Centuriões romanos no Novo Testamento

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Centuriões representados na Coluna de Trajano em Roma

Plinio Maria Solimeo

Excetuando-se obviamente nosso Divino Salvador, sua Mãe Santíssima, os Apóstolos e as Santas Mulheres, dentre as figuras mais atraentes do Novo Testamento estão alguns centuriões romanos que aparecem nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Embora geralmente fossem pagãos, seguindo a Lei Natural que Deus colocou na alma de todos os homens, muitos deles praticavam a caridade e as boas obras, o que os predispunha a receber a verdadeira fé.

O exército do Império Romano dividia-se em várias unidades. Sua grossa maioria, como é compreensível, compunha-se dos simples soldados, ou “legionários”. Logo acima destes vinham os chamados “decanos”, que tinham sob seu comando 10 legionários (ou uma decúria). O “centurião”, por sua vez, era um oficial que comandava 10 decanos (100 homens, ou uma centúria). Acima dele estava o “tribuno”, que tinha a seu cargo quatro ou cinco centuriões, ou seja, de 400 a 500 homens, ou uma “coorte”. Vinha acima o “legado”, que comandava 10 tribunos, ou seja, cerca de cinco mil homens. Esses legados prestavam obediência ao primeiro escalão político, o dos cônsules, na época republicana, e o dos comandantes gerais na época Imperial. Estes, por sua vez, comandavam toda uma Legião.

O posto de centurião equivaleria hoje ao de um capitão de exército na hierarquia militar. Geralmente eram escolhidos entre os da tropa, tendo em vista sua coragem e confiabilidade, após 15 a 20 anos de serviço. Entretanto, alguns poderiam ser nomeados diretamente pelo Senado ou pelo Imperador.

Além de comandar seus homens, cabia ao centurião garantir a ordem local das províncias, e mesmo organizar o recolhimento dos impostos.

Os centuriões citados no Novo Testamento, em geral o são de forma positiva, por seu respeito aos judeus e imparcialidade de julgamento.

O primeiro de que nos ocupamos é um centurião de Cafarnaum, mencionado nos Evangelhos de São Mateus (8, 5-13) e de São Lucas (7, 2-10).

Embora seu nome não tenha passado para a História, por seus traços fornecidos pelos evangelistas vemos tratar-se de um oficial muito coerente, responsável, e de tal maneira aberto para com o povo dominado, que tinha vários amigos entre eles, e construiu mesmo sua sinagoga. Sobretudo era compassivo e acessível para com seus servos e subordinados, como veremos.

Quando um deles, a quem estimava especialmente, ficou muito doente com perigo de vida, esse centurião — que ouvira falar de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus milagres — mandou alguns de seus amigos judeus para procurá-Lo e pedir a cura do servo.

São Mateus e São Lucas narram esse episódio com pequenas diferenças, mas coincidindo no essencial, que foi quando o Divino Salvador, atendendo ao pedido do militar, prontificou-se a ir curar seu servo, que este lhe mandou dizer: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz… Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel”. Assim, esse centurião deu provas de uma crença do poder curativo do Messias, que dificilmente encontrava paralelo, mesmo entre os judeus daquele tempo.

O que levou Nosso Senhor a elogiar a atitude desse oficial romano, que apesar de provir do mundo pagão estava tão aberto a segui-Lo, como explica São Lucas: “Ouvindo isto, Jesus maravilhou-se dele e, virando-se para a multidão que O seguia, disse: ‘Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé’”.

Comenta esse episódio o ilustre arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, em sua atualíssima Concordância dos Santos Evangelhos:

“Admirável a humildade, a confiança deste soldado, cujas obras de caridade lhe mereceram a graça da fé. A Igreja reteve as suas palavras, e sempre que um fiel se apresenta para receber em seu coração a Jesus sacramentado, Ela o faz repetir o mesmo ato de humildade e confiança: ‘Senhor, não sou digno de entrardes em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma ficará sã’”.

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Outro centurião de que fala o Evangelho teve a desdita de ser o responsável pela execução de Cristo Jesus. Pagão, julgando ser o réu que ele tinha que sentenciar apenas mais um dos criminosos comuns confiados à sua guarda, preocupava-se somente em que tudo corresse segundo os procedimentos normais. Por isso supõe-se que, acostumado à crueza sanguinária de seu ofício, aparentemente não teria tido nenhuma emoção diante de tantos e cruéis tormentos infligidos àquele Sentenciado.

Entretanto, algo inesperado ocorreu. Quando Jesus expirava — segundo narram São Mateus (27, 54), São Lucas (23, 47) e São Marcos (15, 39) —, obteve que esse centurião tivesse uma brusca mudança de opinião: Pois O centurião que estava em frente dele [Jesus], vendo de que maneira Ele expirava, disse: ‘Verdadeiramente este homem era Filho de Deus’”. E abriu assim seu coração para a graça divina. O mesmo diziam os aterrorizados soldados à vista dos portentos ocorridos.

D. Duarte Leopoldo comenta também esse episódio:

“Os prodígios que rodearam a morte de Jesus, atemorizaram os soldados, dispondo-os a reconhecer a intervenção de um poder superior. A paciência, a mansidão do moribundo, a majestade dos últimos momentos, falavam ao coração, e estes homens que, mais do que os judeus, ignoravam o que faziam crucificando o Autor da vida, proclamavam sua divindade. Assim, a primeira reparação do deicídio se faz no mesmo lugar do crime, e dos seus próprios algozes recebe Jesus a primeira homenagem dos homens ao vencedor do Inferno. Digna vingança de um Deus: dar a vida aos que lhe deram a morte”.

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Contudo, o mais emblemático de todos os centuriões citados no Novo Testamento é Cornélio, residente em Cesareia, capital da Judéia, que por suas orações e boas obras mereceu a graça de receber o batismo com todos os de sua casa.

É o evangelista São Lucas quem no-lo apresenta, com todo o charme de suas descrições, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

Pertencente à “coorte Itálica”, Cornélio era um homem “piedoso e temente a Deus com toda sua casa, fazia muitas esmolas ao povo e orava a Deus continuamente”. É curiosa essa afirmação, pois certamente tanto ele quanto os seus eram ainda pagãos, tendo sido batizados por São Pedro só mais tarde. O que mostra que, com as luzes da Lei Natural, também se pode chegar ao conhecimento de Deus.

Narra São Lucas que, num determinado dia, o centurião teve uma visão de um Anjo, que lhe disse: “Cornélio […] tuas orações e esmolas foram lembradas diante de Deus”. Pois chegara assim, para ele, o tempo de conhecer a verdadeira fé. Por isso devia mandar alguns homens de sua confiança à casa de Simão, o curtidor, na cidade de Jope, onde estava outro Simão, chamado Pedro, que deveria instruí-lo na religião de Jesus Cristo.

“Êxtase de São Pedro”. Obra de Domenico Fetti (1619), atualmente no Museu de História da Arte em Viena.

Nesse ínterim, em Jope, o futuro chefe da Igreja rezava no alto de um terraço, quando sentiu fome. Enquanto lhe preparavam algo para comer, teve um êxtase [quadro ao lado]: “Ele viu o céu aberto, e de lá descia alguma coisa como um grande pano, sustentado pelas quatro pontas, baixando sobre a terra. Nele havia todo o gênero de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come”. O Príncipe dos Apóstolos, muito caracteristicamente, respondeu: “De maneira nenhuma, Senhor, pois jamais comi qualquer coisa que fosse manchada. Disse o Senhor: Não chames de impuro o que Deus purificou”. Isso ocorreu três vezes, depois do que o pano foi recolhido ao céu.

O Apóstolo ficou pensando no que isso queria dizer, quando lhe informaram que alguns homens o procuravam. Ele os atendeu, e estes lhe explicaram o motivo da visita. “Pedro convidou-os a entrar, e hospedou-os. No dia seguinte partiu com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope”.

Cornélio, entretanto, sabendo que a entrevista com Pedro deveria ter uma consequência transcendental, convidara para ela todos seus parentes e amigos íntimos. Quando o enviado de Deus chegou, o centurião prosternou-se a seus pés “e adorou-o”. O apóstolo o fez levantar-se, dizendo “Levanta-te, pois eu também sou homem”. Cornélio então lhe contou a visão que tivera, e lhe disse: “Agora, pois, todos nós estamos em presença de Deus, prontos a escutar o que te foi ordenado pelo Senhor”.

À vista de tudo isso, Pedro compreendeu então o sentido mais profundo da visão que tivera: “Agora reconheço deveras que não há em Deus acepção de pessoas, mas que em toda nação aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito”. E transmitiu a doutrina do Evangelho aos ávidos presentes.

Foi então que algo surpreendente ocorreu: enquanto ele falava, “desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a prática, e os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios, porque os ouviam falar em várias línguas e glorificar a Deus”.

O que levou o primeiro Papa a dizer: “Poderá, acaso, alguém negar a água do batismo a estes, que receberam o Espírito Santo como nós?”. E mandou batizá-los. Essas foram as primícias da universalidade da Igreja.

É preciso uma explicação para se compreender a importância transcendental da conversão desse centurião romano. No-la dá o Frei Mateus Hoepers, O.F.M., em sua obra Novo Testamento:

“A história da conversão de Cornélio tem uma importância especial no corpo dos Atos dos Apóstolos. O problema mais grave da Igreja primitiva eram a impureza dos incircuncisos para os judeus, e ainda todas as prescrições de pureza levítica que tornavam impossível a convivência com os pagãos. A instrução, que o supremo chefe da Igreja recebe do céu e do Espírito Santo, foi decisiva para a missão entre os gentios. No Concílio dos apóstolos, Pedro se refere ao episódio de Cornélio (15, 7 e ss) para a solução definitiva da questão. Só removidos estes obstáculos, Paulo podia dedicar-se à sua grande missão. Por isso São Lucas deu um destaque particular a essa história pelo agrupamento literário dos quatro cenários e quatro cenas”.

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         Os Atos falam de vários outros centuriões anônimos que participaram mais ou menos ativamente da prisão e encarceramento do Apóstolo São Paulo. Contudo, nada fizeram de mais notável, razão pela qual deve ser mencionado apenas de passagem o centurião Júlio, responsável pelo transporte de São Paulo a Roma. Embora ele tivesse ignorado os conselhos do Apóstolo, que teriam impedido o trágico naufrágio de sua nave; e depois, para salvá-lo, não permitiu que seus soldados matassem os prisioneiros que estavam a bordo, dando-lhes a oportunidade de nadar para a praia. Com isso o Apóstolo dos Gentios pôde chegar são e salvo a Roma.

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