Senso de honra e a crise do mundo presente

Nossa sociedade vive em meio a uma crise sem precedente na história do Ocidente Cristão. A família, célula básica da sociedade está sendo corroída por uma pavorosa decadência dos costumes. Vícios contrários à natureza são apresentados como motivos de orgulho. A desonestidade, a corrupção vão se tornando cada vez mais comuns. Juntamente com isso, e agravando o quadro, começa a espraiar-se um espírito de conformadidade ou cinismo face à decadência.

Nessa situação, os problemas se interpenetram e se complicam, tornando-se quase insolúveis. Faltam princípios claros para entendê-los, vontade firme para solucioná-los. Tudo parece conduzir ao caos e à desesperança.

No entanto, existem minorias aguerridas que reagem com brio, que estão dispostas a não aceitar passivamente o desmantelamento do que resta da Civilização Cristã. Mais do que isso, querem elas tomar a ofensiva, restaurar as bases os fundamentos de uma verdadeira Civilização.

Restaurar o Senso do Bem e do Mal e o Senso da Honra

Para se ter uma visão de conjunto da crise, de suas origens, causas, e soluções, é preciso ler ou reler o ensaio profético do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra Revolução.[1]

No presente artigo, no entanto, queremos ressaltar um ponto fundamental apresentado pelo grande pensador católico, como meio de luta na presente crise: o da necessidade de restaurar-se o senso do bem e do mal. É a perda desse senso do bem e do mal que se encontra no cerne da enorme confusão que domina o mundo moderno, distorce o pensamento, corrompe a moral, paraliza as reações.

Mas, como fazer para que a distinção entre o bem e o mal, do certo e do errado não permaneçam meros conceitos abstratos que pouco influenciem nossa vida concreta, nosso comportamento e atitudes? Como transformá-la em algo vivo e atuante, que se torne de tal modo parte de nossa personalidade que seja como que o seu esteio, a sua configuração?

A nós nos parece que é por meio do senso da honra que a distinção, a incompatibilidade entre o bem e o mal, se tornam algo pessoal e ativo. A restauração do senso do bem e do mal passa, pois, pela restauração do sentimento da honra.

Julgamos, portanto, oportuno tecer algumas considerações sobre a honra.[2]

Honra beleza da conduta virtuosa

A honra é a beleza espiritual que reluz na conduta do homem virtuoso. Ao mesmo tempo ela é um testemunho de sua excelência e um premio da virtude. Ela ocasiona louvor e reverência e o seu brilho máximo é a glória.

Deve-se honrar toda forma de excelência mas deve-se ter preito diverso uma vez que as excelência comporta graus.

Embora, a rigor, a honra só seja devida à virtude, posto que o homem vive em sociedade, ele deve respeitar as regras gerais do convívio e, portanto, honrar àqueles que são tidos em tal conta pela estimativa geral, ainda que não se tenha certeza à respeito de sua virtude.

Importância social da honra

Por outro lado, há vários títulos pelos quais uma pessoa pode ser honrada: seus  méritos pessoais, o cargo ou função que ocupa, grandes feitos que tenha realizado. As pessoas revestidas de autoridade devem ser honradas em virtude de sua representatividade de Deus, uma vez que toda autoridade procede Dele.

Aí não é a virtude da pessoa que exerce a autoridade que estamos honrado, mas a de Deus. Por isso  mesmo quando essas autoridades não merecem serem honradas por mérito próprio, elas o merecem por sua representatividade. E isso é fundamental tanto para a boa ordem social como para a eclesiástica. Pois os Prelados, mesmo não virtuosos, representam a Cristo, do qual procede toda autoridade na Igreja.

A honra que se deve aos superiores implica em respeito por sua pessoa, submissão e obediência em tudo o que mandam legitimamente.[3]

Entre as pessoas revestidas de autoridade, além das civis e religiosas estão os pais e um mandamento especial da Lei de Deus (o quarto) manda-nos honrá-los.

Honra o maior dos bens humanos

A honra liga-se à virtude da fortaleza através da virtude da magnificiência, a qual fortalece a alma para empreender grandes feitos. De modo especial através do pudor, ela liga-se à virtude da temperança, a qual modera as inclinações do homem para que ele aja segundo os ditames da razão. Do mesmo modo a honra está ligada à virtude da justiça através da virtude da religião que nos manda respeitar os superiores.

A honestidade é como que um estado de honra. De onde se chame honesto aquele que é digno de louvor.

A honra só subsiste em sua totalidade, mas acidentalmente ela pode se manter, em alguns de seus aspectos, de forma parcial. Assim, mesmo quando não praticam o conjunto das virtudes, são honradas aquelas pessoas que se sobressaem em algo como, por exemplo, o soldado que cumpre com bem o seu dever, o comerciante particularmente honesto, o juiz eximio em fazer justiça, o bom pai de família etc.

A honra é o maior de todos entre os bens externos do homem. No empenho em mantê-la o homem é levado a fazer o bem e a evitar o mal.

Honra: o seu oposto, a Infamia

O oposto da honra é a infâmia ou ignomínia, assim como a virtude opõe-se ao vício.

Naturalmente a infâmia repugna ao homem e é por isso que ele, mesmo quando  decai, em geral, procura esconder o mal praticado. Assim se diz que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude: ao fingir-se de virtuoso, o hipócrita ainda reconhece o valor da virtude e aspira à honra que é apanágio dela.

Quando o homem vai mais fundo em sua degradação, em vez de esconder o vício, ele jacta-se de sua pratica. Transforma então o bem, a honestidade, a virtude em zombaria e se deleita no prazer mórbido da infâmia. Vira um cínico ou um alucinado.

Honra, estímulo para a prática da virtude

O senso da honra constitui num estímulo constante para o homem elevar-se acima de si mesmo e encontrar forças para vencer as tentações. Porque a honra não admite concessões nem subterfúgios, é integra, exige a pratica exímia das virtudes. É nesta última nota, que se encontra o característico da honra, a beleza moral da vida virtuosa.

A perda da honra, da auto-estima, abala profundamente o homem, produz-lhe agudo sofrimento moral. Para evitar tal situação, o homem procura recuperar a honra e com isso volta a praticar a virtude.

Em suma, a honra é a força de alma que nos leva a fazer mais do que é simplesmente prescrito.

“A honra autêntica é o brilho da virtude, sua aura. É o eco da virtude na sociedade, o sinal que ela é reconhecida e admirada. Ali onde a virtude está condenada a ficar sem eco, e portanto, sem brilho, ela não é acessível senão a alguns grandes solitários. De onde a necessidade de se continuar a cultivar a honra. A honra é uma intermediária necessária entre os ideais e o comum dos mortais.”[4]

Restaurar o autêntico sentimento de honra

Retomando o que dissemos na introdução deste artigo a respeito da crise moderna, concluímos que devemos tudo fazer para a restauração da honra.

E, enquanto católicos, devemos pensar sobretudo na honra de ser católico. Pois, se ocupar cargos de destaque, lutar nas guerras, ser fiel no casamento, na amizade, atuar com justiça, com honestidade, são motivos de honra, o termos recebido o batismo e  lavados no sangue do Cordeiro,[5] o participarmos dos méritos do sacrifício da Cruz, é para nós motivo para maior honra. Honra de caráter sobrenatural, para o qual fomos escolhidos sem  mérito nosso.

Se o católico deve rezar pelos seus inimigos, ele não deve portar-se diante deles como um saco de pancadas, dando a impressão de covardia e pusilanimidade. Sobretudo ele deve-se transformar num guerreiro, num polemista, num ativista, quando a honra da Igreja, a honra do Divino Salvador, de sua Mãe Santíssima, estão em jogo, são atacadas de modo vil e brutal por filmes, novelas, exibições de “arte,” elo movimento homossexual.

A honra do católico exige que ele defenda sua fé em praça pública, na política, na cultura, no judiciário, por toda a parte e por todos os meios legítimos.

Com a restauração da honra em nossa sociedade, restararemos o senso do bem e do mal, da beleza, sobretudo no comportamento humano.

E para isso vale a pena viver.


[1] Cf. http://www.revolucao-contrarevolucao.com/index.asp

[2] Resumiremos aqui o pensamento de São Tomás de Aquino o qual trata da honra em inúmeros artigos da Summa Theologica, mais especialmente: 1-2, q. 2, e 2-2, questões, 103, 129, 141, 144 e 145.

[3] É evidente que quando mandam indevidamente ou para o mal não devem ser obedecidas.

[4] L’Encyclopedie de l’Agora, Honneur.

[5] Cf. Apocalypse, 22:14.