Em plena caçada, Huberto perseguia um cervo quando o animal subitamente parou e se voltou para ele. Entre seus chifres, o caçador viu um crucifixo. A narrativa tradicional de sua vida situa nesse encontro extraordinário o momento decisivo de sua conversão: advertido de que desperdiçava o tempo destinado à própria salvação, Huberto desceu do cavalo, prostrou-se e perguntou o que deveria fazer.
A resposta o encaminhou a São Lamberto, bispo de Maastricht. Começava assim uma mudança completa: o nobre dedicado aos divertimentos da corte e à caça tornar-se-ia penitente, eremita e, por fim, sucessor de São Lamberto no episcopado.
Da formação piedosa às distrações da corte
Huberto era filho de Bertrand, duque da Aquitânia. Recebeu na infância uma formação religiosa, acompanhada com particular cuidado por Santa Oda, irmã de sua mãe. Mais tarde, porém, ao frequentar a corte do rei Teodorico e depois a do duque Pepino de Herstal, afastou-se da vida de piedade.
Casou-se, a pedido de Pepino, com a virtuosa Floribana. O matrimônio, contudo, não alterou imediatamente sua conduta. Seus dias continuaram ocupados por jogos, banquetes e longas caçadas pelos campos e florestas. Santa Oda, entristecida ao vê-lo inteiramente absorvido por interesses mundanos, rezava diariamente por sua conversão.
Foi nesse período que ocorreu o episódio do cervo. Diante do crucifixo que teria aparecido entre os chifres do animal, Huberto ouviu uma advertência sobre o emprego de seu tempo e o perigo de perder a própria alma. Tremendo, perguntou:

Senhor, que quereis que eu faça?
Recebeu então a ordem de procurar o bispo Lamberto em Maastricht, pois ele lhe mostraria o caminho a seguir.
Confissão, penitência e renúncia
Huberto apresentou-se a São Lamberto e, tomado pelo arrependimento, mal conseguia falar por causa das lágrimas. Depois de ouvir o relato, o bispo encorajou-o a confiar na misericórdia de Deus, orientou-o a fazer uma confissão completa e lhe indicou como deveria conduzir a vida dali em diante.
Ao voltar para casa, Huberto não divulgou o que lhe acontecera. A transformação tornou-se visível por sua conduta. Seu maior desejo passou a ser abandonar as preocupações mundanas para servir a Deus com maior perfeição.
Floribana morreu pouco depois de dar à luz um filho. Huberto procurou novamente São Lamberto e manifestou a intenção de viver como eremita, em penitência pelos pecados passados. Antes de realizar esse propósito, permaneceu junto ao pai gravemente enfermo até sua morte.
Como herdeiro do ducado, Huberto poderia ter assumido uma posição de grande poder. Preferiu, entretanto, entregar o governo ao irmão mais novo. Distribuiu seus bens aos pobres, reservando apenas o necessário para o sustento do filho, cuja educação confiou ao irmão. Livre dessas obrigações, retirou-se para a floresta associada à sua conversão e ali viveu durante sete anos em grande austeridade.
Peregrino em Roma e sucessor de São Lamberto
Depois desses anos de recolhimento, Huberto sentiu o desejo de peregrinar a Roma. Com a permissão de São Lamberto, partiu pobremente e visitou com devoção as igrejas e os túmulos dos santos.
Durante sua permanência na cidade, São Lamberto foi assassinado dentro de sua igreja, após repreender sem temor a vida desregrada do rei. O relato hagiográfico afirma que um anjo comunicou a morte ao papa Sérgio e lhe indicou Huberto, que entraria no dia seguinte na igreja dos Apóstolos, como sucessor do mártir.
Quando Huberto chegou vestido como peregrino, o Papa perguntou-lhe quem era e de onde vinha. Ao saber que se tratava do discípulo de São Lamberto, anunciou-lhe que deveria suceder ao antigo mestre. Huberto procurou recusar por humildade, mas terminou por aceitar o encargo e foi consagrado bispo pelo próprio Pontífice.
De volta a Maastricht, foi recebido com alegria pelo clero e pelo povo. Tomou como modelo episcopal São Lamberto, já venerado como mártir. Mais tarde, transferiu a sede para Liège, onde seu predecessor havia sido sepultado.
Um longo trabalho pastoral
São Huberto não se limitou ao governo ordinário da diocese. Procurou conduzir os fiéis pela palavra e pelo exemplo e empenhou-se em extinguir as práticas idolátricas ainda existentes nas regiões vizinhas. Seu apostolado, que teria durado quase trinta anos, levou muitas pessoas à fé cristã.
A transformação iniciada na floresta permaneceu como a nota dominante de sua existência. O homem que antes consumia o tempo em jogos, banquetes e caçadas empregou os anos seguintes na penitência, na oração e no serviço das almas. A caça não era apresentada como má em si mesma; o problema estava no apego desordenado que tomava o lugar dos deveres e da busca de Deus.
Os últimos momentos
Segundo a tradição transmitida em sua vida, São Huberto conheceu antecipadamente a proximidade da morte. Durante sua última enfermidade, recebeu os sacramentos. Diante de uma derradeira provação espiritual, pediu água benta e aspergiu a si mesmo e o leito.
Em seguida, levantou os olhos, recitou o Credo dos Apóstolos e o Pai-Nosso, e morreu. Sua morte é situada no ano de 727. A devoção cristã passou também a recorrer à sua intercessão em favor das pessoas atacadas por animais raivosos.
A vida de São Huberto recorda que a conversão não consiste apenas em experimentar remorso, mas em corresponder concretamente à graça recebida. Ele confessou suas faltas, mudou de conduta, renunciou aos bens, aceitou anos de penitência e, quando chamado ao episcopado, colocou a experiência de sua própria mudança a serviço dos outros. O tempo antes dissipado tornou-se, para ele, ocasião de fidelidade.
