Neste célebre quadro, Giotto* pintou Judas no ato de oscular Nosso Senhor Jesus Cristo. Era o ósculo da traição, no momento em que Nosso Senhor, pouco antes de ser preso e levado para ser julgado e crucificado, acabava de dizer aquelas tremendas palavras: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem!” (Lc 22, 48).

Com toda a sua sublimidade, Nosso Senhor olha para Judas e o analisa até o fundo da alma. Nesse olhar Ele recusa categoricamente a ação infame de Judas; mas, apesar da recusa à infâmia, olha como quem ainda procura algum resto de boas qualidades em Judas. Procura comovê-lo, numa tentativa de ainda obter sua conversão. É um contraste prodigioso!

Judas é baixo, vil, ganancioso, materialista; com seus lábios grossos e indefinidos, que vão se abrindo para o beijo da infâmia, ele procura com o​ olhar turvo sorrir para mentir. Tem-se a impressão (desculpem-me o prosaísmo) de sentir até o seu mau hálito, na hora do beijo da traição. Eles se olham, e nisso se nota o supremo contraste entre a completa infâmia e a suma perfeição.

A alma do católico verdadeiramente sério vive desse contraste: a tendência contínua para ver o mais sublime, juntamente com a compreensão de que no fundo de qualquer coisa censurável está palpitando a infâmia, pronta para saltar e tomar conta do ambiente. Ver o mundo através de contrastes assim é agir com seriedade.

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* Afresco pintado pelo célebre artista italiano da época medieval, Giotto di Bondone (1267-1337), na Capela degli Scrovegni, Pádua (Itália), entre 1302 e 1306.

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 20 de setembro de 1979. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 832, Abril/2020.

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