A demolição despercebida dos simplificadores

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Plateau de fromages. Este artigo vai ser um “plateau de fromages”, prato de variados queijos, espero que aproveite a alguns dos eventuais leitores. Foco em particular tipo humano comum entre nós (explico a seguir a razão), o simplificador. Tantas vezes simplórios, os simplificadores fogem dos contrafortes do pensamento, das nuanças nascidas da observação de quem não tem medo do esforço de enxergar com cuidado. Após reflexões superficiais, saltam de suas cacholas soluções toscas e definitivas, não raro enfáticas. Tortas, atalhos para desastres. Enfim, o simplista em suas reflexões amputa parte substancial da realidade, julga com base em quadro sem elementos fundamentais. Vício entranhado, em parte enraizado na ignorância pretensiosa, difícil de extirpar na maioria das vezes. No longo prazo, é um demolidor das causas que até pode julgar defender. Demolições em geral despercebidas. Se quisermos, um autodemolidor, mesmo que inconsciente e até de boa-fé.

Têm audiência tais pregoeiros de atalhos para fracassos inevitáveis? Têm; e muita. “Stultorum numerus infinitus est” (Ecl 1, 15), infinito é o número de imbecis, constatou Salomão milênios atrás; continua palpitante a desabusada sentença do sábio rei judeu. Também por isso é necessário ter o olho posto nos obstinados amputadores da realidade inteira.

Além da audiência que conseguem, podem ser atraentes? Sem dúvida. Com efeito, para as emaranhadas questões debatidas na esfera pública, os simplificadores indicam soluções fáceis para problemas difíceis; de outro modo, analgésicos para dores lancinantes, até mesmo poções mágicas — na vida privada acontece o mesmo. Sempre é simpático, para quem se sente no pântano, ver gente mostrando trilhos de saída. O problema é que, via de regra, não são carreiros que irão dar na terra firme.

Mais observação, mais pensamento, menos palpites. Por que entrei em tal vereda? Porque pretendia futurar sobre a intricada situação nacional. Mas trombei logo com pilhas de irritantes declarações simplificadoras — o que mais encontrei, aliás, de alto a baixo, em todos os quadrantes. E veio a certeza entristecida, em ambiente dominado por simplificadores, não vai aparecer solução que preste. O debate então pressupõe saneamento prévio, profundidades translúcidas nas concepções, gente menos pitaqueira, que saiba observar bem.

Tirar a pedra do caminho. Por associação de ideias, veio-me incontível ao espírito Jackson de Figueiredo (1891-1928) [foto no topo]. Lá atrás, década de 20, com profundidade translúcida ele já havia realçado o perigo das simplificações para a política brasileira. Valeria a pena divulgar tais opiniões, mas havia uma pedra no caminho (lembrando Carlos Drummond de Andrade), obstáculo que era necessário afastar: o desconhecimento de quem foi Jackson de Figueiredo. Poucos sabem do polemista corajoso, menos ainda, têm noção do seu magnetismo notável — carisma, em qualificação hoje muito empregada — e do seu impacto no Brasil de então. Lembro, ambiente de República Velha, população do Rio de Janeiro naqueles anos a maior cidade do Brasil, pouco mais de um milhão de habitantes; São Paulo, a segunda, em torno de 600 mil. leia-se “Veni, vidit, vincit”, frase atribuída a Júlio César sobre trabalhos seus. Deste sergipano mirrado se poderia dizer o mesmo; chegou cedo à antiga capital federal, participou da vida pública com força e logo triunfou com brilho no meio das escaramuças. Lembrar por alto traços da presença de Jackson de Figueiredo no Brasil, além de tornar mais assimiláveis eventuais citações, é providência útil para elevar os debates em nossos dias.

Meteoro brilhante. Jackson de Figueiredo nasceu em Aracaju, formou-se em Direito na Bahia, teve vida pública no Rio de Janeiro até a morte trágica e inesperada por afogamento na Barra da Tijuca. Jornalista e escritor, publicou seu primeiro livro em 1908 aos 17 anos. Destacou-se como polemista, marcou a cena pública em especial como líder católico de grupos de intelectuais. Estadeou com desassombro suas convicções, embora tenha começado a vida pública como anticlerical raivoso — converteu-se ao Catolicismo em 1918. A partir daí, ascensão segura no meio de certames acirrados. Organizou o movimento de leigos católicos. Fundou o Centro Dom Vital, núcleo de pessoas de valor, criou a revista “A Ordem”, que marcou a vida da inteligência nacional. Jackson sentia-se bem na luta, combateu pela pluma e palavra o liberalismo e o comunismo. “Troquei toda a veleidade de construir por mim só ou com a ajuda deste ou daquele grande espírito uma filosofia da ação. Preferi ser o humilde soldado que sou da Igreja Católica, e me sinto tão orgulhoso disso como se fora um rei”. E assim lutou com denodo para colocar os católicos e os temas católicos nos galarins, enfim retirar a Igreja da situação melancólica sinalada por dom Sebastião Leme em sua carta pastoral de 1918: “Somos uma maioria que não atua; somos uma maioria asfixiada. O Brasil que aparece, o Brasil nação, esse não é o nosso. É da minoria. A nós, católicos, apenas dão licença de vivermos”. Apaixonado, controverso, homem de seu tempo, parte de sua ação seria vista hoje com justas reservas, mas não é o que pretendo realçar. Meu assunto é outro, simplificadores, ou simplistas, vou voltar a ele. Estou apenas aproveitando a ocasião para lembrar em traços rápidos uma personalidade, cujos reflexos no Brasil contemporâneo enriqueceriam o debate, tantas vezes amputado de aspectos importantes, e assim, côngruo lembrá-lo aqui, entre outros efeitos, diminuiria a importância deletéria dos simplificadores.

Morto Jackson, o Brasil ficou mais pobre. Logo após o falecimento de Jackson de Figueiredo, a 4 de novembro de 1928, Carlos Drummond de Andrade, então poeta de pouca nomeada, vivendo na pequena Belo Horizonte, na época com pouco mais de 100 mil habitantes, homem de esquerda, “rigorosamente agnóstico” (palavras suas), publicou uma “Ode a Jackson de Figueiredo” (texto integral estampado em “A Ordem”, dezembro de 1929), que ecoou Brasil afora:

“Jackson, nem amigo, nem inimigo […] espiando teus gestos, tuas palavras e obras, mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida, mais distante ainda dos mundos que exploraste […] aqui estou, testemunha, depondo. Jackson, os que te conheceram e te amaram, os que te conheceram e não te amaram, os que não tiveram tempo de te amar, os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististe, estão todos um pouco mais pobres do que eram antes. Uns perderam o amigo. Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha. Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada. Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson, e eu sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso. Voltou o tempo dos prodígios. Ainda há pescas maravilhosas, eu sei. E os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades, estão cantando a glória do Senhor. Milhares de […] almas elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu […] E nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam, que as ondas arrebatam violentamente, […] enquanto o corpo mergulha. [… ] Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir”.

O prodígio havia se calado. Permaneceu o eco. Até hoje.

O maior paladino suscitado pela Providência. Anos mais tarde, outubro de 1941, em artigo comemorativo do cinquentenário de seu nascimento, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, no “Legionário”, afirmou de Jackson de Figueiredo:

“Invulgar figura, o maior paladino suscitado pela Providência nas fileiras do laicato católico, dele se pode afirmar que não foi dos tíbios que causam asco ao Senhor. Alma forte e inteiriça, atingiu rapidamente em suas obras as culminâncias do senso católico, ao menos sob vários pontos de vista. Batalhador audaz, inteiriço e leal; abominava os silêncios covardes, os disfarces indignos; impávido, pronto para atacar, para discutir e para censurar”.

Na conclusão, a nota do serviço único: “Jackson prestou ao Brasil um serviço incomparável”.

Embates duros no Brasil da República Velha. Desembarco enfim na simplificação. Artur Bernardes (1875-1955) governou o Brasil de 1922 a 1926 sob oposição do tenentismo, de correntes liberais, de setores que hoje seriam apodados de progressistas. Duro, seco, de algum modo representava a reação. Jackson apoiou-o desde o início, via retrocessos preocupantes nas forças que procuravam abatê-lo, estuário de posições revolucionárias por ele guerreadas. Dessa forma, em 1921 se aliou à candidatura Bernardes, considerando-a garantia da ordem e favorecedora da religião. Por ricochete, ficava claro, dava apoio aos grupos políticos que dominavam a política brasileira desde vários lustros. Entre 1922 e 1924, já no governo Bernardes, Jackson agiu contra o tenentismo, movimento perpassado por diagnósticos simplificadores, arroubos autoritários e crença ingênua no poder redentor do Estado. Nesse contexto devem ser analisadas as observações de Jackson:

“Como católico, devo declarar que o que mais admiro em quem quer que seja é a firmeza, a coragem das convicções. […] Criado entre militares, que abundam em minha família, sempre mantive relações de amizade com muitos oficiais. […] Confesso que, se comparo essa gente com as de outras classes com que tenho convivido, acho que a porcentagem de homens de caráter, de vergonha, é maior entre militares. […] O militar é, como o sacerdote, um homem a quem, no início da juventude […] foram impostos hábitos de ordem, método, disciplina e vivamente incutidas as mais nobilitantes virtudes de ordem prática, sobre o valor moral da obediência, do sacrifício de si mesmo”.

Depois de mostrar um lado da moeda, expõe o reverso:

“A vida do quartel e o estudo de suas especialidades, isolando-o, até certo ponto, nesse agitado meio social fazem com que o militar seja, quase sempre, um simplista”. Continua dizendo, um homem mais de imaginação que de experiência. Vale para a profissão das armas, vale para qualquer profissão. Sem cuidados próprios, a maioria das profissões tende a formar profissionais simplificadores. Prossegue Jackson de Figueiredo: “O nosso político, o nosso tão malsinado político tem, em relação ao bom militar, esta indiscutível superioridade; está muito mais a par de nossas necessidades sociais de cada momento, sabe que administrar não é somente mandar e ser obedecido, tem muito mais complexidade intelectual”. Lamenta a inexistência entre muitos homens de uniforme “dessa finura de tato que se requer de um verdadeiro político”.

Planar como o açor. Longo o texto, brado contra simplificações deletérias, curto o espaço meu, vou parar. O que Jackson de Figueiredo lamentava, a análise parcial e geométrica da realidade, amputada de facetas essenciais, persiste ovante, satisfeita, entulha jornais, de modo especial as redes sociais. Sem o hábito de se elevar muito alto, como o açor em caça, e de lá perceber os problemas em toda sua extensão, o debate nacional necessariamente terá premissas pobres e deformadas. E soluções pecas que farão o País deslizar despercebidamente para abismos. Aqui está ponto prévio, indispensável a qualquer discussão proveitosa, cujo destaque é mais uma das benemerências de Jackson de Figueiredo.

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