20/08 – São Bernardo de Claraval, Confessor

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Nascido no final do século XI no seio de uma família privilegiada, de grande fortuna e poder, a maior riqueza de Bernardo, contudo, era uma arraigada fé católica. Seu pai, Técelin, grande senhor, era forte, bom e piedoso; e sua mãe, Elizabeth, filha do Duque de Montbar, seria venerada como bem-aventurada pela Igreja na França. O terceiro de sete filhos, quando Bernardo nasceu, sua mãe não só o ofereceu a Deus, como fazia com toda a prole, mas também o consagrou ao serviço da Igreja.

Assim, ele aprendeu com os pais a ciência dos santos, e a do mundo com os padres da igreja de Châtillon-sur-Seine.

Extremamente bem dotado, além de boa aparência física, Bernardo possuía uma inteligência viva e penetrante, elegância de dicção, suavidade de caráter, retidão natural de alma, bondade de coração, uma conversa atraente e cheia de encanto. Ao par disso, uma modéstia e uma propensão ao recolhimento, que o faziam parecer tímido.

Com tantas qualidades naturais e uma posição social invejável, poderia ao crescer ter-se facilmente desviado para o mundanismo. Mas Bernardo provou que a alta condição social, se vivida com fé, pode até ajudar a prática da virtude. Seu temperamento, inclinado à meditação, abriu-se à ação da graça, que o levava a escolher sempre a virtude ao prazer, as coisas de Deus às do mundo.

Aos 19 anos era alto, bem proporcionado, com profundos olhos azuis iluminando um rosto varonil, emoldurado por loira cabeleira. Seu porte era ao mesmo tempo nobre e modesto.

Certo dia, numa recepção social, a figura de uma jovem o atraiu e o perturbou. Imediatamente, para afastar aquela visão que se lhe tornou quase obsessiva, arrojou-se num tanque de água gelada e ali permaneceu até que o tirassem. Fez então o propósito de consagrar-se totalmente a Deus.

No ano de 1098, num vale chamado Cister, São Roberto fundara um ramo reformado da famosa abadia de Cluny, já então em decadência. A severidade de sua regra foi afastando os candidatos, enquanto seus monges antigos iam morrendo. Santo Estevão Harding, sucessor de São Roberto, pensava em fechar definitivamente as portas da abadia, quando um dia trinta nobres cavaleiros apareceram, pedindo para entrar na Ordem. Eram Bernardo com irmãos, um tio e amigos, que ele tinha convencido a acompanhá-lo. Mais tarde seriam seguidos pelo irmão mais novo e o próprio pai, enquanto a única irmã também se dedicaria a Deus, morrendo em odor de santidade.

O dom de persuasão desse homem cheio do amor de Deus era tão intenso, que em suas pregações as mulheres seguravam os maridos e as mães escondiam os filhos, por medo de que o seguissem.

Bernardo entregou-se à prática da regra como monge consumado. Pelo fato de haver nos caminhos da virtude diversas vias para se atingir a santidade, Bernardo embrenhou-se com total radicalidade na bela via para a qual se sentia chamado por Deus. Ele dominou de tal maneira seus sentidos, que comia sem sentir o sabor, ouvia sem ouvir. Dominou o paladar a tal ponto, que uma vez bebeu sem perceber um copo de azeite, em vez de água. Formou para si uma cela interior, na qual vivia tão recolhido, que depois de dois anos não sabia se o teto da abadia era abobadado ou liso, e se havia janelas na capela. Sua comunicação com Deus era contínua, de maneira que mesmo enquanto trabalhava não perdia seu recolhimento interior.

Santo Estevão Harding via maravilhado aquele jovem que possuía maturidade e prudência de ancião. E apenas dois anos depois de sua entrada em Cister, envia-o como superior de um grupo de monges para fundar a abadia de Claraval. Bernardo tinha apenas 25 anos de idade.

A nova abadia ficava num lugar inculto e agreste, sendo por isso chamada de Vale do absinto. São Bernardo transformá-la-ia em Vale Claro, ou Claraval, espalhando sua fama por toda a França e, depois, pela Europa. Muitos eram os nobres que iam visitá-lo e acabavam ficando seus discípulos.

A pobreza da abadia no início era espantosa: não tinham senão ervas silvestres para comer; mal se vestiam, sofrendo todas as intempéries. Essa era a riqueza desses verdadeiros heróis, que tudo tinham abandonado por Cristo.

O modo como Bernardo atraía vocações para Claraval era milagroso. Por exemplo, todo um grupo de nobres que quiseram um dia por curiosidade conhecê-lo. Atuava como se fosse um poderoso ímã para atrair as almas a Deus.

A atração mais estrondosa foi a de Henrique de França, irmão do Rei Luís VII. Esse príncipe foi a Claraval tratar de um importante assunto com São Bernardo. Quando ia sair, pediu para ver todos os monges, a fim de se recomendar às orações deles. Bernardo disse-lhe que logo experimentaria a eficácia dessas orações. No mesmo dia Henrique sentiu-se tão tocado pela graça que, esquecendo-se de que era então o sucessor da coroa, quis ficar em Claraval. Mais tarde foi Bispo de Beauvais, e depois Arcebispo de Reims.

A missão pública de São Bernardo quase não teve similar na História. Por exemplo, ele foi chamado para combater o cisma do antipapa Anacleto II. Percorreu então a Europa, conquistando reis e reinos para a justa causa. Ele foi a alma dos Concílios de Latrão, de Troyes e de Reims, convocados pelo Papa para tratar dos negócios da Igreja. Opôs-se ao Imperador alemão Lotário II que, aproveitando-se do cisma, queria receber as investiduras das igrejas. Bernardo não só o fez desistir disso, mas também o convenceu a reconhecer o Papa verdadeiro.

A pregação de São Bernardo era acompanhada em geral por um grande número de milagres. Livrava possessos do demônio, restituía a vista a cegos, movimentos aos paralíticos, voz aos mudos, audição aos surdos. Praticamente não podia andar sem ser seguido por uma multidão de doentes e de sãos que queriam tocá-lo. Para se proteger, precisava falar à multidão de uma janela.

Além da questão do cisma, não houve ponto importante na Igreja daquela época em que Bernardo não tivesse intervido. Ele foi o protetor da fé contra as heresias de Pedro Abelardo e Arnaldo de Bréscia, que queriam renovar os antigos erros de Ario, Nestório e Pelágio. Combateu também os erros de Gilberto de la Porée, Bispo de Poitiers.

Mas a principal heresia que combateu foi a de um monge apóstata, Henrique, que movia guerra cruel à Igreja no Languedoc, atacando os Sacramentos e os sacerdotes fiéis.

O santo abade foi também chamado a pregar a II Cruzada, o que ele fez com a força de sua eloquência e o poder de seus milagres. Conta seu secretário que na Alemanha ele curou, num só dia, nove cegos, dez surdos ou mudos, dez mancos ou paralíticos. Em Mayence, a multidão que o rodeou foi tão grande, que o Rei Conrado foi obrigado a tomá-lo em seus braços para tirá-lo ileso da igreja.

A devoção de Bernardo para com Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Maria eram incomparáveis. Certo dia, entrando pelo corredor central da catedral de Speyer, na Alemanha, em meio do Clero e do povo, ele se ajoelhou em três ocasiões, exclamando na primeira: “Ó clemente!”; na segunda: “Ó piedosa!”; e na terceira: “Ó doce Virgem Maria!”. A Igreja acrescentou depois estas invocações ao final da Salve Rainha.

Muitíssimo mais se poderia falar deste Santo excepcional. Estando para morrer, seus filhos espirituais faziam violência aos Céus para segurá-lo na Terra. Ele se lamentou docemente: “Por que desejais reter aqui um homem tão miserável? Usai de misericórdia para comigo, eu vos peço, e deixai-me ir para Deus”. Isso ocorreu no dia 20 de agosto de 1153.

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