No momento, você está visualizando 02/10 – São Leodegário, bispo e mártir: fortaleza diante da perseguição
Crédito: Editorial

Quando Ebroíno avançou com um exército contra Autun, São Leodegário tomou uma decisão destinada a poupar a população dos sofrimentos de um cerco. Acompanhado pelo clero, que levava cruzes e estandartes, saiu ao encontro do adversário. Não encontrou, porém, disposição para o entendimento: foi preso e submetido a uma perseguição que culminaria em seu martírio.

A serenidade com que suportou essa provação foi preparada por uma vida inteira dedicada ao serviço da Igreja. Descendente de sangue real e criado durante a infância na corte francesa, Leodegário foi ainda jovem confiado ao bispo de Poitiers. Sob sua direção, progrediu tanto no conhecimento quanto na prática das virtudes.

Da formação religiosa ao governo de Autun

Aos vinte anos, Leodegário foi ordenado diácono. Pouco depois, tornou-se arquidiácono da Igreja de Poitiers. Mais tarde, recebeu a missão de governar, como abade, o mosteiro de São Maxêncio. Sua prudência e santidade no exercício desse encargo fizeram com que fosse escolhido por unanimidade para ser bispo de Autun.

Seu ministério episcopal seria interrompido por uma convocação para a corte. Quando o rei Childerico subiu ao trono, afastou Ebroíno, que exercia o cargo de mordomo do palácio, e chamou Leodegário para ser seu principal conselheiro.

O bispo não recebeu com entusiasmo essa mudança. Considerando, entretanto, que poderia orientar o jovem soberano para o bem da Igreja e do povo, aceitou a função. Durante três anos, sua influência contribuiu para conduzir o rei pelo caminho da retidão, para alegria daqueles que desejavam um governo justo.

Essa atuação também lhe trouxe inimigos. Acusações e calúnias despertaram a desconfiança do rei. Percebendo que já não poderia realizar o bem que pretendia, Leodegário deixou secretamente a corte, recolheu-se a um mosteiro e, algum tempo depois, retornou à sua diocese.

A vingança de Ebroíno

Após a morte de Childerico, seu sucessor reconduziu Ebroíno ao poder. Convencido de que Leodegário fora responsável por seu antigo afastamento, o mordomo do palácio resolveu vingar-se. Sob um pretexto, marchou contra Autun.

Foi então que o bispo, preocupado com os fiéis confiados aos seus cuidados, saiu da cidade e se apresentou ao perseguidor. Ebroíno mandou prendê-lo e ordenou que lhe arrancassem os olhos. Leodegário suportou o suplício sem dirigir palavras de revolta contra aquele que o atormentava.

Em vez de se considerar injustiçado diante de Deus, examinava com humildade as próprias faltas e comparava a brevidade dos sofrimentos presentes com a recompensa eterna. Reconhecia-se pecador e julgava suas provações pequenas diante da glória que esperava no Céu.

A crueldade não terminou ali. Leodegário foi obrigado a caminhar descalço por um caminho coberto de pedras afiadas e fragmentos de vidro. Prosseguiu enquanto teve forças, até cair desfalecido, com os pés feridos e ensanguentados. Em seguida, cortaram-lhe a língua e os lábios e encerraram-no em um mosteiro.

Mesmo então, não perdeu a esperança. Sua disposição pode ser resumida pelas palavras que lhe são atribuídas: aceitava sofrer por pouco tempo para alegrar-se por toda a eternidade. Não se tratava de insensibilidade diante da dor, mas de uma confiança que colocava o sofrimento temporal sob a luz do destino eterno.

Perseverança até o martírio

A tradição hagiográfica registra que, apesar das mutilações, Leodegário recebeu a graça de continuar falando. Empregou-a não para reclamar dos tormentos nem para pedir vingança, mas para louvar a Deus, pregar ao povo e exortar os fiéis a uma vida verdadeiramente cristã.

Ebroíno, ainda dominado pelo desejo de vingança, mandou retirá-lo do mosteiro e decapitá-lo. São Leodegário consumou assim seu testemunho como bispo e mártir, por volta do ano 678.

Após sua morte, sua inocência e santidade teriam sido confirmadas por numerosos milagres. A mesma narrativa relata que Ebroíno morreu violentamente e que outros participantes da perseguição sofreram graves castigos.

A esperança que não depende da prosperidade terrena

A vida de São Leodegário recorda que a fidelidade a Deus não traz necessariamente uma recompensa imediata neste mundo. Um homem pode servir à Igreja, aconselhar com retidão, procurar o bem de uma cidade e, apesar disso, terminar perseguido. O sofrimento do justo não significa que Deus o tenha abandonado, assim como a prosperidade do mau não constitui aprovação de suas obras.

Essa verdade exige duas atitudes complementares. Para quem sofre procurando permanecer fiel, ela é motivo de esperança: as provações presentes não têm a última palavra. Para quem persevera no pecado porque ainda não sofreu suas consequências, ela é uma advertência: a paciência de Deus não deve ser confundida com indiferença diante do mal.

As considerações associadas à vida do santo recordam, nesse sentido, a advertência do livro do Eclesiástico sobre a paciência divina e as palavras dirigidas ao perseguidor Antíoco no Segundo Livro dos Macabeus. O tempo concedido ao pecador deve conduzi-lo à penitência, e não a uma falsa sensação de segurança.

São Leodegário atravessou a corte, o governo monástico, o episcopado, a perseguição e os suplícios sem abandonar sua missão. Diante da violência, preocupou-se com seu rebanho; privado da integridade do corpo, continuou a anunciar a fé; próximo da morte, manteve os olhos da alma voltados para a eternidade. Nessa perseverança reside o ensinamento central de seu martírio.

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