Brasileiros à altura de nossa missão

Salvador Correia de Sá e Benevides

Estamos comentando as razões de esperança da reedificação do Brasil, as qualidades do brasileiro, os dons com que a Divina Providência galardoou este País.

Hoje focalizaremos um grande herói da nossa história, talvez desconhecido da grande maioria de nossos compatriotas: Salvador Correia de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro e comandante das tropas que libertaram Angola do jugo holandês.

Com a fluência, calor e admiração pelos heróis nacionais de sua pena, Ildefonso Homero Gonçalves Barradas descreve a epopeia de Salvador Correia de Sá e Benevides resgatando Luanda da mão dos protestantes holandeses. Sirva a transcrição deste artigo como uma homenagem póstuma a esse estudioso da História do Brasil, colaborador da revista Catolicismo e um dos fundadores da Seção Gaúcha da TFP. (1)

O quadro histórico

Em 1648, Portugal estava de pazes feitas com a Holanda. Há mais de sete anos D. João IV fora aclamado Rei, desfazendo-se a união com a Espanha, e tanto a fraqueza econômico-militar do país como a perspectiva de represália dos castelhanos, que efetivamente se verificou, tinham imposto ao Bragança uma política de contemporização com as Províncias Unidas.

Os holandeses rompem a trégua no Brasil e em Angola

A gravura neerlandesa mostra o cerco a Olinda em 1630

Mas, decorridos esses anos, já ninguém acreditava naquela paz. A trégua por dez anos fora ajustada em 1641. Apesar dela, Nassau mandou ocupar Sergipe e enviou uma expedição a Luanda. Pouco depois ocupou o Maranhão, prendendo o Governador Bento Maciel, que, acreditando no acordo de paz, esperava entender-se com os agressores.

A reação brasileira e portuguesa

A reação portuguesa não tardou. Não era possível ainda romper a trégua, mas, como observou Southey, adotou-se a política de “protestar paz e fazer a guerra“. Os pernambucanos (Insurreição Pernambucana), menos afeitos à diplomacia da Corte, passaram logo à ação, sublevando-se contra o governo holandês que os oprimia e perseguia a Igreja, procurando impor seu arqui-herético calvinismo.

Antonio Teles da Silva, católico zeloso que na Bahia ocupou o cargo de Governador Ge­ral de 1642 a 1647, estimulava e armava os sublevados, enquanto engambelava os batavos do Recife com infindáveis explicações.

Em Angola, as coisas caminhavam do mesmo modo. Os holandeses, que no início da trégua tinham ocupado Luanda, cercavam agora os nossos em Massangano. A situação era difícil.

Um líder à altura da hora histórica

 Foi nessa ocasião que a intervenção de Salvador Correia de Sá e Benevides, descen­dente de ilustre família portuguesa que deitava raízes na Espanha e ramificações na América Espanhola, salvou para Portugal e para a Igreja, com uma expedição de brasileiros, o belíssimo Reino de Angola (…)

Nascera no Rio de Janeiro em 1594, filho de Martim de Sá e neto de Salvador Correia de Sá, o velho, ambos Governadores daquela Capitania e, este último, primo de Estácio de Sá. Sua mãe, D. Maria de Mendonça Benavides, era filha de D. Manuel de Benavides, Governador de Cádiz, na Espanha, e de D. Cecilia Dormes.

Almirante dos Mares do Sul, nomeado por Felipe IV quando ainda permaneciam unidas as coroas de Espanha e Portugal, submeteu uma violenta rebelião de indígenas na Província de Tucumán, hoje na Argentina, tendo sofrido, na batalha de Palingarta, doze ferimentos. Tão brilhantes foram seus serviços, que recebeu uma honrosa carta do Rei, datada de Madri, em 21 de fevereiro de 1637, nomeando-o Governador, por dois triênios su­cessivos, da Capitania do Rio de Janeiro.

Cavaleiro da Ordem de Santiago da Espa­da, cujo hábito recebera, com dispensa de idade, aos 7 de abril de 1618, tinha servido a Igreja e o Rei na Europa, como homem de corte, e, como administrador e soldado, no Brasil e no Prata. As atividades de Salvador Correia como Governador do Rio de Janeiro e das Capitanias do Sul — entre as quais a de povoador da antiga Capitania de Pero Góis, onde surgiu, sob sua proteção, a hoje episcopal cidade do Santíssimo Salvador dos Campos dos Goitacazes — são dignas de um estudo especial.

Seus horizontes se estendem até a África portuguesa

Em 1647 seu olhar alongava-se para a costa da África, onde o herege ameaçava a soberania do Rei e o apostolado da Igreja.

Exercia suas funções de deputado ao Con­selho Ultramarino, em Lisboa, quando pla­nejou uma expedição a Angola. Nomeado Governador do Rio, pela terceira vez, e Go­vernador de Angola, veio da corte com amplos poderes, chegando à sua cidade natal aos 23 de janeiro do ano seguinte.

Sem perder tempo, começou a organizar a esquadra que levaria para além mar. Para in­tegrá-la, o Conde de Vila Pouca de Aguiar, Governador da Bahia, enviara cinco galeões com gente de armas, que Salvador encontrou ao chegar ao Rio.

Um brasileiro à altura do desafio histórico

Convocando os homens bons da cidade, eclesiásticos, vereadores, magistrados, superio­res de conventos, militares e nobreza da terra, expôs seu plano, dizendo que tinha ordem de El-Rei para estabelecer uma fortificação na baía de Quicombo, na costa de Angola, e que não estava afastada a possibilidade de vir a reconquistar São Paulo de Luanda. Mas precisava de homens para sua esquadra e de dinheiro para financiar o empreendimento.

Os cariocas, que então eram mais conhecidos por fluminenses, responderam ao apelo com entusiasmo. Alistaram-se novecentos homens de infantaria e os donativos subiram a 80 mil cruzados, segundo Varnhagen — soma que terá bastado para esgotar os recursos da praça.

Salvador pôde assim fretar mais seis navios. À custa de sua fazenda, comprou ainda quatro patachos, com o que completou quinze velas armadas e municiadas para sua expedição. Além dos novecentos infantes, levaria trezentos marinheiros.

Determinação: recuperar Angola ou ganhar o Reino dos Céus

A 12 de maio a armada de Salvador Cor­reia de Sá tomava o rumo da África. Chegando à baía de Quicombo, sofreram os nossos um sério revés com o naufrágio da nau-almiranta, causado por forte ressaca. Perderam-se assim 360 vidas da escassa expedição. Mas nem por isso o desânimo se abateu sobre o Governador, marinheiros e infantes. Todos ardiam no desejo de extirpar de Angola a heresia e seus fautores.

Salvador, porém, agia com prudência. Desembarcado, fez espalhar a notícia de que mais forças estavam por chegar. Tendo feito um prisioneiro, interrogou-o cuidadosamente e por ele soube que trezentos holandeses e 3 mil indígenas se tinham dirigido contra Massangano, mantendo ali em apertado cerco os poucos portugueses que restavam naquelas pa­ragens. O rei do Congo, a rainha Ginga e quatorze sobas, seus aliados, tinham aderido aos holandeses. Era o momento de agir.

O Governador reuniu um conselho de guerra e explicou aos seus capitães que, estando os hereges a hostilizar os católicos apesar das tréguas concertadas, El-Rei não se incomoda­ria se, apesar destas, eles hostilizassem os he­reges e os expulsassem de uma vez daquelas terras de verdadeira cristandade. O conselho aclamou unanimemente a ideia, declarando seus porta-vozes que estavam dispostos a ga­nhar ou Angola ou o Reino do Céu, morren­do pela exterminação da heresia.

Estratégia para impressionar o adversário

A 12 de agosto entrou a esquadra na baía de Luanda. O Almirante dos Mares do Sul teve o cuidado de não hastear sua bandeira-insígnia para que os inimigos, não a vendo, julgassem virem atrás mais navios. Tal era a ideia que fazia da fraqueza, em número, da expedição que comandava. Mas essa debilidade se tornava em fortaleza, tal era o ânimo de seus soldados e a astúcia do comandante.

Logo de chegada, Salvador enviou aos holandeses um emissário a dizer-lhes que vinha com ordem de estabelecer-se em Quicombo, sem estorvar os súditos das Províncias Uni­das, mas como os via estarem oprimindo os portugueses, resolvera desalojá-los de Luanda, embora, com essa desobediência, arriscasse a cabeça. Intimava-os, pois, a se renderem, se quisessem condições honrosas.

Vendo a baía coalhada pelos quatorze navios e julgando, pela altivez da intimação, que trouxessem grossas tropas de desembarque, os hereges amedrontaram-se e pediram oito dias para resolver. Queriam, na verdade, ajuntar reforços entre os seus que andavam pelo ser­tão. Salvador Correia, vendo que sua oportunidade estava numa ação rápida, concedeu-lhes apenas dois dias, findos os quais seu mensageiro devia alçar bandeira vermelha se não ti­vessem os hereges resolvido pela rendição.

Enquanto esperava o termo do prazo, aprontou seus homens, que não passavam de 650 infantes e 250 marinheiros. A todos estimulou e distribuiu roupa nova, preparando-os para, assim engalanados, enfrentarem o inimigo com solenidade.

Entrementes, os holandeses reuniram todos os soldados de que dispunham e concentra­ram no forte de São Miguel, sobre um morro, e no de Nossa Senhora da Guia, sobre a praia, a maior parte da guarnição, formada por cer­ca de 1.200 europeus, entre holandeses, ale­mães e franceses, mais um milhar de nativos.

À hora aprazada para o sinal de seu men­sageiro, Salvador já se encontrava em seu escaler. Mal avistou a bandeira vermelha, man­dou dar o tiro de peça convencionado como ordem de desembarque.

Inicia a reconquista na véspera a Assunção

Era o dia 14 de agosto, véspera da festa da Assunção, quando desembarcaram os flu­minenses, sem oposição, a duas milhas da cidade. Rezou-se então uma Missa, a que assistiram todos os soldados, com Salvador à frente, dando-lhes o exemplo de, em primeiro lugar, pedir a vitória ao Senhor dos Exércitos e à sua Santíssima Mãe, a quem aquele punhado de brasileiros honrava em sua festa com a firme disposição de darem suas vidas, se necessário fosse, para a extirpação da heresia do Reino de Angola.

Acabada a Missa, Salvador monta seu cavalo, arreado de couro guarnecido de prata. E dá início à marcha, sereno, duro e ágil a um só tempo, o olhar vivo perscrutando todos os cantos do cenário majestoso, onde pode surgir a qualquer momento uma ponta de holan­deses a oferecer-lhe resistência. Sua figura arrasta os comandados — imponente, capacete e couraça brilhando ao sol africano. Sobre a couraça, mantéu de linho branco rendilhado, como os punhos da camisa, arrematando a gola do gibão de perpetuana verdosa; os cal­ções pardos, estreitos, entrando pelas botas de vaqueta, altas até às coxas, com os canos voltados em canhão. A espada desembainhada, risca contra o céu as ordens de marchas e contramarchas, de rumo à direita ou à esquerda.

Menos de 700 homens de Fé e coragem

Por trás das ameias dos fortes, brancos e negros intrigados observam aquele magote de bravos que avança como se fosse o maior exército do mundo: ao todo são menos de setecentos! A explicação de tanta segurança — pensarão os calvinistas — talvez se encontre nos navios, em cujas amuradas se divisam guerreiros com chapéus vistosos. São bonecos que Salvador mandou armar para causar im­pressão aos hereges… Ao todo ficaram nas naus apenas 180 homens, necessários à sua guarda.

A força marcha dividida em duas colunas, uma comandada por Manuel Dias, outra por Francisco Vaz Aranha, o Tormenta. As trincheiras inimigas, guarnecidas por negros muxilandas, são atravessadas com a rapidez do raio. Os fluminenses já ocupam as casas cen­trais da cidade. A coluna de Manuel Dias apodera-se do forte de Santo Antonio. Na Matriz, Salvador manda montar contra os holandeses os canhões por eles abandonados na cidade e junta-lhes mais quatro, que trouxera dos navios. E começa a bombardear o pátio interno do forte de São Miguel.

Ao receber aviso de que os heróicos portugueses sitiados em Massangano já não pode­riam manter a resistência, percebe que chegou a hora do assalto geral.

Não há tempo a perder. Os flamengos não devem receber o reforço dos que sitiavam o reduto lusitano. Ao cair da noite, é dado o sinal do assalto.

As duas colunas atacarão simultaneamente, em convergência. Na confusão da batalha, porém, e com o sol a se por, perde-se a ligação entre uma e outra. O objetivo é atingido com ímpeto terrível, mas sem coordenação. Os ho­landeses repelem o primeiro ataque.

Ao nascer do dia, havia 163 cadáveres de brasileiros que “tinham ganhado o Reino do Céu”. Espalhados ao redor do morro, 160 atacantes jaziam feridos.

Novo sinal de ataque. Enquanto prepara o assalto, Salvador Correia manda intensificar o bombardeio do forte. Mas, no alto deste tremula a bandeira branca!

A capitulação holandesa

O inimigo se dá por vencido e envia um parlamentário. O general age novamente com cautela. Não permite que o mensageiro verifique mais de perto quais os nossos efetivos. E ouve, pacienciosamente, as condições dos hereges. A ocasião não podia deixar de ser aproveitada, enquanto não chegassem os holandeses do interior.

A capitulação foi concluída no prazo de quatro horas. Salvador sabia que não tinha tempo a perder. De acordo com as condições propostas pelos vencidos, a guarnição e todos os holandeses de Angola receberam garantias para se retirarem da província. Essa guarnição de 2 mil europeus e indígenas rendera-se ante a firme disposição de luta de menos de seiscentos soldados católicos, comandados por um general que soubera aprender a lição do Evangelho: “sede simples como a pomba e prudentes como a serpente” (Mat. 10, 16).

Os holandeses ficaram surpreendidos ao perceberem a exigüidade das forças que os tinham vencido tão galhardamente. Arrependeram-se. Mas era tarde: Salvador Correia de Sá, com verdadeiro espírito de soldado e orgulho de português, fê-los embarcar rapidamente em Cassandama, para que fossem expulsos do país no mesmo lugar por onde haviam entrado.

Efeito pânico em dominó: os holandeses abandonam todas as praças

Restava ainda ajustar contas com os nativos. O quilamba Bango-Bango pelejara ao lado do Governador Pedro Cesar de Meneses, morto durante o cerco de Massangano. O rei do Dongo, D. Felipe Ariri, resistira sempre à invasão holandesa e até perdera um filho em combate. Ambos receberam honras públicas em solenidade presidida pelo novo Governador.

O rei do Congo, D. Garcia II, a rainha Ginga e os quatorze sobas seus aliados, que ha­viam aderido aos hereges, foram exemplarmen­te castigados. D. Garcia teve que aceitar novas e duras condições de vassalagem, entre as quais a cessão definitiva da ilha de Luanda aos por­tugueses. A rainha Ginga, depois de obrigada a retirar-se trezentas léguas para o interior, mandou pedir paz e comércio, que só depois de rogos e humilhações suas, foram aceitos.

Com a queda de Luanda, os holandeses abandonaram quase sem resistência todas as praças que haviam conquistado a Portugal na costa ocidental da África, inclusive a Ilha de São Tomé.

Salvador Correia de Sá governou, então, por três anos, o Reino de Angola restaurado. Do outro lado do Atlântico, sua cidade natal ficou sendo administrada por seu substituto Duarte Correia Vasqueanes. Aos fastos do Rio de Janeiro fora acrescentada a glória, de que poucos agora se lembram, de ter armado e custeado, com pesados sacrifícios, a expedição que restaurou, para a Igreja e para Portugal, o Reino católico de Angola.

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Quanta razão tem o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira quando afirma: Todos os ‘entraîneurs’ de massas sabem muito bem que se uma multidão é capaz de um entusiasmo igual a X por um determinado ideal, ela é capaz de um entusiasmo igual a X + 1000 se esse ideal se concretiza em um homem.” (2)

O exemplo de Salvador Correia de Sá nos recorda um herói nacional e nos faz almejar líderes à altura do desafio deste Brasil de 2018.


Notas:  (1) Hildefonso Homero Barradas, Catolicismo no. 257, maio 1972 (subtítulos nossos)

(2) Plinio Corrêa de Oliveira, Em torno de um discurso – “O Legionário” nº 201, 5 de julho de 1936

 

 

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