A maioria dos regimes despóticos pune a dissidência dentro de suas fronteiras. O que distingue o regime do Partido Comunista Chinês (PCC) é o fato de ele reprimir seus cidadãos também em outros países.
A Freedom House, organização de monitoramento da democracia sediada em Washington, concluiu que a China conduz “a campanha de repressão transnacional mais sofisticada, global e abrangente do mundo”. De fato, o PCC está determinado a silenciar até mesmo aqueles que já votaram com os pés, deixando o país.1
Um regime que persegue dissidentes no exterior
O alcance do PCC estende-se a lugares onde ele não possui jurisdição. O regime intromete-se na vida cotidiana de pessoas que vivem fora da China e que não cometeram crime algum, além de exercer direitos que qualquer sociedade funcional considera garantidos: o debate aberto e o protesto legítimo.
Em 2024, a Anistia Internacional documentou que estudantes chineses e de Hong Kong matriculados em instituições da Europa e da América do Norte estavam “vivendo com medo de intimidação, assédio e vigilância”, enquanto Pequim punia, em represália ao ativismo no exterior, os familiares que haviam permanecido na China.
Um dos relatórios reproduziu as palavras de um estudante: “No meu campus, tenho medo”. A ProPublica, organização jornalística investigativa sem fins lucrativos, constatou que agentes da inteligência chinesa monitoram ativamente os campi universitários dos Estados Unidos, transformando essas instituições em zonas de silêncio forçado para os estudantes chineses que ousam declarar-se anticomunistas.2
Violência nas ruas de nações livres
A repressão vai além da pressão psicológica exercida sobre aquilo que essas pessoas pensam. Ela pode tornar-se violenta, seja pelo uso de intermediários, seja pela pressão exercida sobre as forças locais de segurança pública.
Por exemplo, quando Xi Jinping visitou São Francisco para a cúpula da APEC, em 2023, o Departamento de Trabalho da Frente Unida do PCC mobilizou sistematicamente grupos diplomáticos para atacar ativistas chineses, tibetanos, hongkongueses e uigures. A Radio Free Asia informou que a embaixada e os consulados chineses transportaram em ônibus centenas de contramanifestantes favoráveis a Pequim — verdadeiros capangas — para “reprimir violentamente” as manifestações. Os participantes dos protestos relataram ter sido espancados enquanto a polícia de São Francisco fazia vista grossa.3
Esse padrão acompanha Xi aonde quer que ele viaje. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) realizou uma investigação transfronteiriça intitulada China Targets.4 A investigação constatou que, em pelo menos sete das 31 viagens internacionais feitas por Xi entre 2019 e 2024, as forças de segurança locais violaram os direitos dos manifestantes, frequentemente detendo ativistas sob acusações forjadas para impedir que o frágil líder chinês presenciasse manifestações de oposição.5
Na cúpula da APEC de 2024, em Lima, foram frequentes as agressões cometidas por apoiadores do PCC, deixando algumas vítimas hospitalizadas e necessitando de meses de tratamento. Na Hungria e em Auckland, na Nova Zelândia, manifestantes favoráveis a Pequim rasgaram faixas de tibetanos e os atacaram, por vezes sem qualquer intervenção policial.
Um governo confiante em sua própria legitimidade não precisa transportar capangas em ônibus para silenciar uma dúzia de manifestantes. A violência revela precisamente aquilo que o PCC teme: que seus críticos estejam certos e que o comunismo seja uma seita terrorista que precisa ser extinta.
Delegacias secretas e coerção de longo alcance
Pequim também construiu uma engrenagem destinada a alcançar diretamente determinados indivíduos. A organização de direitos humanos Safeguard Defenders revelou uma rede de 110 delegacias clandestinas de serviços policiais no exterior, que operavam com impunidade. A denúncia levou pelo menos 14 governos a abrir investigações.
O Ministério das Relações Exteriores de Pequim reconheceu, na prática, que realiza “missões de persuasão” no exterior. Sob a bandeira da “Operação Caça às Raposas”, lançada em 2014, o PCC tem perseguido críticos fora do país sob o pretexto de procurar “fugitivos”.6
Procuradores públicos denunciaram essa tática pelo que ela realmente é: uma ação policial transnacional fora de controle. Em 2020, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou oito pessoas de atuarem como agentes da República Popular da China em uma campanha de coerção. O alvo era Xu Jin, residente de Nova Jersey e ex-funcionário do governo municipal de Wuhan, bem como sua esposa, Liu Fang, ambos procurados por Pequim. Os procuradores federais descreveram o caso como “uma campanha de assédio que durou vários anos”.7
Mais recentemente, as autoridades de Hong Kong emitiram mandados de prisão e ofereceram recompensas financeiras por ativistas pró-democracia que vivem no exterior, medida condenada conjuntamente pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos. Colocar um preço sobre a cabeça de alguém que se encontra a milhares de quilômetros de Pequim é um ato de agressão contra qualquer país que lhe ofereça abrigo — e uma prova de que o PCC não tem outra resposta para a dissidência além da intimidação e da violência.8
O que está em jogo é universal, não restrito
Pequim descarta essas conclusões como “infundadas” e “forjadas”. No entanto, os relatórios continuam documentando a crise. Um relatório da Freedom House voltou a apontar a China como o principal agente de repressão transnacional em 2024. O Relatório Mundial de 2026 da Human Rights Watch constatou que a repressão do PCC continuou a aprofundar-se e a estender-se para além das fronteiras chinesas. A Comissão Executiva do Congresso dos Estados Unidos sobre a China adverte que essas operações “intimidam e censuram residentes legais em solo americano e em outras partes do mundo”.9
Qualquer pessoa, inclusive cidadãos chineses que vivem em outros países, tem o direito de criticar o sistema antinatural de governo comunista e o abuso sistemático cometido contra seus cidadãos. Quando Pequim espiona estudantes em Boston, envia agentes para espancar manifestantes em São Francisco, instala postos policiais clandestinos em cidades estrangeiras e oferece recompensas pela captura de exilados, o regime suprime tanto a liberdade desses residentes quanto a causa da liberdade em todo o mundo.
Como observou Michael Caster, do Chinese Urgent Action Working Group, para os dissidentes chineses no exterior, os uigures, os tibetanos e os cidadãos de Hong Kong, a “repressão do PCC não conhece fronteiras”.10 Essa repressão é um problema de todos.
Ao tentar criminalizar a dissidência fora da China, Pequim está testando a comunidade internacional. O Ocidente precisa responder a essa ameaça justamente no momento em que a China tenta reescrever as regras do discurso global. Os Estados Unidos não podem permitir que isso continue.
Notas de rodapé
[https://freedomhouse.org/sites/default/files/2021-02/FH_TransnationalRepressionReport2021_rev020221_CaseStudy_China.pdf](https://freedomhouse.org/sites/default/files/2021-02/FH_TransnationalRepressionReport2021_rev020221_CaseStudy_China.pdf)
[https://www.amnesty.org/en/latest/news/2024/05/china-overseas-students-face-harassment-and-surveillance-in-campaign-of-transnational-repression/](https://www.amnesty.org/en/latest/news/2024/05/china-overseas-students-face-harassment-and-surveillance-in-campaign-of-transnational-repression/)
[https://www.voanews.com/a/anti-xi-jinping-protesters-say-sf-police-ignored-beatings-during-apec-/7367899.html](https://www.voanews.com/a/anti-xi-jinping-protesters-say-sf-police-ignored-beatings-during-apec-/7367899.html)
[https://www.icij.org/investigations/china-targets/](https://www.icij.org/investigations/china-targets/)
[https://www.icij.org/inside-icij/2025/06/new-report-details-beijings-targeting-of-protestors-abroad/](https://www.icij.org/inside-icij/2025/06/new-report-details-beijings-targeting-of-protestors-abroad/)
[https://safeguarddefenders.com/en/blog/14-governments-launch-investigations-chinese-110-overseas-police-service-stations](https://safeguarddefenders.com/en/blog/14-governments-launch-investigations-chinese-110-overseas-police-service-stations)
[https://www.justice.gov/opa/pr/private-investigator-sentenced-prison-interstate-stalking-and-harassment-chinese-nationals](https://www.justice.gov/opa/pr/private-investigator-sentenced-prison-interstate-stalking-and-harassment-chinese-nationals)
[https://www.gov.uk/government/news/statement-on-hong-kong-national-security-law-arrest-warrants](https://www.gov.uk/government/news/statement-on-hong-kong-national-security-law-arrest-warrants)
[https://www.cecc.gov/publications/commission-analysis/report-prcs-transnational-repression-and-malign-influence-2025](https://www.cecc.gov/publications/commission-analysis/report-prcs-transnational-repression-and-malign-influence-2025)
[https://www.icij.org/inside-icij/2025/06/new-report-details-beijings-targeting-of-protestors-abroad/](https://www.icij.org/inside-icij/2025/06/new-report-details-beijings-targeting-of-protestors-abroad/)
Fonte: Return to Order — https://www.returntoorder.org/2026/07/why-does-china-need-to-persecute-those-abroad-who-oppose-communism




