o-reino-unido-saiu-uniao-europeia-por-meio-um-referendo-no-dia-23-junho-2016-57750fb658d5aO Reino Unido está potencialmente fora da União Europeia (UE), 51,9 a 48,1% a favor da saída. No fundo, ninguém acreditava que depois de uma permanência de 43 anos, ele lhe viraria as costas. O mundo amanheceu em estado de choque. Ou foram apenas a Inglaterra e o País de Gales? De fato o Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte, que é um Estado soberano, é composto de quatro nações constituintes, também chamadas países, ou home nations.

A Inglaterra pode sair só, ou juntamente com o País de Gales?  E os dois outros países que votaram pela permanência? Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia anunciou “discussões imediatas” com Bruxelas e países da UE para “proteger o lugar do país no bloco”. Confirmou: “O segundo referendo de independência é claramente uma opção que deve estar sobre a mesa, e está sobre a mesa”. Por sua vez, a Irlanda do Norte também abriga setores importantes que desejam se unir à República da Irlanda, membro da UE. Esta mesma divisão se manifestou candente quanto a regiões, grandes cidades versus interior, faixas de idades, faixas de renda, faixas de escolaridade.

Ou seja, esfacelou-se política e socialmente o Reino Unido e já apareceram iniciativas querendo consertar o estrago. Circula petição ao Parlamento para que novo plebiscito seja convocado, passam de 2,5 milhões as assinaturas (na hora que escrevo). Esperam que o inglês, repensando o voto, anule o antes impensável, por ora aparentemente irreversível.

O terremoto inglês causou tremores na Europa inteira: existem movimentos reclamando plebiscitos em vários países. Putin dispõe de momento de mais liberdade de ação.

O que virá? Ninguém sabe, confusão nos mercados, nas chancelarias e nas cabeças. Pensar é distinguir. Então, vamos pensar, distinguindo, destacando em particular dois pontos.

Afirmam analistas, a razão maior do voto Brexit foi o temor xenófobo da imigração descontrolada no Reino Unido que ameaçaria empregos, serviços sociais e a cultura do país. Em termos. Os jovens, ainda que os maiores ameaçados pela perda de empregos, votaram maciçamente para permanecer. Pesou aqui o cosmopolitismo. E os velhos, boa parte já aposentada, sentiriam então mais a ameaça cultural e votaram em maioria pelo Brexit. As grandes capitais, de maioria cosmopolita, pela permanência; o interior, apegado aos costumes, pela saída. A mais, a muitos irritava a ditadura burocrática de Bruxelas, 40 mil funcionários e, em alguns, a agenda libertária.

Mudo o ponto de vista. Alguns comentaristas destacam, vejo razão neles, pesou em proporção difícil de avaliar a nostalgia da Inglaterra tradicional, poderosa, com seu traço de insularidade e soberania altiva. Com efeito, deixaram marcas profundas na mentalidade inglesa a Guerra dos Cem Anos, o episódio da Invencível Armada, as disputas com Luís XIV, as batalhas contra Napoleão, a oposição à Alemanha na 1ª Grande Guerra, a luta contra Hitler. Exprimem a posição de um país que se sente ameaçado pela potência dominante no Continente. Este tipo de inglês  cansou de se sentir dependente de Bruxelas. Em reto, o passado cobrou sua fatura. É antipático? Não, de si é saudável a afirmação da personalidade própria e a defesa de suas liberdades e direitos. Nesse aspecto, merece simpatias o voto Brexit.

Viro a página. A Europa sempre teve necessidade de alguma união política para garantir a convivência interna civilizada e ser escudo contra agressões de inimigos. Tal necessidade, ideal perene, esteve entre os fundamentos da multissecular política da República de Roma, depois do Império Romano e foi aspiração carolíngia, bafejando a coroação de Carlos Magno no Natal do ano 800 pelo Papa Leão III. Inspirou o Sacro Império, fez parte da política secular dos Habsburgos. Napoleão representou concepção desnaturada do mesmo anseio. Hitler também dele se aproveitou criminosamente. Em dito contexto, os Papas em muitas épocas e ocasiões foram ponto de união, harmonização e defesa da Europa. São exemplos o encontro de são Leão Magno com Átila em 452 e a ida de Henrique IV a Canossa em 1077 para pedir perdão a são Gregório VII.

Na recente crise ucraniana, Putin sentiu a força dessa política multissecular. Em Moscou, diante do autocrata russo, maio de 2015, Angela Merkel, de alguma maneira falando pela Europa, advertiu-o com nota intimidadora: “Nos últimos anos procuramos de modo crescente a cooperação [da Rússia e Alemanha]. A anexação criminosa e ilegal da Crimeia e a guerra na Ucrânia oriental representaram séria derrota nessa cooperação”. Aliás, até agora foram dela as mais sensatas e construtivas palavras na presente crise: “A União Europeia não precisa ser dura com os britânicos”.

Não convém subestimar o perigo latente. A saída da Inglaterra pode ser enorme passo no rumo do desconjuntamento e da desagregação europeia, que entre outras sequelas ficaria mais exposta ao poder russo, em especial Polônia, Hungria, países bálticos, países nórdicos. A Europa estaria ainda em condições pioradas para fazer frente ao poder islâmico expansionista e às manobras imperialistas de Beijing.

De outro lado, a advertência do voto inglês pode ter efeito saudável. Como instância suprema, à Europa não ajuda um poder intervencionista, burocrático, libertário em temas morais. Precisa, isso sim, de um poder de harmonização e defesa que respeite o princípio de subsidiariedade, bem como tenha em consideração direitos de povos, regiões e famílias.

Havendo saída de algum país, que sejam preservados os mais decisivos interesses europeus; se houver permanência, que daqui em diante não sejam mais lesionados direitos de povos, regiões e famílias.

2 COMENTÁRIOS

  1. Eu sou europeu. O meu País pertence ao Bloco Unido da Europa, chamado inicialmente CEE (comissão económica europeia) há mais de 30 anos e podia ter sido um membro fundador com o Tratado de Roma, se a França, Alemanha, Itália e Benelux tivesem tido uma visão mais avançada sobre as relações futuras de Portugal e da CEE com as províncias ultramarinas portuguesas. Na posição que, então, possuia, lutei muito para essa união.
    Procurava-se então uma união de mercado e uma Europa dos cidadãos, mas não uma Europa das Nações, na definição sábia de Charles De Gaulle, político com o qual pouco simpatizo.
    Com os Tratados de Maastricht e Lisboa começou o descalabro da Europa, cujos países se viram membros de uma espécie de federação, a União Europeia, sem que a população fosse chamada a opinar (e quando foi, em dois ou três casos, votou contra).
    A maior parte dos países da Europa são soberanos há mais de 800 anos (Potugal, o país, com as delimitações atuais, mais velho da Europa, com 892 anos) e criaram hábitos, pensamentos, culturas, economias, próprias para si, sempre com consciência ativa de soberania que não se coaduna com uma união forçada, em que um governo, não eleito e nem responsável perante um parlamento eleito, governa a bel prazer.
    Demorou muito esta união. Está no de voltar atrás, para que a união dos países não seja mais do que uma união económica.
    Nesse sentido, parabenizo os britânicos, todos e não apenas os de Inglaterra e País do Gales.
    Parece que se está a querer dividir a Grã-Bretanha em “condadozinhos” estando dentro do mesmo condado o conjunto de circunscrições que votaram a favor ou contra o Brexit.
    Hoje, está na língua de todos que o Brexit foi aprovado por 51,9 contra 48,1%. Muito bem; então a Escócia quer permanecer porque lá a votação foi 60 a 40 a favor da permanência. Mas se na Escócia a votação foi 60 a 40 pela permanência, então na Inglaterra a votação a favor do Brexit foi muito maior do que que os 51,9%. Ninguém a ponta esse número. E se a votação nos grandes centros (como Londres) foi favorável à permanência, então nos meios interiores a votação pelo Brexit atingiu números altíssimos. Ninguém os aponta.
    Se a Escócia não sai e assim cria um novo Estado, porque não se cria um novo estado na Álsácia, Lorena, Baviera, Catalunha, País Vasco, Córsega, Madeira, Açores, etc., etc.
    Vamos fazer uma Europa de mil paísinhos? O sonho ideal do burocratas de Bruxelles.

  2. analisando esta saida da Inglaterra da UE, temos outro ponto de visao… sabemos que os globalistas dividiram o mundo em 10 blocos.. a UE é o bloco número 2 na escala de divisao de poder. esta saida pode vir desmoronar este bloco o qual seria um golpe nos globalistas.
    Por outro lado a UE esfacelada é um trunfo nas mãos de Putin, que pode avançar com seu projeto de dominação da europa.
    Ou seja, de qualquer modo, se nao cair nas mãos dos globalistas cai nas maos de putin da Russia. qual do males o melhor?

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