A Terra Santa no tempo de Jesus se dividia em quatro províncias: de um lado do Rio Jordão, a Judeia, a Samaria e a Galileia; e do outro, a Pereia.

Naquele tempo havia na Galileia uma faixa de cidades e povoações em volta do Mar da Galileia – também conhecido como mar ou lago de Tiberíades, ou ainda Lago de Genesaré –, entre as quais Cafarnaum, Betsaida e Genesaré, repetidamente mencionadas nos Evangelhos.

O Apóstolo São Tiago era natural de Betsaida, não longe de onde o Rio Jordão lança suas águas naquele mar. Irmão de João e filho de Zebedeu, que exercia a profissão de pescador naquele lago, na companhia de seus dois filhos (Mt 4,21-22), seu pai vivia com relativa abastança, já que tinha trabalhadores assalariados em seu serviço (Mc 1,19-20), possuía pelo menos uma barca (Mt 4, 21) e pescava com rede varredeira (Mc 4, 21; Lc 5, 6 e Jo 21, 6), e não à maneira dos pescadores pobres. Ademais, sua esposa Salomé servia a Jesus com sua fazenda (Mc 15, 40-41).

Devido à facilidade com que deixa seus filhos seguirem Jesus quando Ele os chama, é lícito presumir que Zebedeu era dos judeus fiéis que aguardavam a vinda de Messias.

Deve-se igualmente supor que os filhos de Zebedeu fossem associados na pesca com Pedro e André (Mt 4,18-21 e Jo 1,44; 21,3-7), pois viviam unidos também por estreita amizade e pelo mesmo fervor na prática da Lei, sendo todos discípulos de João Batista.

Por sua vez, Salomé é mencionada em três cenas do relato evangélico. Era uma das Santas Mulheres que seguiam a Nosso Senhor e O socorriam com seus bens (Mt 27:55). Foi ela também uma das que O acompanharam até o alto da Cruz (Mc 15:40). E, depois da Ressurreição, uma das que, indo a seu sepulcro, teve a visão do Anjo anunciando a Ressurreição (Mc 16:6ss). Sua festa se comemora no dia 22 de outubro.

Segundo os Atos (4:13), é provável que Tiago e João, seu irmão, não tenham recebido a educação técnica das escolas rabínicas. Nesse sentido, eram iletrados e sem nenhuma posição oficial entre os judeus. Mas, de acordo com o nível social de seus pais, devem ter sido homens de educação ordinária, no comum modo da vida judia

Segundo Santo Epifânio, citado por Baronius, São Tiago foi um dos Apóstolos que guardou a virgindade, sendo esta outra coroa de glória merecida pelo irmão do discípulo que Jesus amava.

Nas quatro listas de relação dos apóstolos, Pedro e André, Tiago e João formam sempre o primeiro grupo citado, portanto com certa proeminência sobre os outros Apóstolos. Mas Pedro, Tiago e João são os escolhidos entre os escolhidos. Assim, só eles foram admitidos a presenciar o milagre da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5:37; Lc 8:51), a Transfiguração (Mc 9:1; Mt 17:1; Lc 9:28), e a agonia no Getsemani (Mt 26:37; Mc 14:33).

São João Evangelista foi, com Santo André, um dos dois primeiros discípulos a terem contacto com Nosso Senhor. É muito provável que ele tenha logo levado seu irmão para conhecer o Messias, pois em seguida vemos Tiago como discípulo de Jesus.

Por ocasião da primeira pesca milagrosa narrada por São Lucas (Lc 5, 1-10), Simão e os que com ele estavam − entre eles os filhos de Zebedeu − ficaram “assombrados” com a pesca que tinham feito. O Divino Mestre disse então a Simão Pedro: “‘Não temas; doravante serás pescador de homens’. E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e O seguiram” (Lc 5, 1-10).

Embora os quatro Apóstolos tivessem, como vimos, seguido Nosso Senhor antes, entretanto não haviam abandonado de vez seu ofício. Ressaltemos que Nosso Senhor, falando a São Pedro, lhe diz no singular: “Serás pescador de homens”. Mas o evangelista acrescenta, no plural, “deixaram tudo e O seguiram”. O que supõe que Santo André, que com ele estava, também seguiu a Nosso Senhor.

Logo em seguida Jesus “viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo. Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e o seguiram (Mc 1, 14-20).

Desta vez os quatro apóstolos abandonaram tudo definitivamente, seguindo o Mestre e não se separando mais dele (Mc 1, 14-20; cf. Mt 4, 18-22; Lc 5, 1-10).

A esse núcleo inicial foram acrescentados outros, até perfazer o número de doze − como as Doze Tribos de Israel −, completando assim o Colégio Apostólico.

Aproximando-se o tempo em que Nosso Senhor deveria sofrer a Paixão, resolveu ir a Jerusalém. Como deveria passar por uma povoação de samaritanos, enviou alguns discípulos na frente para Lhe prepararem uma pousada. Ora, os samaritanos se opunham muitas vezes à passagem dos peregrinos que iam a Jerusalém, por entenderem que se devia honrar a Deus unicamente em sua cidade. Por isso, não os receberam.

Foi tanta a indignação que Tiago e João sentiram com aquela descortesia e afronta feita ao Divino Mestre, que disseram a Jesus: “Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?” (Lc 9, 52-56).

Muitos supõem que é pela alusão a essa impetuosidade de caráter dos dois irmãos que Jesus lhes deu o nome de Boanerges, que quer dizer, filhos do trovão (Cfr. Mc 3, 17). A origem galileia de São Tiago explica de certo modo a energia da têmpera e a veemência de caráter que lhe mereceu, e a São João, esse nome. A raça galileia era religiosa, rígida, industriosa, brava e a maior defensora da nação judia.

São Tiago, como os outros Apóstolos, recebeu do Messias a admirável promessa: “Em verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19, 28).

Entretanto essa promessa para depois da morte não satisfazia plenamente os Apóstolos, que queriam saber qual seria sua recompensa já nesta terra. Assim foi que Salomé, mãe de Tiago e João, disse um dia a Jesus: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda” (Mt 20, 21). Os dois irmãos reforçaram o pedido da mãe (Cfr. Mc 10:30).

Retorquiu Jesus, referindo-se à sua Paixão: “Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que vou beber, ou ser batizados no batismo em que vou ser batizado?” (Mc 10, 38).

Tiago e João responderam imediatamente: “Podemos”. Ao que Jesus redarguiu: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados no batismo em que devo ser batizado. Mas, quanto ao assentardes à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim: o lugar compete àqueles a quem está destinado” (Mc 10, 40).

Os dois irmãos realmente beberam o cálice e foram batizados no batismo de sangue, pois São Tiago foi o primeiro apóstolo a ser martirizado, e São João, colocado numa caldeira de óleo fervente, saiu ileso e rejuvenescido.

Quando chegou o momento de sua Paixão, Cristo Jesus foi orar no Horto das Oliveiras e, tomando consigo a Pedro, Tiago e João, afastou-se um pouco para rezar. Começou então “a ter pavor e a angustiar-se” (Mc 14). Entretanto os três apóstolos dormiram em vez de vigiar e orar; depois, quando chegaram Judas e os soldados dos fariseus, fugiram covardemente no momento em que Jesus mais precisava deles (Mc 14, 50).

São Tiago assistiu, depois da Ressurreição, a todas as aparições do Salvador, e à sua gloriosa Ascensão, bem como recebeu o Espírito Santo em Pentecostes. E desaparece do relato bíblico, reaparecendo só na Epístola de São Paulo aos Gálatas, quando este diz que, no chamado Concílio de Jerusalém, por volta do ano de 51, lá encontrou “Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas” (Gl 2, 9-10).

Vemos finalmente nos Atos (12, 2) que Herodes, chamado Agripa, mandou decapitar São Tiago para agradar aos judeus. Isso teria ocorrido nove ou dez anos depois da Ascensão do Senhor aos céus.

O que fez São Tiago nesse intervalo de tempo?

Diz a tradição das Igrejas da Espanha que, depois da morte de Santo Estevão, São Tiago pregou algum tempo na Judéia, na Samaria, na Síria e nas províncias vizinhas, e que em seguida, por permissão divina, atravessou o Mediterrâneo e chegou à Espanha, onde pregou o nome de Jesus. Mas quis a Providência Divina que ele convertesse muito poucos à verdadeira fé.

Essa tradição foi de certo modo aceita pela Santa Igreja, que a inseriu nas Matinas da festa desse apóstolo.

Acrescenta essa tradição que São Tiago, estando um dia com alguns discípulos na região chamada Celtibéria, na cidade de Saragoça, às margens do Rio Ebro, muito prostrado e abatido pela recusa dos espanhóis ao Evangelho, ouviram de repente coros angélicos cantarem alternadamente: “Ave Maria, gratia plena”. Viram então Nossa Senhora, que ainda estava viva, rodeada de anjos sobre um pilar de mármore. Ela pediu ao apóstolo que construísse no local um oratório onde seria muito venerada, pois essa região lhe seria muito devota até o fim dos séculos.

Surgiu então o grande santuário de Nossa Senhora do Pilar que, através dos séculos, foi palco de inúmeros milagres.

São Tiago teria depois voltado para Jerusalém, onde participou do primeiro concílio da Igreja e foi morto por Herodes.

Segundo tradição muito arraigada na Espanha, depois da morte do Apóstolo, discípulos seus que estavam na Cidade Santa levaram seus despojos para a Galícia, desembarcando no porto de Iria Flávia, hoje Padrão. Lá, devido ao paganismo da época e ao fato de haver muitos poucos cristãos, seu corpo caiu no olvido. Foi só em princípios do século IX, reinando nas Astúrias Dom Afonso II, o Casto, que por revelação divina a santa relíquia foi descoberta. Esse rei mandou transportá-la a Compostela.

Com o tempo o santuário de Santiago de Compostela se tornou um dos três lugares de peregrinação mais afamados na Idade Média, logo depois de Roma e Jerusalém.

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