Em 1539, Francisco de Borja recebeu a dolorosa incumbência de acompanhar até Granada os restos mortais da imperatriz Isabel. Antes do sepultamento, foi necessário abrir o caixão para que ele confirmasse a identidade do corpo. Diante da transformação sofrida por aquela que fora cercada de majestade e honras, o nobre espanhol compreendeu de modo especialmente vivo a fragilidade das grandezas humanas.
Naquele momento, decidiu não mais colocar sua vida a serviço de um senhor terreno sujeito a semelhante mudança. Ainda transcorreriam alguns anos antes que pudesse atender plenamente ao chamado religioso, mas a cena permaneceu como um marco de sua conversão interior: as honras, a beleza e o poder passam; o serviço de Deus permanece.
Da corte espanhola ao ducado de Gandia
Francisco de Borja nasceu em 1510, no seio de uma das famílias mais ilustres da Espanha. Era filho do duque Juan Borja, bisneto do papa Alexandre VI e neto do rei Fernando de Aragão. Criado na corte de Carlos V, recebeu sua formação em Saragoça.
Em 1529, casou-se com Leonor de Castro, com quem teve oito filhos. Acompanhou Carlos V em expedições à África, em 1535, e à Provença, no ano seguinte. Entre 1539 e 1543, exerceu o cargo de vice-rei da Catalunha. Depois, tornou-se duque de Gandia, dignidade que conservou entre 1543 e 1550.
A viuvez, em 1546, abriu o caminho para que sua vocação religiosa amadurecesse. Amigo e conselheiro de Santo Inácio de Loyola, Francisco ingressou na Companhia de Jesus em 1548 e recebeu a ordenação sacerdotal em 1551. A escolha representava uma ruptura profunda com o ambiente de precedências e privilégios no qual havia vivido. Procurava afastar-se das dignidades, mas a obediência o conduziria novamente a pesadas responsabilidades.
A humildade como conhecimento de si
São Francisco tornou-se conhecido como pregador e por uma humildade que não consistia em simples modéstia exterior. Em uma viagem, um nobre perguntou-lhe como suportava tantas fadigas em meio à pobreza. O santo respondeu que não viajava tão desprovido quanto parecia: enviava adiante o conhecimento de si mesmo e a lembrança de seus próprios deméritos, como se fossem encarregados de preparar-lhe a hospedagem.
A resposta exprimia uma disposição espiritual cultivada pela meditação sobre as humilhações de Nosso Senhor. A recordação de suas faltas impedia que as dificuldades do caminho lhe parecessem indignas ou excessivas. Quem havia conhecido os salões da corte aceitava agora a pobreza e o cansaço sem se julgar merecedor de tratamento especial.
A experiência diante do corpo da imperatriz ensinara-lhe a caducidade da grandeza temporal. A contemplação de Cristo humilhado levou-o mais longe, mostrando-lhe a dignidade sobrenatural da humildade cristã. Não se tratava de negar os deveres próprios de um cargo, mas de exercê-los sem transformar a posição social ou religiosa em objeto de vaidade.
À frente da Companhia de Jesus
Francisco recebeu a responsabilidade pelas missões jesuíticas nas Índias Orientais e Ocidentais. Em 1560, foi nomeado comissário-geral da Companhia de Jesus na Espanha e, em 1565, eleito superior-geral da Ordem.
Durante seu governo, a Companhia estabeleceu missões na Flórida, na Nova Espanha e no Peru, além de desenvolver suas estruturas internas. Francisco percebia, contudo, que a multiplicação das atividades poderia prejudicar a vida espiritual dos religiosos. Por isso, estabeleceu a prática cotidiana de uma hora de meditação, procurando assegurar que o trabalho apostólico permanecesse alimentado pela oração.
A reorganização e a revitalização promovidas em seu generalato fizeram com que fosse algumas vezes chamado de segundo fundador da Companhia de Jesus. Colaborou também com São Pio V e São Carlos Borromeu nos esforços da Reforma Católica.
A última missão
Quando o avanço turco ameaçava a Cristandade, São Pio V enviou um sobrinho para procurar reunir os príncipes cristãos em uma liga defensiva. O Papa escolheu Francisco de Borja para acompanhá-lo. Embora sua saúde estivesse enfraquecida, o santo obedeceu prontamente.
As fadigas da missão consumiram as forças que ainda lhe restavam. São Francisco de Borja morreu em 10 de outubro de 1572, durante o retorno a Roma. Aquele que procurara fugir das honras terminava a vida no cumprimento de uma incumbência recebida por obediência.
Sua trajetória não apresenta a vida religiosa como desprezo irresponsável pelos deveres temporais. Antes de entrar na Companhia de Jesus, Francisco foi esposo, pai, vice-rei e duque. Quando pôde deixar essas funções, levou consigo uma lição adquirida em meio à própria grandeza: tudo o que é terreno deve ser ordenado ao serviço de Deus, pois nenhuma posição humana está livre da passagem do tempo e da morte.




