Santa Catarina de Sena: não temer a opinião dos homens

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Conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, sem revisão do autor.

Santa Catarina de Sena: A alma que teme a opinião dos homens nunca atingirá a santidade

Santo do Dia, 29 de abril de 1966

          

“Santa Catarina de Sena (1347-1380), virgem. Amou apaixonadamente a Santa Igreja. Pregou a reforma da Igreja e a Cruzada”.

  Uma santa que prega Cruzada também parece tão contrária à caridade da “heresia branca” [piedade exclusivamente sentimental, n.d.c.]…

           Sobre Santa Catarina de Sena há os seguintes dados biográficos: “A Gregório XI a Santa fala com severidade daqueles que são caridosos e compassivos por amor carnal, da mesma maneira que são cheios de complacência para com o próprio corpo”.

O que significa “caridoso e compassivo por amor carnal”? É pai, marido, mulher, filho que tem um apego para além do razoável com os membros de sua família, é “familiosa”; levado a não ver os defeitos dos seus parentes e a pactuar até com os defeitos deles, imaginando-os melhores do que são por um amor que é puramente da carne, por um amor que vem do sangue, que vem do lado físico, que não tem nada de sobrenatural. É contra isso que ela fala. Naturalmente se aplicava muito, naquele tempo, aos Papas, bispos – naquele tempo, hoje não… – que tinham nepotismo e que favoreciam parentes.

          

          “Semelhantes seres, vendo seus subordinados caírem em pecado, fingem não o perceber…”

           Esses subordinados são os filhos e outros dependentes.

           “… a fim de não se sentirem em obrigação de castigá-los. Ou então, se os castigam, é com tanta brandura que mais parecem passar unguento sobre o vício, pois temem sempre desagradar alguém a provocar mais descontentamentos.”

           Um Prelado que agisse dessa maneira também entraria na mesma censura: “Oh, meus filhinhos, quem sabe se não é inteiramente conveniente que as moças usem a saia cinco centímetros acima do joelho. Não vos irriteis. Eu não quero dizer que tem mal nisso, não. Eu digo, quem sabe, talvez etc.” Ou então não dizer palavra nenhuma…

           “… isso provem do quanto eles se amam a si mesmos”.

           Eu acho a observação esplêndida, porque mostra que essas tendências todas não são bondade, são egoísmo. É para não ter amolação.

           “Querer viver em paz é, muitas vezes, a maior das crueldades”.

           Essa frase mereceria ser escrita ao pé de uma imagem de Santa Catarina de Sena e posta numa capela nossa, qualquer coisa assim… “Querer viver em paz é, muitas vezes, a maior das crueldades”. Ora, o próprio da “familiosa” é querer viver em paz. E é uma crueldade para com a família, que deveria receber admoestações salutares, fica privada disso, afinal de contas, para que o apóstolo não sofra nada.

           “Quando o abscesso está formado, é preciso que ele seja inciso pelo ferro e queimado pelo fogo e se deixarmos de fazer isso para apenas tratá-lo com bálsamos, alastra em extensão e a morte, muitas vezes, é precipitada”.

           Quer dizer, é tratar a ferro e fogo. É preciso ser inciso pelo ferro e queimado pelo fogo. Mas é preciso dizer as coisas.

           Os senhores dirão: “Bom, Dr. Plinio, o sr. muitas vezes não recomenda prudência?” É verdade. Às vezes interesses superiores da Causa católica recomendam prudência. Mas pelo menos interiormente a gente deve ter esse estado de espírito. E dever sofrer essa prudência com sumo padecimento, com suma tristeza. E não é assim: “Ah… o Dr. Plinio recomendou prudência. Eu não vou precisar brigar com fulano de tal… tão bonzinho! Uma vez eu suspeitei que ele tem uma concubina. Mas não deve ser verdade, eu já nem penso mais nisso, porque ele me agrada tanto… É meu padrinho. Me dá até um presente cada aniversário, cada Natal…”

           Quantas miséria em não querer ver as pessoas com quem a gente tem ligação carnal, como são! Qual é o resultado disso? O mais das vezes, pelo menos, quem tem essas condescendências para com quem não é verdadeiro católico, tem muitas dificuldades em ser condescendente com os verdadeiros católicos. E vice-versa. Eu conheço essa gente. Vamos dizer que a regra geral é essa. É o quê? Egoísmo, egoísmo, egoísmo, e com a aparência de bondade…

           Agora uma carta de Santa Catarina ao cardeal Pierre d´Estaing:

           “Eu desejo ver em vós um homem de coragem. A alma que teme a opinião dos homens não atingirá jamais a perfeição”.

           Essa é outra frase que mereceria ser escrita: a pessoa que teme a opinião dos homens jamais alcançará a perfeição, quer dizer, jamais alcançará a santidade. É evidente. Porque se a pessoa está de tal maneira subjugada pela opinião dos outros e tem pavor de ser criticada por colegas, por outras coisas assim, então não tem verdadeiro amor de Deus. É evidente.

           “Tudo abala uma tal alma; não levará avante empreendimento algum”.

           Bem entendido, empreendimento bom. Porque fugir nas horas de dificuldades para só aparecer na hora de vitória, medos, timidezes, isso as obras de negação e de omissão, essas de toda espécie. Obra boa de apostolado, nenhuma. Muitas vezes as pessoas fracassam no apostolado e se perguntam porque foi. Se a gente dissesse: “Você não tem medo do juízo dos outros? – Tenho. – Deus não abençoará sua obra, porque quem tem medo do juízo dos outros, já coloca contra si uma condição negativa.

           “Ó, como é perigoso esse receio!”

           Receio dos outros.

           “Ele paralisa os santos anseios e pôs obstáculos à sua realização. Cega o homem a ponto de não mais conhecer a verdade. Pois esse temor procede do amor próprio. Assim que a criatura humana começa a amar a si mesma, dela se apodera o temor da opinião dos outros.

           “Por que receia o homem? Porque colocou seu amor e sua esperança nas coisas frágeis, que não repousam sobre base sólida e que passam como o vento. Ó culpável amor próprio! Como és pernicioso aos superiores e aqueles que lhe são submetidos! Tratando-se de um prelado, jamais (repreende) ou castiga seus subordinados, receoso de desgostá-los. Não leva em conta nem o direito, nem a justiça, julgando segundo seu próprio capricho ou de conformidade com o capricho das criaturas, de maneira que aquelas que dirige mais se enraízam no erro”.

           “Eu creio que seria bom que o nosso doce Cristo na terra, o Papa, se libertasse de duas coisas que corrompem a Esposa de Cristo: a primeira é a afeição demasiada à sua família; a segunda é brandura excessiva baseada em desmedida indulgência”.

           É uma Santa que censura isso num Papa.

           “Corrompem-se os membros de Cristo porque ninguém os castiga. É com mão firme que precisa ser restaurada a ordem, pois uma excessiva complacência constitui, por vezes, a maior das crueldades. Não diga que a Igreja vem a ser menos perseguida, mas tende fé no porvir glorioso que lhe foi predito”.

           Quer dizer, se a Igreja for perseguida, que seja. Não tem importância, toca para frente! Ela vai ter seu futuro glorioso mais adiante.

           “O bem só triunfará quando a corrupção atingir o seu auge”.

           Alguém poderia me dizer: “Mas Dr. Plinio, um “geração nova” (expressão utilizada para os que nasceram por volta de 1940, n.d.c.), débil, capenga etc., como é que vai praticar esse conselho?” Eu digo: primeira coisa é compenetrar-se disso, ter isso em vista e reconhecer para a gente mesmo que a gente é assim. Eu vou reconhecer francamente: eu sou medroso, eu sou poltrão; eu deveria ser corajoso, não sou. Mas ao menos para o meu olhar interior, eu sempre quando me vir, verei sempre aquele poltrão. Aqui está o poltrão do fulano, quando eu pensar em mim mesmo. Porque não tenho coragem de confessar a Deus diante dos homens; porque não tenho coragem de proclamar Nossa Senhora diante dos homens; porque tenho mais medo de uma risota do que do olhar soberanamente majestoso e bondoso e digno de amor de Deus, que perscruta minha alma até o fim, de Nossa Senhora, que é minha Mãe. Aqui estou eu; eu sei que eu sou assim. E reconhecendo que sou assim, desejo mudar.

           Este é o ponto de partida de toda forma de emenda, e sem ele não há emenda. Vejamos os nossos defeitos e reconheçamos o que eles são. O resto virá depois.

           Se nós nos olharmos de frente, rezaremos bem e se rezarmos bem nós obteremos cura. Não adianta a gente só rezar. “Então está bom: resultado do conselho do Dr. Plinio, três Ave-Marias por dia, está feito!” Não, assim não se faz… Três Ave-Marias, esplêndido! Indispensável! Mas é preciso que eu tenha coragem de olhar meu defeito de frente.

           E que eu diga de mim para mim, francamente, fustigando-me a mim no meu interior: Tal sou eu; isso eu faço e isso tem tal coisa de ruim. Confio na misericórdia de Nossa Senhora, sei que Ela me atenderá, sei que Ela vai tomar em consideração minha debilidade, minha capenguice etc. Está bem, mas isso que eu posso fazer, eu faço; que é o de ter bem em vista, diante de mim mesmo o meu pecado e de me estigmatizar.

           É o que está na exortação de Santa Catarina de Sena.

(Para aprofundar no conhecimento de sua maravilhosa vida, consulte o Blog Heróis Medievais)

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução”, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

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