epa05060413 A view of Saint Peter's Basilica facade illuminated as part of a contemporary public art projection entitled 'Fiat Lux: Illuminating our Common Home' to Pope Francis on the opening day of the Extraordinary Jubilee of Mercy, in Rome, Italy, 08 December 2015. EPA/GIUSEPPE LAMI
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A imagem que ficará associada à abertura do Jubileu extraordinário da Misericórdia não  é a cerimônia antitriunfalista celebrada pelo Papa Francisco na manhã de 8 de dezembro, mas o retumbante espetáculo Fiat lux: Illuminating Our Common Home, que concluiu a referida jornada, inundando de sons e de luzes a fachada e a cúpula de São Pedro.

Ao longo do show, patrocinado pelo Grupo do Banco Mundial, imagens de leões, tigres e leopardos de proporções gigantescas se projetavam sobre a fachada de São Pedro, que se eleva precisamente sobre as ruínas do circo de Nero, onde as feras devoravam os cristãos. Graças ao jogo de luzes, a basílica dava a impressão de estar de cabeça  para baixo, de dissolver-se e submergir-se. Sobre a fachada apareciam peixes-palhaço e tartarugas marinhas, quase evocando a liquefação das estruturas da Igreja,  privada de qualquer elemento de solidez.  Uma enorme coruja e estranhos  animais voadores sobrevoavam em torno da cúpula, enquanto monges budistas caminhando pareciam indicar uma via de salvação alternativa ao Cristianismo. Nenhum símbolo religioso, nenhuma referência  ao  Cristianismo; a Igreja cedia lugar à natureza soberana.

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Andrea Tornielli escreveu que não é preciso escandalizar-se porque, como documenta o historiador da arte Sandro Barbagallo em seu livro Gli animali nell’arte religiosa. La Basilica di San Pietro (Libreria Editrice Vaticana, 2008), foram muitos os artistas que no decurso dos séculos representaram uma luxuriante fauna em torno da sepultura de Pedro. Mas se a Basílica de São Pedro é um “zoo sagrado”, como a define com irreverência o autor dessa obra, não é porque os animais ali representados estejam recluídos num recinto sagrado, mas porque o significado que a arte atribuiu àqueles animais é sagrado, isto é, ordenado a um fim transcendente.

Com efeito, no Cristianismo os animais não são divinizados, mas valorizados em função do fim para o qual foram criados por Deus: o serviço do homem. Diz o Salmista: “Deste-lhe o mando sobre as obras das tuas mãos, sujeitaste todas as coisas debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e todos os bois e, além destes, os outros animais do campo” (Ps 8, 7-9). O homem foi posto por Deus como vértice e rei da criação, e tudo deve ser ordenado em função dele, para que, por sua vez, ele ordene tudo a Deus como representante do universo (Gn 1,  26-27). Deus é o fim último do universo, mas o fim imediato do universo físico é o homem. “De certo modo, nós somos o fim de todas as coisas”, afirma Santo Tomás (In II Sent., d. 1, q. 2, a. 4, sed contra), porque “Deus fez todas as coisas para o homem” (Super Symb. Apostolorum, art. 1).

Por outro lado, a simbologia cristã atribui aos animais um significado emblemático. Não preocupa ao Cristianismo principalmente a extinção dos animais ou o seu bem-estar, mas o significado último e profundo de sua presença. O leão simboliza a força e o cordeiro a benignidade, para nos lembrar a existência de virtudes e perfeições diversas, que só Deus possui por inteiro. Na Terra, uma gama prodigiosa de seres criados, da matéria inorgânica até o homem, possui uma essência e uma perfeição íntima, que se expressa mediante a linguagem dos símbolos.

A picture of a panda, part of an art projection featuring images of humanity and climate change artistically rendered by Obscura Digital, is projected onto the facade of St. Peter's Basilica, as part of an installation entitled "Fiat Lux: Illuminating our Common Home" as a gift to Pope Francis on the opening day of the Extraordinary Jubilee, at the Vatican, December 8, 2015. REUTERS/Stefano Rellandini FOR EDITORIAL USE ONLY. NO RESALES. NO ARCHIVE. - RTX1XT46
REUTERS/Stefano Rellandini

O ecologismo apresenta-se como  uma visão do mundo que transtorna essa escala hierárquica,  eliminando Deus e destronando o homem. Este último é posto em pé de absoluta igualdade com a natureza, numa relação de interdependência não só com os animais, mas também com os componentes inanimados do ambiente que o circunda: montanhas, rios, mares, paisagens, cadeias alimentares, ecossistemas. O pressuposto dessa cosmovisão é a  dissolução de toda linha divisória entre o homem e o mundo. A Terra forma com a sua biosfera uma espécie de entidade cósmica geoecológica unitária. Ela se torna algo mais que uma “casa comum”: representa uma divindade.

Basilica-de-Sao-Pedro-profanada-8Há cinquenta anos, quando se encerrou o Concílio Vaticano II, o tema dominante naquela quadra histórica era um certo “culto ao homem”, contido na fórmula “humanismo integral” de Jacques Maritain. O livro do filósofo francês, com esse título, é de 1936, mas sua maior influência foi sobretudo quando um leitor entusiasta, Giovanni  Battista Montini, eleito Papa com o nome de Paulo VI,  quis  fazer dele a bússola de seu pontificado. Na homilia da Missa de 7 de dezembro de 1965, Paulo VI recordou que no Vaticano II se produziu o encontro entre “o culto de Deus que quis ser homem” e “a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus”.

Cinquenta anos depois, assistimos à passagem do humanismo integral à ecologia integral; da Carta internacional dos direitos do homem à dos direitos da natureza. No século XVI, o humanismo havia recusado a civilização cristã medieval em nome do antropocentrismo. A tentativa de construir a Cidade do Homem sobre as ruínas da Cidade de Deus fracassou tragicamente no século XX, e baldas foram as tentativas de cristianizar o antropocentrismo sob o nome de humanismo integral. A religião do homem é substituída pela da Terra: o antropocentrismo, criticado por seus “desvios”, é substituído por uma nova visão ecocêntrica. A Ideologia de Gênero, que dissolve toda identidade e toda essência, insere-se nessa perspectiva panteísta e igualitária.

É um conceito radicalmente evolucionista, que coincide em grande medida com o de Teilhard de Chardin. Deus é a “autoconsciência” do universo que, evoluindo, torna-se consciente de sua evolução. Não é casual a citação de Teilhard no parágrafo 83 da Laudato sì, encíclica do Papa Francesco na qual filósofos como Enrico Maria Radaelli e Arnaldo Xavier da Silveira salientaram pontos em desacordo com a Tradição Católica. E o espetáculo Fiat Lux foi apresentado como um “manifesto ecologista” que pretende traduzir em imagens a encíclica Laudato sì.

Basilica-de-Sao-Pedro-profanadaAntonio Socci o definiu no jornal “Libero” como“uma encenação gnóstica e neopagã com uma inequívoca mensagem ideológica anticristã”, observando que “em São Pedro, na festa da Imaculada Conceição, em vez de celebrar a Mãe de Deus, preferiram a celebração da Mãe Terra, para propagar a ideologia dominante, a da ‘religião do clima e da ecologia’, neopagã e neomalthusiana, apoiada pelas potências do mundo. É uma profanação espiritual (porque aquele lugar — lembremo-nos — é um lugar de martírio cristão)”.

Por sua vez, escreveu Alessandro Gnochi em “Riscossa Cristiana”: “Portanto, não foi o ISIS que profanou o coração da Cristandade, nem foram os extremistas do credo laico os que danificaram o credo católico, nem os artistas blasfemos e coprolálicos os que contaminaram a fé de tantos cristãos. Não era preciso perquisição ou detectador de metal para impedir o ingresso dos vândalos na cidadela de Deus:  eles estavam no interior das muralhas e já tinham acionado a sua bomba multicolor de transmissão via satélite no calor da sala de controle.”

A picture is projected on the cupola of St. Peters Basilica during the show Fiat Lux : Illuminating Our Common Home, on December 8, 2015 at the Vatican. Images by some of the world's greatest environmental photographers, including Sebastião Salgado, Joel Sartore, Yann Arthus-Bertrand and Louie Schwartzberg, are projected in solidarity with COP21 talks in Paris. It is also part of the inauguration of the Roman Catholic Churchs yearlong Jubilee of Mercy, which starts today. AFP PHOTO / TIZIANA FABI / AFP / TIZIANA FABI (Photo credit should read TIZIANA FABI/AFP/Getty Images)
TIZIANA FABI/AFP/Getty Images

Os fotógrafos, os desenhistas gráficos e os publicitários que realizaram o Fiat Lux sabem o que representa para os católicos a Basílica de São Pedro, imagem material do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Os jogos de luz que iluminaram a Basílica tinham uma meta simbólica, antitética àquela expressa por todas as luzes, lâmpadas e fogos que transmitiram ao longo dos séculos o significado da luz divina. Esta luz estava ausente no dia 8 de dezembro. Entre as imagens e luzes projetadas na Basílica, faltavam as de Nosso Senhor e da Imaculada Conceição, cuja festa se celebrava. São Pedro foi imersa na falsa luz trazida pelo anjo rebelde, Lúcifer, príncipe deste mundo e rei das trevas.

A palavra “luz divina” não é apenas uma metáfora, mas uma realidade, como realidade são as trevas que envolvem hoje o mundo. E nesta vigília de Natal a humanidade aguarda o momento em que a noite se iluminará como o dia, “nox sicut dies illuminabitur” (Salmo 11), quando se  cumprirão as promessas feitas pela Imaculada em Fátima.

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(*) Fonte: Corrispondenza Romana

Este texto foi traduzido do original italiano por Hélio Dias Viana.

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Roberto De Mattei
Escritor italiano, autor de numerosos livros, traduzidos em diversas línguas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja. Professor de História Moderna e História do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, conferencista, escritor e jornalista, Roberto de Mattei é presidente da Fondazione Lepanto. Entre 2004-2011 foi vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália. Autor da primeira biografia de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulada “O Cruzado do Século XX”. É também autor do best-seller “Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita”.

9 COMENTÁRIOS

  1. No me parecen las criticas negativas a ese espectaculo de LuX, Dios, Cristo, Maria, son la luz del Universo. La Fe es defensora de los animalitos a quienes debemos ayudar cin nuestra administracion ( Sana ecologia) Genesis.La relacion animales y humanos en terminos de armonia es biblica (libro de Tobias, el perro de Tobias), en el nacimiento de NSJ los animales lo adoraron ( Natividad, Isaias). Otra cosa es tergiversarlo por la ecologia radical .

  2. Dscodo totalmete: Esas proyecciones fueron una proclamcion del Genesi 1y 2 y del Salmo 8 pues la Basilica de San Pedro al recibir como pantalla esas luces se convirtió en ese mensaje de salvación.

  3. CUANTA FALTA HACE UN PLINIO CORREA DE OLIVEORA, SIN CONTEMPORIZACION CON EL EROR: Progresista, modernista, revolucionario, masonico, heretico, marxista, post modernbista……Pero sin exageraciones gnosticas, jasenistas, donatistas, fundamentalistas y sin centrismos absolutistas, amorfos.

  4. Maravilloso mensaje 1. Teologia Dogmatica sobre Dios Creador y Providente 2- Lectio Biblica sobre la Encarnacion y Redencion -Isaias, Nacimiento del Redentor y los animales adorandolo, la mula, el buey, ovejas, etc 3- Espiritualidad Franciscanas 4- Impugnacion del gnosticismo, de maniqueismo,catarsmo: La materia es buena, Dios la ha creado..

  5. Não opino, por enquanto, como muitos fazem, em por em dúvida a legitimidade do pontificado de Francisco. Acho que no fim último, as decisões dele são corretíssimas. Só discordo quanto a forma que isso é apresentado. Por exemplo: a situação dos casais de segunda união na Igreja. É claro que a Igreja acolhe a todos, não está em questão isso. Mas muitos desses casais já contam que com a decisão do Sínodo das Famílias, eles poderão se casar e comungar normalmente, pois a Igreja está mudando a mentalidade. Na verdade, não foi isso que aconteceu, e nem vai acontecer. Mas sinceramente, o Papa Francisco não está fazendo nenhum esforço para deixar claro a intensão da Igreja, e nem demonstra a intensão de por os pingos nos is.
    Acho sim, nós católicos somos hipócritas. Devemos sim acolher as pessoas independentemente da situação delas, se é segunda união, se é amasiado, se é separado, se é homossexual, se é o que for, mas na verdade nós apenas os suportamos, não acolhemos.
    Agora, há de se ter em mente que esse acolhimento é um acolhimento de Jesus, não um acolhimento do mundo. Jesus acolhia a todos, cobradores de impostos, prostitutas, pobres, o que fosse, mas eles mudavam de vida para segui-lo. A Igreja falha nisso. Não damos uma opção melhor para os outros pecadores (porque nós também somos) seguirem. Queremos impor um fardo pesado sobre eles, ao invés de mostrar o tesouro. Aqueles pecadores contemporâneos de Jesus largaram a vida que tinham e se tornaram santos porque encontraram um caminho melhor, porque encontraram o jugo suave, encontraram o descanso para o coração. Nós que achamos que estamos salvos, ao invés de mostrar isso às pessoas, queremos ir para os dois extremos errados: 1) Excluir essas pessoas como se não fossem filhos de Deus, e deixar que eles se percam, ao mostrar um Deus severo que os condenará. 2) Fechar os olhos para seus pecados e fingir que eles não estão no erro, iludi-los fazendo-os crer que não há problema viver em adultério ou em relações homossexuais e etc.
    É necessário fazer o contrário, só apresentando Jesus com humildade, caridade e santidade é que conseguiremos a conversão do mundo para Deus.
    Mas infelizmente, a posição da Igreja agora são esses dois extremos totalmente errados. A ala intolerante manda todos pro inferno, pois não aceita os pecadores. A ala modernista manda todos pro inferno, fingindo que está levando pro céu, pois não dá a oportunidade de conversão a eles.

  6. Alguma coisa esta errada com este luxuoso jogo de luz. Isto custa dinheiro. Mesmo que foi patrocinado por alguma instituição, este dinheiro poderia servir para os pobres. O Papa sempre diz que extravagancia é pecado. Mesmo que fosse com imagens religiosas, isso iria custar muito.

  7. Desde a posse do Papa Francisco tenho lido notícias sobre atitudes contraditórias do Sumo Pontífice, tanto neste site, como em outros sites católicos.
    Seria o Papa Francisco um REFORMADOR da Igreja?
    Reuniões com Comunistas e “Movimentos Sociais”, sua preocupação política com Cuba, o ridículo episódio na Bolívia de receber uma estátua de Cristo crucificado numa foice e num martelo, etc.; agora essa invasão de “ecumenismo panteísta” em Roma.
    Confesso que tudo isso tem gerado confusão na minha cabeça. Ele conta com o apoio da maioria dos Cardeais, Bispos, Padres e Fiéis para fazer isso? Seria ele um ILUMINADO? Vamos assistir impassíveis a essa inexorável transformação da Igreja?
    É o fim da Igreja?

  8. Merece ampla divulgação este importantíssimo artigo do Prof. Roberto de Mattei. Lamentavelmente, esse “espetáculo” (denominado FIAT LUX) representou uma profanação da magnífica Basílica de São Pedro.
    E tal profanação realizada no último dia 8 de dezembro — dia da Festa da Imaculada Conceição. A grande ausente em tal “espetáculo”. Ela sequer foi mencionada… Aliás, Nosso Senhor Jesus Cristo também sequer foi mencionado… Sintoma da tremenda crise que atingiu — após o Concílio Vaticano II — a Igreja Católica , na qual — segundo famosa expressão do Papa Paulo VI — “a fumaça de Satanás penetrou”…
    Esse “espetáculo” poderia ser também considerado como uma representação da penetração na Igreja dessa “fumaça negra de Satanás”! Em vez de FIAT LUX, melhor seria denominado de TREVAS.
    “Et tenebrae factae sunt in universa terra” (“E em toda a terra houve trevas”, São Lucas, 23,44).

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