Gabriel J. Wilson

Quem nunca ouviu repicar um sino de boa qualidade ou as notas de um carrilhão cheias de harmonia não conhece uma das belezas com que, em seus tempos áureos, a Religião católica tornava mais amena e mais interessante a vida social, mesmo nos vilarejos mais isolados.

O tufão malfazejo do progressismo varreu, entretanto, a maior parte dos traços do que fora outrora uma sociedade civil verdadeiramente cristã, em suas instituições, em seus costumes, em seu espírito. E o resultado foi o deserto espiritual no qual padece hoje o homem moderno. Deserto que é tanto mais cruel quanto maior for a cidade onde vivem almas sem família, sem amizades verdadeiras, sem pastores que as orientem no caos contemporâneo.

Em nossos dias, assim também são os campos, mesmo em países onde o brilho cristalino da doutrina cristã plasmou uma das mais belas, senão a mais bela civilização que já tenha existido. Refiro-me à França do tempo das catedrais.

Muitas catedrais erguiam-se não só pela virtude dos santos ou pela ciência dos arquitetos, mas sobretudo pelo entusiasmo do povo, que via na casa de Deus um refúgio não só espiritual mas até físico.

E o apanágio das catedrais era em geral o campanário. O que a catedral era para a diocese, a igreja paroquial o era para a comuna ou município. O mesmo se podia dizer até da mais humilde capela.

Varrida pelas revoluções, pelo vento gélido do laicismo, a França foi atacada de morte em suas mais profundas raízes cristãs. Quase por milagre, entretanto, conservaram-se até nossos dias recordações da sociedade orgânica florescida na Idade Média.

Igreja de Santo Aquilino

Apesar de quase ninguém mais freqüentar as igrejas, sobretudo nos vilarejos das zonas rurais, paradoxalmente os franceses mantiveram seu apego pela igrejinha do lugar, quase sempre velha de alguns ou de muitos séculos.

– “Ne touchez pas à mon clocher” – “Não mexa com o meu campanário”, dizem eles, para significar que não se toque na velha igreja, apesar de não se celebrar mais a Missa, senão ocasionalmente. A igreja ou o campanário é o ponto de honra do vilarejo. E os habitantes, ainda que ateus confessos, mantêm aceso em suas almas esse lume de esperança de um futuro despertar da Fé.

Um exemplo nesse sentido nos vem do Perigord, região Sudoeste do país, reputada por sua culinária e particularmente pelo seu delicioso foie gras ou fígado de ganso preparado segundo um método tradicional.

Saint-Aquilin ou Santo Aquilino é um vilarejo de 495 almas[1]. Sua igreja, de fundamentos góticos do século XII, é o bem que seus habitantes mais prezam, em particular pelo seu campanário, onde três sinos soam harmoniosamente em carrilhão: Saint-Eutrope (584 kg), Marie (1250 kg) e Charlotte (380 kg).

O sino Saint-Eutrope foi fundido há 309 anos por um artesão reputado. Os aquilinenses orgulham-se dele. Mas, durante esse tempo a estrutura que o sustenta rachou-se e o custo de sua restauração foi orçada em 18 mil euros: quantia por demais pesada para o orçamento do vilarejo. Mas seus habitantes – principalmente a Sra. Ani Lespinasse, presidente da associação Amigos de Saint-Aquilin – não desistiram e redobraram os esforços para conseguir o dinheiro. Uma coleta entre os moradores recolheu 8 mil euros. Faltavam 10! Tomados de fervor para perpetuar uma tradição que muitos já perderam, recorreram então a todas as instâncias, desde antigos moradores até organismos do governo regional e de instituições bancárias. E obtiveram!

Sino Saint Eutrope

No dia 12 de Dezembro de 2010, um terço da população de Saint-Aquilin estava reunida para a reinauguração do Saint-Eutrope e ouvir as suas harmoniosas badaladas no carrilhão da saudade que trouxe a muitos a lembrança de tempos mais felizes e inocentes.

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[1] Os dados que seguem são tirados de matéria assinada por Nicolas César, de Bordeaux, publicada no jornal La Croix, de 4-1-2011, p. 19.

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