Em 1538, o santuário de Nossa Senhora de Walsingham foi despojado de seus bens, e a imagem da Santíssima Virgem foi levada a Londres para ser queimada. Os edifícios do antigo priorado, durante séculos procurados por peregrinos de diferentes condições sociais, passaram a servir como dependências agrícolas. O que então parecia o encerramento definitivo de uma devoção iniciada na Idade Média, contudo, não impediu que o culto fosse retomado séculos mais tarde.
A Santa Casa de Walsingham
A origem da invocação remonta a 1061. Segundo a tradição, Richeldis de Faverches, senhora de um domínio próximo à aldeia de Walsingham, no condado inglês de Norfolk, foi conduzida em espírito a Nazaré. Ali, Nossa Senhora lhe teria pedido que construísse na Inglaterra uma réplica da Santa Casa na qual a Virgem havia nascido, crescido e recebido o anúncio da Encarnação de Nosso Senhor.
Richeldis atendeu ao pedido e mandou erguer uma casa segundo o modelo que lhe fora mostrado. O pequeno edifício media aproximadamente 7,16 metros por 3,91 metros. Sua fama difundiu-se gradualmente, atraindo a atenção dos fiéis.
Em 1150, cônegos agostinianos construíram um priorado ao lado da Santa Casa. Walsingham consolidou-se então como destino de peregrinação. Durante séculos, pessoas de todas as classes sociais acorreram ao lugar, que também recebeu numerosas ofertas de grande valor.
A supressão do santuário
A ruptura ocorreu no século XVI, durante as transformações religiosas impostas por Henrique VIII. Em 1534, Walsingham esteve entre as primeiras casas religiosas a assinar o Juramento de Supremacia, pelo qual o rei era reconhecido como chefe da Igreja na Inglaterra. Os que se opuseram foram executados.
Quatro anos depois, o santuário foi privado de seus objetos preciosos. A imagem de Nossa Senhora foi retirada e conduzida a Londres para ser destruída pelo fogo. As construções perderam sua finalidade religiosa e, durante os três séculos seguintes, foram utilizadas como instalações rurais.
A destruição material interrompeu as peregrinações e dispersou a vida religiosa organizada em torno da Santa Casa. Não apagou, porém, a memória da invocação mariana ligada a Walsingham.
O retorno das peregrinações
A restauração começou no final do século XIX. Em 1896, Charlotte Boyd adquiriu a antiga capela conhecida como Slipper Chapel e a doou à Abadia de Downside. No ano seguinte, o Papa Leão XIII restabeleceu o antigo santuário de Nossa Senhora de Walsingham, permitindo a retomada das peregrinações.
Em 1922, uma imagem de Nossa Senhora voltou a ser entronizada. Iniciou-se também um período de cooperação entre católicos e anglicanos em torno do local. Em 1981, começou a construção da Capela da Reconciliação, projeto desenvolvido com a participação das duas confissões.
A celebração de Nossa Senhora de Walsingham foi restabelecida no ano 2000. Em 2012, o Ordinariato Pessoal da Cátedra de São Pedro, destinado a grupos de tradição anglicana recebidos na Igreja Católica, recebeu como padroeira a Bem-Aventurada Virgem Maria sob o título de Nossa Senhora de Walsingham.
Uma devoção preservada através dos séculos
A história de Walsingham reúne três momentos distintos: o nascimento de uma devoção em torno da lembrança da casa de Nazaré, a destruição do santuário durante a crise religiosa inglesa e a retomada gradual do culto mariano. Entre a retirada da antiga imagem e o retorno das peregrinações transcorreram mais de três séculos.
A pequena construção desejada por Richeldis evocava o ambiente doméstico em que Nossa Senhora recebeu o anúncio do Anjo e consentiu no mistério da Encarnação. Foi essa ligação com Nazaré que conferiu unidade à devoção, mesmo depois da perda dos edifícios e objetos originais. Restaurado o culto, Walsingham voltou a ser um lugar de peregrinação dedicado à Mãe de Deus.




