Usina-de-açucarAlguns leitores da minha última crônica, que imagino serem economistas, protestaram por eu ter aplicado à sua douta confraria a expressão animais falantes. Mas se bem me lembro, limitei-me a qualificar com este rótulo profissionais que um eminente escritor acusa de falarem do que não entendem. De minha parte, proponho um acordo amigável e justo: se pararem de falar do que não entendem, suprimirei a segunda parte da expressão, pois aí eles terão deixado de ser falantes.

Este acordo amigável estimula-me a voltar aos dois ecos do título, relatando alguns esforços para reaproveitar resíduos que eram lixo incômodo até pouco tempo atrás. As usinas de açúcar e álcool, por exemplo, lidam com dois resíduos volumosos: o bagaço e o vinhoto. Pesquisas dispendiosas levaram a um sistema de queima do bagaço, que já está gerando energia elétrica para as próprias usinas; e o vinhoto já é quimicamente transformado em adubo para a plantação de cana.

O agronegócio pode aumentar muito os próprios lucros, desenvolvendo tecnologias de reaproveitamento de resíduos gerados pela atividade. Em cultivos como café, arroz, trigo, soja, milho, já se aproveitam para o enriquecimento do solo os resíduos da colheita e beneficiamento. Com medidas assim, a produção brasileira e mundial de gêneros alimentícios vem crescendo exponencialmente, confirmando a previsão de Norman Borlaug sobre uma revolução verde.

(Um momento! Revolução verde não é a dos ecologistas ou ambientalistas, autodenominados verdes?)

Caro leitor mal informado, esses verdes aí só têm de verde uma roupagem de marketing, com a qual pretendem reciclar a fracassada revolução vermelha. Pense numa melancia – vermelha por dentro, verde por fora – e ficará claro o que eu disse. Entenda de uma vez por todas: se os ambientalistas quisessem tornar o mundo mais verde, estariam apoiando o agronegócio, ao invés de criar-lhe tantos obstáculos artificiais e sem fundamento. Poderiam também propor soluções para coleta, tratamento e reciclagem do lixo urbano, por exemplo, e até apresentar um projeto inspirado em preceitos econômicos e ecológicos armazenados no bestunto. O resultado para os investidores e para o meio ambiente poderia ser tão bom quanto o do agronegócio. Mas é claro que eu me absteria de investir neles um único centavo.

Até literatos já cuidaram do assunto. Em uma das muitas digressões do caudaloso romance Os miseráveis, Victor Hugo descreve em detalhes a rede de esgotos de Paris. O objetivo, para efeito do enredo, é mostrar o trajeto de Jean Valjean carregando nos ombros o personagem Marius, ferido e inconsciente. Mas Hugo aproveita para indicar o enorme tesouro de adubo orgânico que ali se escoa e se desperdiça, ao invés de ser canalizado para a produção agrícola.

Não sou o único, portanto, a indicar o lixo como fonte de lucro. Os eco-eco estarão assim em boa companhia, além da minha, se usarem sua reconhecida criatividade protestatória em favor de um abrangente projeto de reaproveitamento do lixo. Criarão soluções, em vez de criar dificuldades. Se o fizerem, comprometo-me a estender aquele meu acordo amigável à primeira palavra da expressãoanimais falantes.

Uma dificuldade: O setor rural produz, beneficia e reaproveita grande volume de resíduos no mesmo local, mas nas cidades a fonte do lixo é descentralizada. São milhares, ou até milhões dessas fontes, pois cada residência, cada ponto comercial, cada pessoa produz diariamente um pouco de lixo (aproximadamente um quilo e meio por pessoa), e não é fácil conseguir que ele já saia de uma residência separado por categorias adequadas ao reaproveitamento. Nada impossível, desde que a população receba uma vantagem compensadora por esse trabalho extra, num empreendimento em que todos podem lucrar. Muito esquematicamente, funcionaria assim:

1 – A prefeitura suprime a taxa de coleta de lixo, beneficiando os contribuintes.

2 – Em troca desse benefício, as residências passam a separar o lixo de acordo com as normas definidas para a reciclagem.

3 – A empresa recicladora fornece os recipientes adequados para a triagem, faz por conta própria a coleta e recebe o lucro na venda do que for reciclado.

A tarefa seria gigantesca e difícil, mas o que pode ser decisivo para fazê-la fracassar é o mau odor. Não me refiro ao odor do próprio lixo, que será reduzido ao invés de aumentar. O que costuma inviabilizar iniciativas assim é outro mau odor, cobiçado e disputado por muitos nos contratos de coleta de lixo. A taxa mencionada no item 1 gera uma disputadíssima fedentina, irresistível para urubus de todas as plumagens.

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