O trecho a seguir é uma adaptação de Memórias Biográficas de São João Bosco.
Uma profunda devoção ao seu anjo da guarda
No fim de 1844, Dom Bosco estava empenhado em concluir um livro destinado a promover a devoção aos anjos da guarda. Ele já havia começado a escrevê-lo algum tempo antes. Pessoalmente, era muito grato a Deus pelo privilégio de lhe ter concedido um anjo da guarda. Inúmeras vezes o ouvimos citar: “Pois Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.” (Salmos 91:11-12) Por isso, nutria um amor ardente e uma profunda devoção por seu anjo da guarda, cuja festa celebrava todos os anos. Estava tão convencido de que seu anjo permanecia sempre ao seu lado que se poderia dizer que o via com os próprios olhos. Saudava-o várias vezes ao dia com a oração “Santo Anjo do Senhor”. Durante toda a vida, confiou profundamente em sua proteção. Confiava a si mesmo e seus meninos aos respectivos anjos da guarda. De fato, seu anjo da guarda certamente o auxiliou na fundação e na direção de todas as suas obras.
Joana da Cruz
Certo dia, Dom Bosco contou aos meninos que a bem-aventurada Joana da Cruz tivera o privilégio de ver seu anjo da guarda desde a infância. Ele a conduziu à vida religiosa. Quando ela se tornou superiora do convento, guiou-o de maneira admirável em todas as situações difíceis. Sempre que ocorria uma transgressão da regra, o anjo lhe sugeria maneiras e meios de corrigir os envolvidos. Quando Dom Bosco contou essa história, perguntamo-nos se ele também não teria sido agraciado com os mesmos privilégios. Não podíamos deixar de pensar que ele próprio também era guiado pessoalmente por seu anjo da guarda. Afinal, não revelou, durante toda a vida, os segredos mais insondáveis ao conhecimento humano? E quanto a seus sonhos e àquela pessoa misteriosa que, segundo ele, permanecia sempre ao seu lado? Quem era?
Um cântico em honra dos anjos da guarda
Seja como for, ele sabia incutir em seus meninos grande reverência e amor por seus anjos da guarda. Cantava frequentemente um cântico em honra deles, que ele próprio havia musicado e que os meninos entoavam com grande entusiasmo. Dizia-lhes sempre: “Convençam-se cada vez mais de que seu anjo da guarda está realmente presente e permanece sempre ao seu lado.” Santa Francisca Romana via constantemente seu anjo diante de si, com os braços cruzados sobre o peito e os olhos voltados para o céu; mas, diante do menor deslize de sua parte, ele cobria o rosto como se estivesse envergonhado e, às vezes, virava-lhe as costas. Para incutir confiança nos anjos da guarda, Dom Bosco contava com frequência a história de Tobias e do arcanjo Rafael, o milagre dos três jovens que permaneceram ilesos em meio às chamas da fornalha da Babilônia e outras narrativas encontradas em abundância nas Sagradas Escrituras e na história da Igreja.
“Ele o ajudará”
Em suas pregações, nunca se cansava de falar desse dedicadíssimo amigo celestial. “Seja bom”, dizia. “Isso fará seu anjo da guarda feliz. Quando estiver atormentado por preocupações e adversidades físicas ou espirituais, recorra com grande confiança ao seu anjo da guarda, e ele o ajudará. Quantas pessoas que se encontravam em pecado mortal foram salvas da morte por seus anjos, para que ainda tivessem a oportunidade de se confessar? Ai daqueles que causam escândalo! Os anjos da guarda das vítimas inocentes clamarão a Deus por vingança.”
“O diabo treme diante de seu anjo da guarda”
Em conversas particulares, Dom Bosco sempre oferecia generosamente a todos — sobretudo a seus penitentes — conselhos adequados às respectivas necessidades. “Lembre-se de que você tem um anjo como companheiro, protetor e amigo. Se deseja agradar a Jesus e a Maria, obedeça às inspirações de seu anjo da guarda. Invoque seu anjo quando for tentado. Ele está mais desejoso de ajudá-lo do que você de receber ajuda! Tenha coragem e reze, pois seu anjo da guarda também rezará por você, e suas orações serão atendidas. Ignore o diabo e não tenha medo dele; ele treme e foge ao ver seu anjo da guarda. Peça a seu anjo que o console e o assista em seus últimos momentos.”
Instruções para honrar seu anjo da guarda
Mais tarde, muitos meninos contaram ao reverendo Rua que haviam recebido graças extraordinárias e escapado de perigos graças à devoção que Dom Bosco despertara neles. Ele indicava determinados dias nos quais seus meninos poderiam honrar de modo especial seus anjos da guarda. Oralmente e por escrito, dava as seguintes instruções:
Todas as terças-feiras
A Igreja designou a terça-feira como dia de especial recordação dos anjos da guarda. Se você deseja imitar São Luís Gonzaga, que amava profundamente seu anjo da guarda, sugiro que nesses dias pratique uma mortificação especial em honra dele. Você pode, por exemplo, renunciar a algo que goste de fazer, rezar com os braços cruzados sobre o peito ou beijar o crucifixo. Se possível, dê esmolas, como o arcanjo Rafael aconselhou Tobias a fazer.
Seu aniversário
Seu aniversário assinala o início do período em que seu anjo da guarda assumiu o cuidado por você. Portanto, nesse dia, renove as promessas que fez em sua presença no batismo: amar e seguir Jesus Cristo e obedecer à Sua Santa Lei. Santifique esse dia recebendo piedosamente a comunhão ou rezando um pouco mais do que de costume. Pratique ainda outro ato de devoção como sinal de gratidão para com ele, pois foi o primeiro a demonstrar seu amor por você ao tornar-se seu anjo da guarda.
Todo primeiro dia do mês
No primeiro dia de cada mês, convém meditar sobre os Quatro Novíssimos [morte, juízo, céu e inferno, nota da redação], refletindo seriamente sobre a finalidade para a qual Deus o criou. Examine o estado de sua consciência, seguindo o exemplo de tantas pessoas piedosas que também se preocupam com a salvação da própria alma. Pergunte a si mesmo o que lhe aconteceria se morresse neste exato momento e, em seguida, vá se confessar e receber a comunhão. Faça o bem enquanto ainda há tempo. Dom Bosco continuou a dar esse conselho durante toda a vida. Mesmo naqueles primeiros anos do oratório, soube utilizar esse poderoso meio para conduzir a uma vida virtuosa meninos que antes haviam vivido nas ruas. Eles seguiam fielmente seus conselhos a respeito dos anjos da guarda.
Reze ao seu anjo da guarda
Certo dia, um acontecimento extraordinário confirmou as instruções daquele bom pai. Em um domingo, todos os meninos estavam reunidos na sacristia da igreja de São Francisco de Assis. Dom Bosco deu a cada um deles um santinho com uma oração ao anjo da guarda. Em seguida, exortou-os: “Rezem ao seu anjo da guarda. Invoquem sua ajuda caso se encontrem em grave perigo para o corpo ou para a alma, e eu lhes asseguro que ele os ajudará e protegerá.” Alguns dias depois, um dos meninos, aprendiz de pedreiro, trabalhava em uma construção. Enquanto caminhava de um lado para o outro sobre o andaime, uma viga de sustentação rompeu-se de repente. Ele sentiu cederem as tábuas de madeira sobre as quais ele e outros dois se encontravam. Ao primeiro estalo sinistro da madeira, percebeu que não havia como escapar. O andaime desabou, e os três meninos despencaram do quarto andar até a rua, em meio a uma chuva de tábuas, tijolos e pedras.
Proteção divina
Uma queda de tamanha altura significava morte certa. Durante a queda, porém, aquele bom menino lembrou-se das palavras de Dom Bosco e invocou em voz alta seu anjo da guarda: “Ó meu bom anjo, ajuda-me!” Sua oração o salvou. Dos três meninos que caíram, um morreu na hora e outro, gravemente ferido, morreu pouco depois de chegar ao hospital. Enquanto as pessoas corriam em direção ao jovem aprendiz, supondo que estivesse morto, ele se levantou são e salvo, sem um arranhão sequer. Não hesitou nem por um instante em subir novamente para ajudar a reconstruir o andaime. No domingo seguinte, voltou à igreja de São Francisco de Assis, onde contou a seus companheiros, admirados, o que havia acontecido. Foi uma magnífica confirmação da veracidade da promessa de Dom Bosco. Com isso, a confiança dos meninos em seus anjos da guarda tornou-se ainda mais forte e produziu belos frutos espirituais em suas almas.
O devoto do anjo da guarda
Esse acontecimento singular levou Dom Bosco a compilar o livreto anteriormente mencionado, intitulado O devoto do anjo da guarda. Em apenas setenta e duas páginas, apresentou os motivos para incentivar os fiéis a buscar e merecer a proteção desse espírito sublime. Dividiu o tema em dez considerações, destinadas a servir de preparação para a Festa dos Santos Anjos. Entre os assuntos abordados estavam:
- A bondade de Deus ao nos confiar aos cuidados de Seus anjos
- O amor dos anjos por nós
- Os favores diários que os anjos nos concedem
- Sua assistência especial nos momentos de oração, tentação e provação: em nossa morte e nosso juízo, e no purgatório
- A compaixão dos anjos pelos pecadores
- O amor que devemos sentir por nosso anjo em retribuição ao amor dele por nós
A Auxiliadora dos Cristãos
Cada consideração era seguida por uma breve reflexão espiritual, uma sugestão de boa ação e uma anedota. Não faria imenso bem a todos nós, nestes tempos em que Deus é abandonado, manter um vínculo ardente e íntimo com nossos anjos da guarda? Levemos a sério o exemplo e o conselho de São João Bosco e coloquemos esse conselho em prática agora mesmo! Que Nossa Senhora Auxiliadora o abençoe, o proteja e lhe conceda muitas graças especiais para acolher as inspirações de seu anjo da guarda, a fim de que você possa realizar o plano de Deus para sua vida.
Fonte: Mijn Onbevlekt Hart — https://mijnonbevlekthart.nl/artikelen/het-uitstekende-advies-van-de-heilige-don-bosco-over-onze-beschermengelen




