O chão da adega estava seco e o barril, cheio de vinho. Pouco antes, um criado deixara o conteúdo do recipiente se perder e, para escapar à responsabilidade, acusara o pequeno Carlos Antônio. Levado pelo tio ao local onde deveria ficar comprovada a culpa, o menino viu sua inocência manifestar-se de maneira extraordinária. Diante do ocorrido, o verdadeiro responsável confessou a falta.
Esse episódio marcou a infância de São Pacífico de San Severino, nascido em 1º de março de 1653, em San Severino, na região italiana das Marcas de Ancona. Batizado com o nome de Carlos Antônio, perdeu os pais ainda muito jovem e foi entregue aos cuidados de um tio materno de temperamento áspero e severo.
O menino recebeu os trabalhos domésticos mais humildes e foi tratado com desprezo pelos criados da casa. Estes se aproveitavam da severidade do tio para atribuir-lhe desordens e faltas que não cometera. Carlos suportava as injustiças recordando as humilhações de Nosso Senhor. Em vez de responder com revolta, cumpria prontamente as tarefas que lhe eram impostas e aceitava com paciência a pouca estima que lhe demonstravam.
A vocação franciscana
Aos 17 anos, depois de muitas orações, Carlos decidiu consagrar-se inteiramente ao serviço de Deus na Ordem de São Francisco. Apresentou-se aos frades da Província das Marcas e pediu humildemente que o recebessem. Na vida religiosa, tornou-se conhecido como Frei Pacífico.
Como sacerdote, desejava dedicar todas as suas forças ao bem espiritual do próximo. Entretanto, quando ainda não tinha completado 35 anos, foi atingido por uma enfermidade dolorosa que o obrigou a interromper os trabalhos apostólicos e a permanecer recolhido no convento.
Para uma alma tomada pelo zelo da salvação dos homens, a impossibilidade de exercer o ministério ativo representava uma provação particularmente dura. São Pacífico, porém, acolheu-a sem queixas. Quando lhe perguntavam sobre os sofrimentos, respondia com serenidade: “Deus o quer; faça-se a sua vontade.”
Um apostolado sustentado pelo sofrimento
As enfermidades, longe de afastá-lo de Deus, aprofundaram sua vida de oração. Úlceras dolorosas e, mais tarde, a perda da visão não o impediam de participar, de dia e de noite, dos exercícios religiosos. Às dores da doença acrescentava mortificações voluntárias: observava os sete períodos de jejum próprios da tradição franciscana, jejuava a pão e água às sextas-feiras e aos sábados, assim como nas vigílias das festas de Nossa Senhora.
Oferecia orações e penitências pelas necessidades da Igreja, pela conversão dos pecadores e pela libertação das almas do Purgatório. Aquilo que exteriormente poderia parecer uma interrupção de sua missão tornou-se, assim, outra forma de apostolado. A fecundidade de sua vida já não dependia da atividade visível, mas da união com Deus e da oferta paciente do sofrimento.
A estima despertada por sua conduta levou os religiosos a elegê-lo guardião do convento de Nossa Senhora das Graças, em sua cidade natal. No governo da comunidade, procurou conduzir os frades, pela palavra e pelo exemplo, à observância fiel da regra e das práticas próprias da vida religiosa.
O pai dos aflitos e atribulados
Mesmo limitado pela doença, São Pacífico aproveitava todas as ocasiões para ensinar a fé. Quando encontrava crianças brincando nos claustros, ensinava-lhes atos de fé e de contrição, além das virtudes cristãs. Ao deparar-se no campo com pequenos pastores que cuidavam dos rebanhos, conversava afetuosamente com eles e os instruía na doutrina e nas práticas da religião.
Sua disposição para aliviar as consciências tornou-se conhecida. Pecadores e pessoas atribuladas passaram a procurá-lo em grande número. São Pacífico recebia as desventuras alheias como se fossem suas e, com palavras bondosas, ajudava os que sofriam a enfrentar as provações com coragem e resignação à vontade divina.
Por essa caridade, ficou conhecido como o pai amoroso dos aflitos e atribulados. Pessoas de diferentes condições recorriam a ele em busca de orientação e consolo. Aquele que na infância experimentara a humilhação e a injustiça aprendera a reconhecer com particular solicitude as dores escondidas dos outros.
Quando a perda da visão e da audição, somada às úlceras dos membros, já não lhe permitiu celebrar a Santa Missa, passou a permanecer quase todo o tempo diante do sacrário. Assim continuou até ser obrigado a recolher-se definitivamente ao leito.
Morte e glorificação
Depois de receber os últimos sacramentos com grande fervor, São Pacífico faleceu em 24 de setembro de 1721. Seu corpo foi sepultado na capela dos Frades Menores, em San Severino. Numerosos milagres foram atribuídos à sua intercessão.
O Papa Pio VI beatificou-o em 1785. Em 25 de maio de 1839, o Papa Gregório XVI inscreveu-o no catálogo dos santos.
A vida de São Pacífico mostra como a fidelidade à vocação não se mede apenas pela quantidade de obras exteriores. Privado de atividades que desejava realizar, ele não considerou inúteis os anos de enfermidade. Pela oração, pela penitência, pela formação dos mais jovens e pelo consolo oferecido aos atribulados, transformou a própria fraqueza em serviço perseverante a Deus e ao próximo.




