O celular está se tornando cada vez mais um instrumento que serve para tudo, e talvez aquilo para que menos seja usado seja propriamente falar e receber chamadas dos amigos.
Essa democratização dos celulares é vigorosamente sustentada pelas ofertas do comércio varejista e pela possibilidade de subsídio oferecida pelas companhias telefônicas.
Javier Valenzuela, gerente de Terminais da Movistar, afirma que essas ofertas permitem aos usuários trocar constantemente seus aparelhos. “Os clientes de planos pós-pagos trocam seus telefones em um prazo que varia entre 18 e 24 meses. No entanto, observamos uma tendência crescente de usuários que trocam seus aparelhos em menos tempo. As pessoas estão dispostas a pagar para ter acesso mais rapidamente aos equipamentos de última tecnologia”.
Por sua vez, José Miguel Ventura, gerente comercial da GfK Adimark, afirma que os aplicativos e a facilidade de conexão também contribuíram decisivamente para esse crescimento. “Hoje, as pessoas veem os smartphones como meios indispensáveis de comunicação. A definição do que é um telefone inteligente é bastante mais simples do que a classificação técnica. Basicamente, ter tela ‘touch’ e acesso à internet. Isso é considerado um smartphone hoje”.
Apesar de todas essas vantagens dos celulares, depois de ver tantas pessoas permanentemente conectadas ao aparelho, do qual parecem depender para tudo, é natural que surja a pergunta:
Os celulares estão realmente ajudando as pessoas a serem cada vez mais elas mesmas ou, ao contrário, estão transformando o homem em mero executor de técnicas que não o representam nem refletem aquilo que cada um verdadeiramente é?
Qual é o ponto de equilíbrio entre o uso razoável desses aparelhos e a ciberdependência, ou a dependência obsessiva de permanecer conectado?
Para responder a essas importantes e atuais questões, recorremos a um interessante artigo do Sr. John Horvat, publicado na revista da Sociedade Norte-Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade.
“Por onde quer que se vá, encontram-se pessoas grudadas aos seus smartphones. Nos aeroportos, restaurantes ou simplesmente na rua, as pessoas estão quase permanentemente coladas aos seus aparelhos, obcecadas pela ideia de que não podem existir se não estiverem conectadas ao mundo cibernético. Passam o tempo enviando mensagens e tweets, encaminhando e-mails e consultando o Google, acompanhando chats ou clicando em “curtir”, num esforço contínuo para permanecer ativas on-line. Tudo isso passou a fazer parte de uma existência “normal” em nosso mundo pós-moderno.
No entanto, nem todos estão conectados. Um número crescente de dissidentes está rasgando seus passaportes para o mundo digital e substituindo seus smartphones, isto é, seus celulares inteligentes, por celulares burros, que fazem apenas aquilo que os telefones sempre fizeram: receber e fazer chamadas.
Esses rebeldes não são uma versão moderna dos luditas, aqueles trabalhadores ingleses que, no início do século XIX, destruíam os teares mecânicos que ameaçavam seus empregos. Tampouco são pessoas tecnologicamente incapazes. São pessoas inteligentes usando telefones burros, que veem sua decisão de se desconectar como uma experiência libertadora, permitindo-lhes viver livres da intromissão dos dispositivos eletrônicos.
Os celulares burros constituem uma parcela pequena, mas significativa, do mercado de celulares. Comprando um celular de 30 dólares, seus proprietários podem juntar-se ao 1% que compõe esse grupo elitista. De fato, muitos desses dissidentes do celular são profissionais bem-sucedidos, inclusive do Vale do Silício, onde ajudam a inventar a nova geração dos ofensivos celulares.
Esse 1% apresenta várias razões para justificar sua decisão. Esses celulares burros nunca precisam ser atualizados para modelos mais avançados ou de maior capacidade. A bateria dura várias semanas — até 38 dias — e não necessitam de nenhum programa caro para armazenar informações. Podem ser dados a crianças ou idosos para fazer chamadas em caso de necessidade ou emergência, sem exigir um investimento dispendioso.
Eles não se sentem continuamente impelidos a verificar suas contas de e-mail, notificações ou atualizações. É apenas um telefone celular. Esses aparelhos elementares proporcionam uma sensação de grande alívio por não ser necessário responder a tudo nem sofrer distrações a todo momento.
Há outros motivos, ainda mais instigantes, para se desconectar, que vão além da mera conveniência pessoal. Sociólogos e outros cientistas estão preocupados com o efeito que o uso crônico de smartphones está provocando nas mentes e nos relacionamentos.
Em seu excelente livro “Trabalho Profundo”, Cal Newport sustenta que os celulares inteligentes e outros dispositivos acostumam o cérebro a permanecer continuamente distraído. O usuário vive em um estado permanente de atenção dividida e não consegue concentrar-se na realização de seu verdadeiro trabalho. Ele constatou que esses dispositivos eletrônicos deterioram a capacidade das pessoas de pensar e trabalhar em profundidade.
Os celulares inteligentes têm fama de serem grandes instrumentos de conexão com o mundo, mas, na realidade, são dispositivos que inibem uma conexão profunda com os demais. O uso de mensagens de texto, por exemplo, elimina as expressões fisionômicas e as inflexões da voz, que ajudam a introduzir nuances e estreitar relações. A simples presença de um celular durante uma conversa é um convite a prestar menos atenção, pois dá margem a frequentes interrupções.
Alguém poderá dizer que essas razões não são tão graves a ponto de tirar o sono. Na realidade, os smartphones provocam perda de sono. Quarenta e quatro por cento das pessoas entre 18 e 24 anos adormecem com o celular na mão. Quando soam os avisos, despertam para responder. A luz da tela interrompe os ritmos circadianos do sono, que ajudam a dormir bem. Mais ainda: a primeira coisa que fazem ao despertar é verificar seus aparelhos.
Por fim, há o problema da enorme quantidade de tempo que as pessoas passam grudadas aos seus dispositivos. Muitos chegam a passar até oito horas por dia utilizando-os e verificando e-mails, tweets e mensagens centenas de vezes diariamente. Perdem a noção do que está acontecendo ao redor, descuidam das relações familiares e facilmente passam a viver fora da realidade.
Com tantas razões para se desconectar, é surpreendente que tanta gente tenha se juntado ao 1% que já declarou sua independência digital? Muitos deles vão até o fim e compram celulares burros. Outros tornam seus celulares inteligentes mais “burros”. Outros ainda utilizam aplicativos para controlar o uso dos aparelhos, em vez de se escravizarem a eles. Tudo isso faz parte de uma reação contra um problema muito real e muito mais profundo.
O abuso dos celulares é produto de uma sociedade frenética que perdeu o equilíbrio. Não se trata apenas do celular, mas daquilo que pode ser qualificado como uma intemperança frenética, na qual todos precisam ter tudo, instantaneamente e sem nenhum esforço. Chegou a hora de voltar àquelas coisas simples, como a família, a comunidade e a fé — essas instituições permanentes que realmente têm importância e que não deveriam ser interrompidas.
Chegou a hora de um retorno à ordem. Talvez o primeiro passo seja evitar que celulares inteligentes produzam gente tola.
Fonte: Credo Chile — https://www.credochile.cl/podcast/celulares-inteligentes-que-fabrican-tontos-2




