux Montreal (tradução e ênfase nossas). Acessado 17/2/2020. http://www.cvm.qc.ca/encephi/Syllabus/Litterature/18e/bonsauvage.htm

[10]Ver São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis, 8 de setembro de 1907, n. 7.Acessado 11/03/2020 18:26. http://www.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html.

[11]Ver Summa Theologica, I, q.2, a.2, ad 1.

[12]A afirmação do Papa Francisco em Querida Amazôniade que a graça “supõe a cultura” (n° 68) é uma citação do n° 115 de sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, de 24 de novembro de 2013.

[13] J. Pohle, “Actual Grace” [“Graçaatual”], em The Catholic Encyclopedia (Nova York: Robert Appleton Company, 1909). Acessado 18/2/2020. http://www.newadvent.org/cathen/06689x.htm

[14]Dr. Rudi de Velde,Aquinas On God: The “Divine Science” of the Summa Theologiae[Tomás de Aquino sobre Deus: A “Ciência Divina” da Summa Theologiae] (Farnham, Surrey, Reino Unido: Ashgate Publishing Limited), p. 151.

[15]Exceto indicação em contrário, o destaque é nosso.

[16]Marta Iansen, “A Poligamia Entre Indígenas (E Como os Missionários Lidavam com Ela)”, História e Outras Histórias, 9 de setembro de 2016. Acessado 26/2/2020. https://martaiansen.blogspot.com/2016/09/poligamia-entre -indigenas.html; Giovana Sanchez, “Como eram os rituais de canibalismo dos índios brasileiros?” Super Interessante, 22 de novembro de 2018. Acessado 26/2/2020.https://super.abril.com.br/historia/como-eram-os-rituais-de-canibalismo-dos-indios-brasileiros/.

[17]“Tradição indígena faz pais tirarem a vida de crianças com deficiência física: A prática acontece em pelo menos 13 etnias indígenas do Brasil. Uma tradição comum antes mesmo de o homem branco chegar ao país”. Acessado 26/2/2020.http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/12/tradicao-indigena-faz-pais-tirarem-vida-de-crianca-com-deficiencia-fisica.html; Sandro Magister, Infanticide in the Amazon: There Are Those Who Defend It, Even in the Church [Infanticídiona Amazônia: háquem o defenda, mesmonaIgreja]. Acessado 26/2/2020.http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2019/10/09/infanticide-in-the-amazon-there-are-those-who-defend-it-even-in-the-church/; Ana Paula Boni, INFANTICÍDIO INDÍGENA: TRADIÇÃO OU CRIME? Infanticídio põe em xeque respeito à tradição indígena. Acessado 26/2/2020.https://ambienteacreano.blogspot.com/2008/06/infanticdio-indgena-tradio-ou-crime.html; Rita Segato, “Que cada povo trame os fios da sua história”, Conselho Indigenista Missionario Acessado 18/2/2020.https://cimi.org.br/2007/09/26510/

[18]Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução. Parte III, Capítulo III, 2, E. Acessado 26/2/2020. https://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR_0303_4Revolucao_nasce.htm.

[19]Ver Arnaldo Xavier da Silveira, “Notas sobre a filosofia e a teologia inaceitáveis ​​de Laudato Si ‘”, 3.08.2015. https://docs.wixstatic.com/ugd/71cd9f_03a494a236154791b42cac69986ce6f1.pdf

[20]“O vídeo mostra a estátua controversa de ‘Pachamama’ do Papa Francisco” ( LifeSiteNews no YouTube, 24 de outubro de 2019. Acessado 26/2/2020.https://www.youtube.com/watch?v=2Wjdkrfj5OI; Jeanne Smits, “Cardinal Burke: ‘Diabolical forces’ Entered St. Peter’s Basilica Through Pachamama Idolatry,” [“Cardeal Burke: ‘forças diabólicas’ entraram na Basílica de São Pedro através da idolatria da Pachamama”], LifeSiteNews, 10 de dezembro de 2019. Acessado 26/2/2020. https://www.lifesitenews.com/news/cardinal-burke-diabolical-forces-entered-st-peters-basilica-through-pachamama-idolatry; Anne Kurian, “L’Amazonie, c’est aussi in France: Les Amérindiens et les Afro-Américains en Guyane française” [“A Amazônia também está na França: ameríndios e afro-americanos na Guiana Francesa”].Les Titres du Lundi, 7 Out 2019,Zenit. Acessado 26/2/2020.  https://fr.zenit.org/articles/les-titres-du-lundi-7-octobre-2019-lamazonie-cest-aussi-en-france/.

[21]Vitória de Pirro: “Uma vitória que não vale a pena ser conquistada porque muito se perde para alcançá-la.” Merriam-Webster. Acessado 26/2/2020. https://www.merriam-webster.com/dictionary/Pyrrhic%20victory.

[22]Ver Pe. Raymond J. de Souza, “With ‘Querida Amazônia,’ It’s ‘Deja Amoris’ All Over Again,” [“Com a ‘Querida Amazônia,’ temos ‘deja-vu Amoris’ de novo”], National Catholic Register, 14 de fevereiro de 2020. Acessado 26/2/2020.https://www.ncregister.com/daily-news/with-querida-Amazônia-its-deja-amoris-all-over-again

[23]Victor Manuel Fernández, Arcivescovo di La Plata, “Apporti innovativi di ‘Querida Amazônia’” [“Contribuições inovadoras da ‘Querida Amazônia'”].L’Osservatore Romano, 17 de fevereiro de 2020. Acessado 26/2/2020.http://www.osservatoreromano.va/it/news/apporti-innovativi-di-querida-Amazônia; ver também Maike Hickson, “Pope’s Ghostwriter, Advisor Claims Francis Blazed Path to Married Priests in Amazon Exhortation” [“O escritor-fantasma e conselheiro do papa, afirma que Francis abriu caminho a padres casados na Exortação da Amazônia”]. LifeSiteNews, Feb. 20, 2020 Acessado 26/2/2020.https://www.lifesitenews.com/blogs/popes-ghostwriter-advisor-claims-francis-blazed-path-to-married-priests-in-amazon-exhortation.

[24]Idem.

[25]“Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável”
Gálatas, 2 – Bíblia Católica Online,https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/galatas/2/.

  • *Tradução do texto publicado em ingles no site da The American Society for the Defense of Tradition, Family and Property, TFP, em 3 de fevereiro de 2020.

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