Todos os homens são iguais. Logo, todos os povos o são também. Logo, todos têm o mesmo direito à independência. Logo, toda e qualquer forma de colonialismo é intrinsecamente injusta. E é também nociva, pois se nenhum homem vela melhor pelos seus interesses do que ele próprio, é igualmente verdade que qualquer nação jamais é tão bem dirigida como quando se governa a si mesma.

Em conseqüência, convém fazer cessar já, e por toda parte, qualquer forma de dependência de uma nação em relação a outra.

Foi com generalidades brilhantes, enternecedoras e falaciosas como essas que a política norte-americana, conjugada para este efeito com a da URSS, impôs indiscriminadamente, depois da segunda guerra mundial, a supressão do regime de protetorado ou de dependência colonial em que as várias nações europeias mantinham povos e territórios na África, Ásia na Oceania. Pouco resta do Império Britânico. E o que resta é tão frouxo, que se reduz a quase nada. A França, a Bélgica, a Holanda, a Itália já não são potências colonialistas. Das colônias espanholas, a bem dizer nada resta. E só Portugal ainda conserva intactos os seus domínios de além mar, exceção feita de Goa.

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Em tese, nas regiões de onde se retirasse a influência européia, deveria surgir radiosa, autêntica, pujante, a cultura local, como fonte inspiradora de novas instituições, novos estilos de viver e de produzir.

Mas, do mito só pode nascer a catástrofe. Do erro só pode sair o caos. E o resultado foi o que se viu. Em grau maior ou menor, por toda parte, e especialmente na África, o vácuo deixado pelos europeus em todos os domínios não foi preenchido tanto pelos nativos quanto principalmente pelos comunistas. Moscou e Pequim estão dividindo entre si os despojos que o Kremlin e a Casa Branca arrancaram à Europa. E não raras vezes, quando se deixou o campo livre às influências autóctones, o que apareceu não foi senão imaturidade e ferocidade pagã, a produzir convulsões trágicas e copioso derramamento de sangue.

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O recente caso de Ghana está vivo na memória de todos. Nosso primeiro clichê mostra o redentor caricato que os revolucionários ghanenses se deram a si próprios. Vemo-lo aqui representado em uma estátua que Kwame N’Krumah erigiu em honra de si mesmo, em frente ao edifício do Parlamento em Accra. Em trajes proletários e atitude messiânica, essa figura de opereta — que se deixava intitular “Redentor” por seus partidários — empunha com firmeza um bastão que evoca fortemente a ideia de pancadaria.

Para que a blasfêmia fosse completa, liam-se no pedestal estas palavras: “Procurai primeiro o reinado do político, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo”. Parece que esse minúsculo anticristo se sentia por vezes pequeno em suas funções de redentor. Provavelmente por isso, deu à estátua proporções gigantescas. Como é bem de se ver, esse fantoche hilariante era manobrado pelos russos.

Tal era a república de Ghana que, nascida da antiga colônia inglesa da Costa do Ouro, quase todas as nações membros da ONU tomavam sério…

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Como puderam fazê-lo? É o que a História terá de explicar algum dia. Como puderam os governantes de tantos países admitir que fosse capaz de tornar-se independente e de criar um estado inteiramente definido, estruturado e normal em seu funcionamento, um povo que ainda há pouco estava inteiramente no estado de barbárie, um povo que, por exemplo, ainda adorava ídolos estranhos e extravagantes como o que ilustra esta página, cultuado pelos Fantis da região de Wassaw… Um povo do qual sem dúvida não desapareceram de todo nem os restos nem o ambiente da antiga selvageria?

Seja como for, o edifício baseado sobre a utopia igualitária, filantrópica e naturalista não poderia durar. N’Krumah caiu e seus patrícios, que até há pouco o acatavam como chefe de Estado, se apressaram a derrubar o ídolo erguido em praça pública, cantando e dançando de alegria por sua queda. Sobre ele, como mostra nosso clichê, brincaram de modo pitoresco e simpático os meninos das ruas, ao passo que o pedestal foi quebrado em muitos fragmentos, distribuídos entre a multidão.

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Mas quem é de opereta faz opereta a vida inteira. N’Krumah foi nomeado presidente da Guiné pelo próprio chefe de Estado guinéu, Sekou Touré. Depois, este último esclareceu que não renunciara ao poder em favor de N’Krumah, mas simplesmente o condividira com ele. Esse condividir, entretanto, parece que era muito sui generis, pois Touré deixou entrever que Kwame N’Krumah tinha apenas algumas honras de chefe de Estado. Esperam-se novos lances hilariantes.

Noticia-se, ao mesmo tempo, que a república bicefálica da Guiné prepara uma guerra contra Ghana. E tem-se a obrigação de recear que correrá ainda mais sangue na África.

Se algum progressista ler estes comentários, pouco faltará talvez para que também aqui corra um pouco de sangue. Pois estaremos a dois dedos de sermos agredidos. O progressismo, com efeito, é uma forma de histeria freneticamente favorável à liberdade de pensamento e opinião de todos, desde que sejam progressistas. Mas se se é antiprogressista não se tem o direito de dizer o que se pensa, porque o progressismo espouca então em objeções ácidas, interpretações temerárias e conclusões enfaticamente injuriosas.

Digamos, pois, para prevenir chufas e doestos, que bem sabemos que, in abstracto, cada povo tem direito à sua independência. Bem sabemos, ainda, que a generosidade de espírito própria ao católico leva a desejar a independência de todos os povos. Mas tudo isso nos modos, tempos e lugares indicados.

Em princípio também, é possível que certas circunstâncias tornem legítima a dominação de uma nação sobre outra. É possível que certas nações não estejam em condições de prover por si mesmas a seu destino. Nessas hipóteses, não é legítimo fazer cessar a todo preço e de qualquer maneira as relações de proteção ou dominação colonial eventualmente estabelecidas entre dois povos.

Mas, dirá o progressista, teria cabimento suportar os abusos existentes em tantos protetorados e colônias? Talvez sim, em vários casos. Porque nem sempre é sábio e útil extirpar certos abusos… Assim, movidos constantemente pela maior simpatia para com os povos africanos e asiáticos, foi com preces que acompanhamos o alvorecer de sua independência. Com preces nas quais ia, além de um entranhado amor cristão, também uma profunda apreensão. Tanto utopismo não iria tornar várias dessas nações vítimas de desgraças ainda maiores?

Utopistas, eis no caso de Ghana uma expressão aguda e extrema do desacerto de vossa política em tantos países. Quando vos convencereis de que a inconformidade com o real, com o concreto, com o positivo, faz de vós verdadeiros verdugos das nações que imaginais beneficiar?

Quando compreendereis que com isso só lucra o lobo comunista?


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