Luz primordial dos povos, correspondência à graça, conversão

0

Eu estava pensado comigo mesmo: como Deus é grande em Suas obras e como, sobretudo, Deus é grande na sua Igreja e é grande nas nações que existem dentro dessa Igreja. Como Deus é grande, e que coisas magníficas haveria no mundo, se todos os povos correspondessem à sua luz primordialQue maravilha seria o mundo em que cada povo fosse tudo aquilo que deveria ser, em que, portanto, cada homem fosse tudo aquilo que deveria ser.

Esse mundo seria possível ou é um sonho? Esse mundo ideal em que nós podemos imaginar: cada uma das nações européias posta no seu ideal. Poderíamos imaginar também todas as nações asiáticas, as nações africanas, as nações da Oceania, as nações da América. E entre as nações da América incluindo as tantas e misteriosas raças índias que andaram durante séculos perambulando pelas selvas de nossas vastidões ou construindo cidades indecifráveis, algumas delas indecifravelmente abandonadas, até com os objetos de uso diário, partindo a população para rumos desconhecidos. Se toda essa multidão de homens tivesse correspondido à graça, o que é que seria o mundo? Eu acho que nós não temos a mais leve ideia da beleza que seria o mundo.

isto eu penso muitas vezes quando vejo monumentos em estilo góticoOs gregos pensaram que construindo aquelas coisas deles, eles chegaram ao auge da beleza. Coitados! Eles chegaram a um auge, mas que augezinho em comparação ao góticoE o que foi o esplendor dos vitrais, das catedrais, dos órgãos, do incenso, da liturgia católica, das pompas temporais desenroladas nos templos da Igreja Católica, nas grandes ocasiões da vida da Cristandade! Aquilo tudo fica reduzido a zero.

O que é que são aqueles heroizinhos da mitologia grega perto de um homem magnífico como Balduíno o leproso, rei de Jerusalém, ou então como esse Godofredo de Bouillon, que tão magnificamente vós acabais de cantar? Nem sequer um Homero poderia imaginar essas coisas. E ele estava tão longe de imaginar essas coisas, ele que com tanto talento cantou aquilo que ele cantou – porque o talento dele é absolutamente incontestável e genial – ele cantou aquelas coisas e, entretanto, estava tão abaixo do que os medievais fizeram depois, que eu me pergunto se ele teria entendido.

E aquilo que comoveu durante séculos a qualquer pobre mulher que vinha do mercado ou qualquer pobre camponês que vinha das hortas em torno das cidades medievais, olhar e ver por exemplo o relógio dar horas e toda uma oficina de figuras mecânicas se deslocar e bater as horas e os sinos tocarem e os pombos voarem etc. – enchia o coração dos simples. Eu tenho impressão que isto que enchia na Idade Média o coração dos reis e dos simples, não, os da Antiguidade não teriam entendido. E que nem Cipião, nem Júlio César, nem Marco Aurélio, nem Constantino ele próprio, teriam compreendido a magnificência do que veio depois. Eles estavam tão abaixo, que eles já não estavam em condições de fazer – não é isto não – eles não estavam em condições de ver, eles não estavam em condições de sentir e de entender.

* Houve povos que disseram “sim ao chamado de Nossa Senhora

Entretanto, houve povos que corresponderam à graça. Houve povos que disseram “sim” ao chamado de Nossa Senhora; houve povos nos quais a distribuição da Eucaristia se fez abundante e bem correspondida; houve povos que foram os povos da Cristandade e nessas maravilhas se ergueram.

Quando eu vejo o gótico, na história do gótico vejo a última forma do gótico – o gótico flamboyant – tão risonho, tão triunfal, tão seguro de sua grandeza, eu tenho impressão de um itinerário terminado. E eu digo de mim para comigo: “o gótico teria que acabar. Tudo quanto a ogiva poderia dar de beleza teria esgotado. Como é que agora haveria de nascer uma outra coisa e de que jeito ela seria?”

Eu me lembro que quando eu era adolescente e que o problema se punha para mim, eu dizia de mim para comigo: “Isto é um dos tais grandes e bonitos problemas da História que é bonito que fique em estado de problema”! O estado de problema tem um encanto próprio que é preciso saber apreciar, é um encanto próprio desta vida e da outra, porque na outra vida, em algum sentido, há problema também, porque nós veremos Deus face a face, mas Deus é insondável, e nós passaremos eternidades olhando para Ele sem conhecê-Lo inteiramente. E de mim para comigo, eu tenho a impressão de que Nossa Senhora é de tal maneira – não infinita como Deus, mas insondável Ela mesma – que nós passaremos eternidades e depois teremos dito a Ela, depois de milhões e milhões de séculos, diremos a Ela: “Minha Mãe, dizei mais, porque nós estamos apenas no be-a-bá”. De tal maneira nós teremos o inexprimível diante de nós a respeito da grandeza d’Ela!

Então, depois desse elogio, de passagem, ao insondável, eu volto ao meu problema: o que é que nasceria depois do gótico? E eu me lembro que o demônio me soprava no ouvido: “morria e tinha que vir a Renascença. Era lógico, estava esgotado!” E de fato, a gente olha a coisa gótica, está esgotada. Não esgotado de cansaço, nem de moleza, nem de extenuação, mas é mais ou menos como um cantor que deu tudo quanto sua laringe podia dar. A gente sai extasiado, admirado, mas entende que a música acabou, a partitura está cantada. E o gótico foi uma partitura. O que viria depois?

* A decadência não é o fruto da fidelidade, não é o fruto da coerência. O supra sumo não pode ser a véspera do ocaso

Até que eu pensei de mim para comigo o que sempre foi e eu peço a Nossa Senhora que seja meu alento até o fim da vida: “no momento eu não entendo, mas não pode acontecer que o bem dê no mal, que a verdade dê no erro, não pode acontecer que o acêrto até o último ponto de uma determinada linha de beleza, dê na decadência. Porque a decadência não é o fruto da fidelidade, a decadência não é o fruto da coerência. O supra sumo não pode ser a véspera do ocaso. Isto é com o sol, que é feito de matéria, não é para as coisas do espírito. Pobre sol, tão pequenino, tão apagado, tão vulgar na sua glória esplendorosa quando ele é comparado com qualquer alma humana! Não pode ser isto absolutamente.

E eu dizia de mim para comigo: “um dia eu encontro a resposta. Mas eu não vou aceitar o princípio de que depois da Idade Média teria que vir o ocaso, porque quem caminha no caminho da fidelidade tem pseudo-ocasos, não tem ocasos verdadeiros. Vai, vai, vai, vai indo, de montanha em montanha, e quando subiu a todas as montanhas, ele dá um passo no ar e ele vê que a nuvem se tornou consistente e ele começa a subir pelas nuvens. Mas para ele a ascensão só termina quando os anjos vêm, o colhem, e o apresentam, por meio de Nossa Senhora, a Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador. De maneira que eu dizia: “uma solução há”. E em geral, as soluções, não é sempre – até talvez a palavra “em geral” esteja um pouco forçada – frequentemente, as soluções para esses problemas insolúveis são simplicíssimas.

E me ocorreu isto, tomou consistência especial em meu espírito isto, precisamente na França, em uma das viagens que lá fiz, visitando o lugar chamado Paray-le-Monial. É o famoso lugar, famosa cidade, pequena, onde Santa Margarida Maria Alacoque recebeu as revelações do Sagrado Coração de Jesus, no convento das visitandinas, em que ela era monja e no qual ela se santificou.

Eu quis visitar Paray-le-Monial por devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Santa Margarida Maria Alacoque. E fui, visitei o convento, a portaria etc., etc. Encontrei em frente uma livraria, pensei que havia – eu olhei a vitrine de longe – e pensei que havia lembranças piedosas de Paray-le-Monial. Eu tinha sobretudo em vista comprar alguma coisa para mim e mandar alguma coisa para mamãe, devotíssima dos Sagrado Coração de Jesus e de tudo quanto dizia respeito a Paray-le-Monial.

E olhei assim de longe e vi numa vitrina uns cartõezinhos muito… – mas bem em frente ao convento das visitandinas – numa vitrine, uns cartõezinhos muito bem recortados, de boa qualidade e, se bem que à distância não pudesse ler o que continham, eu percebi que eram escritos com letra impressa imitando letra manuscrita e com letras maiúsculas coloridas, etc. Eu pensei: devem ser frases das revelações de Santa Margarida Maria, frases especialmente importantes e especialmente tocantes, são marcadores de livros muito bons e, de outro lado, mamãe gostaria de ler para mim, eu lerei e terei como marcador de livros. Ela põe na gaveta, onde ela tem os objetos de piedade dela, depois de ler uma ou cem vezes, ela põe lá e guarda.

Fui lá comprar as lembranças, quando observo, ao pé da letra, – eu até comprei alguns desses cartões como lembranças do horror, mas já era, ainda não era a era do Concílio, era anterior, mas já era a fase conciliar que prenunciava – ao pé da letra, esses cartões continham pensamentos de Rousseau e de Voltaire. De Rousseau e de Voltaire!

Bem, era um dia… creio que era domingo ou dia santo, não sei. Eu quis ir assistir a Missa. E perguntei onde era a paróquia; me mostraram, era logo perto do convento das Visitandinas. E eu olhei, achei uma bonita igreja românica. Procurei assistir a Missa ali. Mas, como às vezes acontece na Europa, eu tinha que concentrar a atenção, para não prestar demais atenção no monumento. Porque era um monumento tão bonito por dentro e por fora, tão bem construído, tão lógico, tão bem travado, tão majestoso, tão sério, tão austero, que eu tinha a tentação de não prestar atenção na Missa e prestar atenção na igreja. Esta tentação mais de uma vez senti na Europa.

Eu me lembro, eu rezando na famosa igreja, comungando na famosa igreja do Gesù dos jesuítas, em Roma, eu me ajoelho junto à mesa de comunhão, e noto uma mesa de comunhão magnífica, toda encrustrada com figuras geométricas, de mármores das diversas cores. E os senhores sabem que a Itália é a terra dos lindos mármores. Quando dei acordo de mim, eu estava tentado de ficar prestando atenção nos mármores e não prestar atenção no Autor dos mármores, que Se dignava a entrar dentro deste peito do qual Ele também é o Autor. Tive que fazer um solavanco violento, para que o esplendor da mesa da comunhão não afastasse o meu espírito da consideração dAquele que é o esplendor subsistente, em relação ao Qual todo o resto não é senão imagem ou semelhança.

* “Fiat lux!” no meu espírito: o românico era uma longa adaptação do estilo clássico pelo espírito católico, que já gerava o gótico

Bem, eu prestei atenção, em Paray-le-Monial, no estilo românico. E saí de lá dizendo de mim para comigo: “mas olhe, esse estilo tem categoria, tem força, é um estilo fenomenal! Não é o gótico, é verdade, mas tem alguns traços”. Não é toda a igreja de Paray-le-Monial, mas ela tem alguns traços que disputam um lugar de honra ao lado do gótico. Como é que o românico deu no gótico? Afinal de contas, não seria melhor que o românico continuasse? No que é que poderia dar?

E aí, “fiat lux!” no meu espírito. O românico era uma longa adaptação do estilo clássico pelo espírito católico, que já gerava o gótico. Embora no estilo românico não tivessem previsto o gótico, estava insinuado nas nervuras do românico o gótico que vinha. E o que eu mais gostava no românico era o gótico que eu pressentia. E eu então disse de mim para comigo: “está resolvido o problema. O gótico iria gerar outra coisa, que estaria para ele como ele estava para o românico”.

Só que – vós cantastes, nós cantamos juntos há pouco – “Misericórdia ejus a progenie in progenies timentibus eum”, e cantamos também: “Beatam me dicent omnes generationes”. O cântico de todas as gerações aclamando Nossa Senhora não pode ser um cântico igual, tem que subir de maravilha em maravilha, e cada maravilha que se galga pede uma maravilha maior para se subir, até o cântico final, que o último varão justo que existir na terra vai cantar no meio das trevas do fim do mundo. E vai dizer a palavra suprema de hiperdulia que lábios humanos terão pronunciado. E Nossa Senhora terá recebido desse homem-turíbulo o louvor perfeito, que fará lembrar a Ela a carícia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto é o que sucederá.

* O que teria sido do mundo se a Igreja pudesse ir desdobrando Suas maravilhas, de meio dia em meio dia, sem nunca anoitecer?

Assim também com os estilos. Os estilos, cada um engendra um outro muito maior, muito mais belo, muito mais magnífico. O que teria sido do mundo, o que teria sido da Igreja, se os homens todos tivessem sido fiéis? E a Igreja pudesse ir desdobrando Suas maravilhas, de meio dia em meio dia, sem nunca anoitecer, e conservando no calor do meio dia todas as delicadezas e frescores da aurora? Até onde teria chegado a Igreja, de esplendor em esplendor, até nossos tempos? Até onde Ela chegará até o fim do mundo?

Está na ordem das coisas postas por Deus que a verdade abre caminho para a verdade, o bem prepara o caminho para um bem maior, a beleza prepara o caminho para uma beleza maior. A verdade, como eu digo, abre caminho para uma verdade mais profunda ou mais alta. Este é o caminho das coisas da Igreja.

E então, considerando o gótico, considerando o românico, anos depois eu soube que essa igreja de Paray-le-Monial era uma das poucas construções de Cluny que restam, da famosa Cluny da Idade Média. E é por isso que eu tinha pressentido ali a minha bem amada Idade Média. Eu fiquei encantado quando eu soube que a igreja de Paray-le-Monial era uma relíquia de Cluny, fiquei encantado!

Bem, então nós agora estacamos de repente, e nós nos perguntamos o seguinte: o que é que foi que aconteceu? Esta marcha de maravilhas foi interrompida e os homens perderam a noção do que é que lhes estava preparado. Nós não temos ideia do que o gênero humano poderia ser, nós não temos ideia do que poderia ser o esplendor da própria vida terrena, porque se pareceria com o céu. E nós não podemos fazer de algo um elogio maior do que dizer que se pareceria com o próprio céu. Esta maravilha foi interrompida e nós não temos ideia de como ela seria. Foi interrompida por um pecado, por um pecado imenso, e por causa disto começou então uma degringolada imensa. E o caminho da degringolada é o próprio caminho da ascensão, só que de cabeça para baixo.

* Nós vemos a degringolada que começa com a Revolução. E nós chegamos a este verdadeiro inferno. O que caracteriza esse inferno?

Tudo o que eu acabei de dizer aos senhores da caminhada de ascensão em ascensão, é a lei de Newton para cima. É claro. O justo é atraído pela Rainha dos santos e através d’Ela a Nosso Senhor Jesus Cristo, na razão inversa do quadrado das distâncias, na ordem direta da massa, desde que se saiba interpretar em termos espirituais isto aí. E quer dizer: quanto mais ele sobe, mais ele é atraído e convidado a subir, e quanto mais ele é convidado a subir, mais ele vai ficando parecido com Ela. E quanto mais ele vai ficando parecido com Ela, mais Ela o quer atrair e mais ele quer subir. E isto vai numa porfia, até o momento em que ele sente os braços d’Ela em torno dele e dizendo: “Meu filho, chegaste”. É este o momento.

Nós vemos a degringolada que começa com a Revolução. E nós chegamos a este verdadeiro inferno, porque o que nós temos diante de nós é um inferno. Bem, o que caracteriza esse inferno?

Os senhores estão pensando que eu vou lhes falar a respeito de horrores. E que eu vou lhes apresentar mais uma vez a descrição deste mundo contemporâneo, tantas vezes descrito nos seus horrores. Mas não é propriamente do que eu quero falar. Este inferno não é só nem é principalmente o inferno dos “punks”, é o inferno dos homens que são indiferentes diante disto, e que perderam a noção das dimensões. Perderam a noção de até onde vai a grandeza, e perderam a noção de até onde chegou e poderá chegar a torpeza. E por que perderam essa dimensão?

Eles podem ficar colocados diante da maior torpeza, e ficarem indiferentes. Eles podem estar em presença da maior grandeza e não perceberem. Eles estão atolados numa forma de infâmia que se chama a mediocridade transformada em ídolo, em que a pessoa não gosta de pensar que sua alma pode ser tão grande, não gosta de pensar que ela pode ser tão infame. Porque é mais ou menos como uma ave drogada e viciada, que não gosta de abrir suas asas inteiras, que as gosta de abrir um pouco para um vôo de frango, mas não gosta de abri-las para grandes vôos.

* São as almas com asas de galinha que constituem a mediocridade contemporânea

São essas almas com asas de frango, com asas de galinha para melhor dizer, são essas almas que constituem a mediocridade contemporânea. Elas veem na fímbria do horizonte a infâmia fazer seu bailado caótico e desordenado. Olham e não se movem. Tomam a coisa como banal. Por quê? Porque elas não querem ver em nada a grandeza, nem no mal. Tudo é do tamaninho delas e fora disto elas não querem reconhecer nada, não querem aceitar nada, não querem admirar nada. Não querem também repelir nada.

Eu hoje contei na Reuniões de Recortes – e isto filtrará especialmente entre os senhores, porque alguns dos senhores frequentam a Reuniões de Recortes – uma série de infâmias e torpezas contemporâneas. Talvez nenhuma delas fosse tão impressionante quanto a que contou… Ele não vai a estádios, mas todos sabemos que o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro é um grande estádio, disseram-me durante a reunião que é o maior estádio do mundo. Bem, nesse estádio, em forma circular, nesse estádio realizam-se disputas de futebol. E conhecidos residentes no Rio contaram a ele que foram a uma partida de futebol e vieram trazendo as impressões da partida de futebol.

Famílias inteiras vão, não vai mais só, como há uns vinte anos atrás, o homem, e a senhora fica em casa fazendo tricot, mas vai o homem, vai a mulher, vão as crianças, vai a casa inteira. Famílias inteiras vão assistir o jogo, e lotam o Maracanã. E a torcida se divide de um lado e doutro.

E quando começa a torcida do futebol, os respectivos torcedores começam a gritar insultos para o outro lado da torcida. Mas esses insultos se transformam rapidamente em obscenidades e são famílias inteiras que berram obscenidades para outras famílias. Pai, mãe e filhos gritando juntos uma obscenidade ou um dilúvio de obscenidades para famílias em frente, que estão gritando um dilúvio de obscenidades também. Quer dizer, famílias ululando obscenidades umas para as outras é a última palavra. E depois, a propósito do quê? Da gratuidade, do arbitrário de uma preferência por um clube de futebol; para ganhar o clube tal e não o tal outro.

* Gente que vê a luta entre a verdade e o erro, ente o bem e o mal, o belo e o feio com a maior indiferença, vai torcer gratuitamente por um clube de futebol. Por que?

Gente que vê a luta entre a verdade e o erro, bem e mal, belo feio com a maior indiferença, vai torcer gratuitamente por um clube. Por que? Por vai ver ali o filho, porque o clube é perto, porque resolveu torcer, nem sabe porquê. E por isso brada obscenidades, injuria a Deus no mais alto do Céu, injuria Nossa Senhora, fazendo essas obscenidades.

Mais ainda, pior. E eu disse em JG e repito aqui que, se não fosse para o louvor e para o serviço de Nossa Senhora, nós deveríamos velar a Sagrada Imagem aqui presente, antes de contar o que o major contou. Os senhores sabem que os estádios têm as arquibancadas em forma de gradis. Da parte superior dos gradis, um homem para manifestar sua repulsa, indignação, sei lá para que, resolveu verter líquido sobre o que estava embaixo, de público, na presença de todo mundo. O indivíduo assim atingido tentou uma reação. Ele levou, – o que reagiu – levou uma tal pedrada e compreendeu, na inconformidade do público com a reação dele, compreendeu tão bem que o público todo ficaria contra ele, que ele engoliu a pedrada, quer dizer, aceitou – engoliu neste sentido – aceitou a imundície e não protestou. E a partida de football continuou.

Se se chega num estádio a uma torpeza dessas, não tem mais o que dizer. Experimentem contar essas torpezas. Da parte de gente que talvez não fosse a um estádio ou se estivesse no estádio não bradaria essas torpezas, os senhores não vão encontrar indignação. Aqui está, aqui está a tragédia. Porque se alguns, um milhão de infames fizesse infâmias, mas houvesse uma linha além da qual houvesse depois muitos milhões que dissessem: “é uma infâmia, nós protestamos”, etc., etc., a tragédia não estaria completa. A tragédia está completa por esta falta de… quer dizer, não há um marco divisório. É, para usar uma frase de Virgílio que meu professor de latim gostava de repetir: “rari nantes in gurgite vasto” – do naufrágio, raros ficam sobrenadando na imensidade do mar. É isto que se dá.

* Uma população humana que recusa a grandeza ou atirando-se no abismo de toda abominação ou olhando a grandeza com indiferença

E os senhores compreendem então que está no mais interno dos sentidos da Bagarre [palavra francesa que significa quebra-quebra, caos, confusão com violência, no jargão utilizado na linguagem corrente da TFP para sintetizar os castigos profetizados por Nossa Senhora em Fátima, em 1917, caso a humanidade não se convertesse e fizesse penitência por seus pecados, n.d.c.] dessa Bagarre da qual nós tanto falamos, está na essência dela o seguinte: se o bem que se cortou foi tão imensamente grande, se o mal que se fez foi tão imensamente grande, é porque todas as dimensões de tudo quanto toca a alma humana são dimensões imensamente grandes. Que um homem se salve é uma coisa imensamente grande. Que um homem se perca é uma coisa imensamente grande. Que nações se salvem, nações, áreas de civilização se salvem ou se percam, tudo isto é imensamente grande. E nós estamos fundamentalmente diante de uma população humana que recusa a grandeza. Recusa de duas maneiras. Uns atirando-se no abismo de toda abominação e gargalhando lá de dentro e insultando a grandeza. E outros, pelo contrário, olhando com indiferença e dizendo: “nada é grande”.

De maneira que, se os senhores contarem este fato que estou dizendo aqui, os tais meios sociais amorfos dirão: “Lá é mesmo um pouco exagerado, no Maracanã… Sabe como é… um clima muito quente, o pessoal lá facilmente sobe o sangue à cabeça. Eles então se injuriam”. A gente poderia dizer: “mas seu animal eles passaram séculos sem se injuriar e vão se injuriar agora?” Resposta dentro dele: “é, está vendo, você tem uma lógica implacável, não tem bom coração”. Quer dizer, como você me disse a verdade, você a mim me injuria. Eles não ficam com ódio do homem imundo que atingiu a dignidade do outro e ficam com ódio de nós, porque nós dissemos a verdade.

Então, tem que ser que em determinado momento, marcado por Deus – e nesta marcação influi Nossa Senhora da maneira que eu vou enunciar aos senhores – tem que ser que em determinado momento há de intervir a Justiça divina e há de dizer: “Chega e chegou!” E que o castigo d’Ela tem que ser de impor a grandeza d’Ela a essa gente que recusou. E essa imposição da grandeza não pode deixar de ser uma imposição tal que seja, antes de tudo, um grandíssimo castigo.

* No que consiste a conversão? É preciso que as pessoas passem por uma forma de sofrimento onde elas abjurem o erro onde estavam

Aí os senhores podem medir, pela lei das grandezas, os senhores podem medir o tamanho do castigo, o tamanho do infortúnio e o que é que esse infortúnio vai querer arrancar das almas humanas; qual é a forma de conversão que vai querer arrancar das almas dos homens que ainda vão viver nesta terra, ou daqueles que – desejamos que sejam numerosos – se convertam “in articulo mortis”.

Então, no que consiste a conversão? Porque agora aqui vem o ponto: é preciso que as pessoas passem por uma forma de sofrimento por onde elas abjurem o erro onde estavam. Ao pé da letra, queimem o que adoravam e adorem o que queimavam. Quer dizer, formem pela experiência, com o auxílio da graça, uma concepção desta vida que elas não tinham.

Concepção que não pode deixar de ser a seguinte: “Que infortúnio espaventoso me aconteceu! Como foi que eu fui arrojado pelas circunstâncias de dentro do meu leito macio, de meu conforto de todos os dias, para esta tragédia horrível? Eu estou na quinta fila que vai ter que ir pelo despenhadeiro escolher se morre no cano do revólver ou da metralhadora ou se, pelo contrário, se joga. Esta quinta fila – ele joga uma fila por dia – eu tenho cinco dias para escolher. Cinco dias são 120 horas, 120 horas são lá 720 ou 7.200 minutos, sei lá quanta coisa são. E eu olho, vejo o sol se mover e cada vez que eu vejo no chão uma folha, uma sombra que mudou de forma, o relógio de Deus em cima marcou que eu me aproximei um pouco mais da hora em que eu vou ter que fazer a opção. E eu não tenho coragem. Que pavor morrer com um tiro! Que pavor, de outro lado, morrer naquela selva! Viver? Viver para que? Ooooh!

E aí, o nhonhô senta e faz uma coisa que ele nunca fez na vida: pensa. Pensa e pergunta: “Como foi que me aconteceu isto?” E depois faz esta pergunta: “Mas era possível isto na vida humana? Eu estava certo que não era possível, que isto não ia acontecer. Como é que afinal aconteceu?” Depois faz outra pergunta: “Mas então, o que é que é a vida humana?” E depois outra pergunta: “Mas então eu pequei? De que tamanho foi esse pecado? Mas então, de que valor é essa virtude a que eu renunciei?

“Como tudo é grande! como há por detrás disto um Deus infinitamente grande, que dava um sentido enorme às palavras que eu babava, aos minutos que eu desperdiçava, aos pecados que eu ejetava com todo desembaraço – tudo me parecia tão trivial, tão pequeno, tão do meu tamanho…! E agora eu vejo que Deus, ótimo-máximo, perfeito, eterno, tinha o Seu olhar fixo em mim! Enquanto eu fazia bagatelas, isto repercutia com desagrado diante de Seu trono eterno. E quando eu fazia pecados, era Ele que eu ofendia e eu tinha a impressão de que não tinha importância ofender a Ele, porque nada era importante, senão eu fazer o que eu queria. Oooh! Como tudo é grande! Como a grandeza dá o sentido de todas as coisas. “Peccavi cogitatione, verbo et opere, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa!”

* Aí sim o “Confiteor” sai da alma imunda e dos lábios indignos e sob a forma de uma purificação

Aí sim, e aí o Confiteor sai da alma imunda e dos lábios indignos e sob a forma de uma purificação. E aí ele muda. Compreendeu a grandeza. E aí as coisas tomaram dimensão. Aí ele teve olhos para ver, aí ele nasceu, porque o homem enquanto não compreende essa imensa dimensão de todas as coisas, ele absolutamente não vive. Ele é uma criança que o sofrimento tem que arrancar de cada qual, para conduzir cada qual a essa seriedade enorme diante de todas as coisas. Seriedade pasmosa que a Igreja canta tão bem no “dies irae, calamitatis et miseriae”, etc., etc., que é o cântico dos defuntos da Missa de Requiem.

Propriamente, o cadáver devia estar ali, e diante dele se cantar: “o dia aquele, o dia da ira, da calamidade e da miséria, quando vieres para julgar” – e ali está o morto esticado, transformado num banquete potencial para os vermes, que já estão formigando na terra à espera de matar a fome nele. Ele que minuto antes de morrer ainda era tão precioso, e que vai daqui a pouco ter verme saindo, entrando pelo ouvido, saindo pelo olho, passeando dentro do nariz, e devorando o coração tão sentimental, tão nhonhô e tão bobo que ele tinha. Aí a grandeza aparece. Aí a pessoa nota e aí é que as pessoas começam a tomar a dimensão da realidade.

Porque o Reino de Maria eu só o vejo, eu só o imagino assim: almas enormes, voltadas para o enormemente grande, para o prodigioso, para o portentoso, para o divino, e eu não preciso dizer mais nada. Para Deus! Deus infinito, Deus supremo, Deus eterno, Deus do Qual nós não podemos ter senão uma ideia que de nenhum modo nos satisfaz, apenas nos acende a vontade da visão beatífica.

E então, para nós tudo mudará. Nós compreenderemos como tudo na terra é grande, como tudo nesta vida é sério, como nós temos responsabilidade por tudo, e como a vida não é um jardim agradável para nós passarmos de deleite em deleite.

Mas, mesmo no Paraíso, aonde o homem gozava da felicidade natural, gozava de dons preternaturais, e ainda quando Deus vinha, na brisa da tarde, passear com Adão, e lhe mostrar as belezas do universo que Ele tinha criado – ainda no próprio Paraíso a vida não era isto!

As pessoas imaginam que a vida terrena era no Paraíso uma espécie de vilegiatura, de turismo perpétuo e agradabilíssimo, “Grande Hotel do Paraíso”. É uma concepção completamente errada. No Paraíso mesmo, a alma de Adão tinha que ser sedenta de grandezas cada vez maiores, de esplendores e magnificências cada vez maiores. E cada vez que Deus vinha passear com ele na brisa da tarde, Deus dizia a ele coisas ainda maiores. E Deus ia olhar se ele tinha aproveitado o da véspera e se ele tinha crescido tanto quanto a manifestação, a teofania da véspera tinha proporcionado.

* Viver é lutar só porque o homem decaído não sobe sem a luta, mas o sentido da luta é de abrir o caminho para subir

Quer dizer, o que é viver? Viver é subir. Alguém me dirá: “Mas então, errou Gonçalves Dias quando disse “viver é lutar, a vida é combate”? Eu digo: viver é lutar só porque o homem decaído não sobe sem lutamas o sentido da luta é de abrir o caminho para subir. É abater tudo quanto nos impede de subir, remover tudo o que nos impede de subir, para subir.

Os senhores imaginem um homem que gosta de ascensões em montanhas, Andes, Alpes, Pirineus, o que queiram imaginar. Mas um homem que fosse insensível a panoramas, gostasse apenas de pedra, chão duro, fazer força e me dissesse: “Não, eu chego lá em cima, panorama nem ligo, o que eu gosto é de fazer o esforço”. Eu lhe diria: “Meu caro, nossa conversa parou. Eu compreendo que se goste de fazer tal esforço para conquistar o panorama. Mas agora, vai de árvore em toco, de precipício em pedra, para chegar lá e não ver nada? Depois descer de novo? É melhor andar na rua, até a rua Martinico Prado é melhor do que isto!”. Quer dizer, o combate é muito nobre, é muito belo, sob a condição de ser para subir. O que não for ascensão não adianta nada.

E então, as almas do Reino de Maria, temperadas pelo sofrimento e tendo conhecido na vastidão do drama a grandeza do castigo, e a grandeza do juízo de Deus, tendo visto interferências miraculosas de Nossa Senhora, tendo visto manifestações miraculosas de Nossa Senhora...

Se Nossa Senhora, meus caros, apareceu para os três pastores em Fátima, para avisar que a Bagarre podia vir, os senhores não acham ultra normal que Ela apareça durante a Bagarre, na Sua glória e na Sua majestade, para ajudar a lutar?! Não acham mais do que natural que por ocasião da vitória d’Ela, Ela venha Ela mesma seja o brilho de nossa vitória, de maneira tal que nós olhamos para Ela e vendo nEla a Mãe de Jesus, nós possamos dizer: “Vós sois, ó Mãe de Deus e nossa, a nossa recompensa demasiadamente grande?” É natural.

E nestes extremos está o itinerário que nos espera. Haverá um momento da Bagarre em que – lamentavelmente, mas é assim – haverá um momento na Bagarre em que alguns se perguntarão: “Mas este castigo não é um castigo demasiadamente grande? Eu pequei, eles pecaram. Mas, ó Deus, que castigo! Eu enlouqueço de sofrer e vejo os outros enlouquecerem também!”

* “Serei, Eu mesmo, a vossa recompensa demasiadamente grande”

Neste momento, os que forem fiéis devem lembrar: se eles atravessarem a Bagarre fiéis, ou morrendo durante a Bagarre e abrindo os olhos para Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem Nossa Senhora os apresentará e que disse de Si mesmo – Nosso Senhor disse isto de Si mesmo -: “Eu serei, Eu mesmo, a vossa recompensa demasiadamente grande”, então terão a recompensa nessa hora. Os que viverem verão o esplendor da Bagarre, e eles, por terem passado pelo castigo na aparência demasiadamente grande, chegarão ao momento da recompensa demasiadamente grande. Com a diferença que o castigo será demasiadamente grande apenas na aparência, porque por mais forte que ele seja, ele não estará à altura do pecado. Enquanto a recompensa será demasiadamente grande ao pé da letra, porque Nosso Senhor Jesus Cristo não tem proporção com nenhuma criatura e Nossa Senhora não tem proporção com nenhuma das outras criaturas. De maneira que elas são, realmente, demasiadamente grandes.

Mas isso supõe que nós saiamos com seriedade de dentro de uma certa perspectiva limitada, pequena, e que nós percamos nós mesmos o hábito de ver o horizonte das coisas num tamanho pequenino. E que nós subamos com nossas almas, de escalão em escalão para alturas sempre maiores. O que é que são essas alturas?

Com isso, na medida em que a minha voz me permita, eu termino a reunião. O que é que são essas alturas?

Essas alturas são, no fundo, o seguinte: o homem tem o senso do seu próprio ser. E o senso do seu próprio ser… Ele tem o senso antes de tudo do ser, de que algo é, isto é inato nele. Ele nota que ele é, e daí se desprende por via de raciocínio, a ideia de Deus. Mas desprende necessariamente se ele for lógico. Com a ideia de Deus lhe vem – quando ele é isso, por força sobrenatural do batismo e da graça – quando ele está na idade de aprender, lhe vem o conhecimento das verdades sobrenaturais. E o dom da Fé que ele recebeu no batismo floresce nele em convicções. Ele fica absolutamente certo daquilo.

Bem, e ele tendo aquela convicção, aquela visão das coisas, ele toma um certo sabor do eterno, do absoluto, do perfeito, que faz com que algo de delicado na alma dele – mas delicado como pode ser delicada a lâmina de uma espada, flexível, mas invencível – algo de delicado assim na alma dele se volte para um mundo que não é o terrenoE que compreenda que tudo quanto é terreno é secundário, é apenas uma imagem ou semelhança de outra coisa muito maior que isto, e pela qual de fato a gente lutaE que começa então a tomar todas as coisas que existem, procurando nelas apenas a semelhança do espiritual e depois do eterno.

Então, toma as coisas da Fé, toma as coisas da natureza e passa a vida fazendo essas comparações, no fundo para formar uma ideia da grandeza subsistente em si mesma, que é o esplendor eterno e inefável da Santíssima Trindade.

* Ou a gente tem este tamanho das coisas como medida comum de viver ou não vive, porque viver é isto

É assim que a gente vai ficando grande. Quando uma civilização é constituída de almas assim, ela não escala de gótico em gótico, nem de vitral em vitral, nem de Godofredo em Godofredo e de Balduíno em Balduíno. Ela de tal maneira floresce e superfloresce que, se nós a pudéssemos ver de longe, nós diríamos: “Mas quem é que mora aqui? Quem fez isto? Nesta cidade onde não estou encontrando ninguém, quem delineou esses monumentos? Será que não foram Anjos que resolveram vir brincar com a matéria e fizeram essas coisas?

É assim, é desejar chegar até lá que o homem deve querer, porque o próprio do homem é querer subir tanto que ele toca com a ponta da mão naquilo que o superior dele por bondade deixa encostar nele. É nesta conjunção que o homem atinge o seu auge.

E é como que – não angelizado ao pé da letra, não é possível, nós somos de matéria – mas como que angélica a civilização que diante de nós se abre, o futuro Reino de Maria. Uma civilização que, como que, como que, como que – e ponham quinhentas mil aspas no que vou dizer agora – seria… iria progredindo de Anjo em Arcanjo, de Arcanjo em Dominação, em Trono e Potestade, até o seu último esplendor. De tal maneira que, se não houvesse o pecado, ela seria tão bela que um dia Deus decretaria o fim do mundo dizendo: “O meu plano de beleza está executado”!

Ou a gente tem este tamanho das coisas como medida comum de viver ou não vive, porque viver é isto! é ter estes parâmetros. Como parâmetro é baixo para falar disto! Mas eu não encontro outra palavra no momento. É ter esses parâmetros, e ter no fundo da alma constantemente isto, de maneira que a pessoa mede todas as coisas, analisa todas as coisas, forma juízo a respeito delas com suma facilidade e sumo acerto, tanto quanto está na fragilidade humana. Por quê? Porque tem Fé e crê na Igreja infalível e conforma seu pensamento com o da Igreja infalível. Porque é fiel à graça e tem esse parâmetro enorme do amor de Deus, e mede tudo de acordo com esse parâmetro. Tudo fica claro e começa a engendrar então o século vindouroIsto é propriamente progredir, isto é propriamente viver, isto é que faz desta vida não o inferno presente, mas a antecâmara do Céu.

Não sei se com isto – a minha voz está esgotada e minhas possibilidades, eu ainda estou com importantes restos de resfriado, minhas possibilidades de falar também não vão mais longe – mas eu não sei se com isto eu atendi o vosso pedido.

* Mar, venha, porque no meio de tuas borrascas, tu és o meu caminho para chegar até o fim! Isto nós dizemos para a Bagarre!

Mas os senhores sabem quanto eu venero Carlos Magno, quanto eu venero e cultuo São Luiz, São Fernando e todos os grandes heróis da Civilização Católica ou da Igreja Católica. Está bem. Eu termino dizendo isto: São Luiz Grignion de Montfort disse que os santos dos últimos tempos comparados aos antigos vão ser como árvores enormes comparadas com graminhas ou com arbustos – eu não me lembro bem – com graminhas, comparados com graminhas.

Bem, mas se é assim, o brilho da Igreja nessa época seria o brilho total dEla. E o que nós vemos hoje da Igreja e que nos parece belo como o sol, e que é belo como o sol, nessa ocasião não será apenas belo como o sol. Mas, para fazer uma comparação própria, a Igreja hoje traz, ela é a imagem da própria face sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas nós devemos imaginar na face de Nosso Senhor Jesus Cristo não em algumas das ocasiões sublimes de Sua vida, mas que face Ele tinha quando Ele falava a sós com Maria. O que que aí saía d’Ele para se revelar a Maria? E o que Maria via dEle naquela hora? É assim a transparência da beleza marial da alma humana no Reino de Maria. E é assim que Nosso Senhor Jesus Cristo olhará para uma Humanidade inteiramente marianizada.

Se tão grandes vão ser os santos, quão grande será a Civilização! Quão grande, quão visível será o esplendor da Igreja Católica! Nós nem sequer sabemos dizer. Não sabemos dizer, mas sabemos ao menos ver de longe, e já de longe saudar e aclamar e nos alegrar e ter esperança.

Os senhores imaginem um homem que navega e que, de repente, de longe, de longe, vê, na fímbria do horizonte, por uma dessas coisas que seria uma exceção à regra, uma exceção inimaginável, ele vê, no fundo do mar, um litoral maravilhoso que o atrai fantasticamente. Ele olha para aquilo e ele diz: “Mas eu pareço ter nascido para viver nesse litoral!” E saúda o litoral de longe. Um Anjo vem e lhe diz: “Mas tu terás que atravessar o mais tormentoso dos mares para chegar lá”. Ele dirá: “Uma vez que eu vi, eu o saudei, uma vez que eu o saudei, eu me dei. Mar! que venha, porque no meio de tuas borrascas, tu és o meu caminho para chegar até lá”! Isto nós dizemos para a Bagarre! (aplausos)

Não vale a pena nem se sentarem, porque eu estou terminando.

Saudando-a, saudando com alegria a justiça purificadora e terrível de Deus e dizer: “Ondas que me ameaçais, eu vos venero e vos desejo, eu tenho sêde de vossos castigos, para repor minha alma em ordem, e eu ter em mim a grandeza contra a qual eu pequei. Ondas regeneradoras, açoitai-me e fustigai-me! Ó minha Mãe, dai-me coragem para aceitar esses açoites e essas fustigações para que eu chegue até o fim. Mas eu aceito tudo, porque eu mereço tudo e porque eu espero tudo!”

E com isto, terminar esta oração – porque acabamos juntos de fazer uma oração – com a nossa Salve Regina de todas as noites. E assim terminamos.

Salve Regina, Mater misericordiae…

Com áudio https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Mult_790804_Bagarre.htm#.YjfrWerMKMo

Artigo anteriorEfemérides – 20/03
Próximo artigo21/03 – São Nicolau de Flue, Confessor
Homem de fé, de pensamento, de luta e de ação, Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) foi o fundador da TFP brasileira. Nele se inspiraram diversas organizações em dezenas de países, nos cinco continentes, principalmente as Associações em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que formam hoje a mais vasta rede de associações de inspiração católica dedicadas a combater o processo revolucionário que investe contra a Civilização Cristã. Ao longo de quase todo o século XX, Plinio Corrêa de Oliveira defendeu o Papado, a Igreja e o Ocidente Cristão contra os totalitarismos nazista e comunista, contra a influência deletéria do "american way of life", contra o processo de "autodemolição" da Igreja e tantas outras tentativas de destruição da Civilização Cristã. Considerado um dos maiores pensadores católicos da atualidade, foi descrito pelo renomado professor italiano Roberto de Mattei como o "Cruzado do Século XX".

Deixe uma resposta